O arranque do Conselho Europeu, que se prolonga até esta sexta-feira e antes de os líderes dos 27 mergulharem na espinhosa discussão sobre o orçamento de longo prazo do bloco, ficou marcado por um sentimento de regozijo em relação à Ucrânia, com Volodymyr Zelensky a chegar à reunião ladeado por António Costa e Ursula von der Leyen.O presidente do Conselho Europeu falou numa “semana histórica para a Ucrânia”, com o início das negociações de adesão à União Europeia e o apoio “claro e firme” do G7, enquanto a líder do executivo comunitário referiu que “a maré está a virar”, uma vez que “a Ucrânia está a resistir, inclusive recuperando parcialmente o seu território”. “É um momento realmente fantástico para a Ucrânia”, admitiu o presidente ucraniano. Esta satisfação não impediu que Zelensky levasse consigo novos pedidos para este Conselho Europeu - que fica ainda marcado pela estreia dos novos primeiros-ministros de Hungria, Bulgária, Eslovénia e Letónia -, nomeadamente acelerar o processo de adesão da Ucrânia à UE, uma ideia que está longe de ser consensual. Alguns líderes deram ainda sinais de como será difícil a discussão sobre o Quadro Financeiro Plurianual para 2028-2034, apesar de Costa desejar um acordo até final do ano. Como Rob Jetten, primeiro-ministro dos “frugais” Países Baixos, que disse que a proposta da presidência cipriota “não é uma proposta que possamos levar muito a sério. Penso que estamos muito longe de qualquer acordo”. Já o líder do governo grego, Kyriakos Mitsotakis, alertou que o próximo orçamento não deve aumentar as disparidades entre países do bloco, acrescentado que Atenas, a par de outras capitais, é a favor dos instrumentos de financiamento tradicionais para a coesão e política agrícola comum.Horas antes, também em Bruxelas e um dia após o final da cimeira do G7 - onde o presidente dos EUA e os aliados europeus passaram uma imagem de união, com Donald Trump a subscrever uma declaração de apoio à Ucrânia -, o secretário da Defesa norte-americano decidiu elencar as principais frustrações dos Estados Unidos em relação à NATO, mensagem que, apesar de não ser nova, deixou marcas pelo seu tom de ameaça. Falando antes da reunião dos ministros da Defesa da NATO, a última antes da cimeira de líderes do próximo mês, Hegseth descreveu a Aliança como um “tigre de papel e uma via de sentido único”, informando que o Pentágono irá rever o número de forças americanas na Europa nos próximos seis meses. Falando numa NATO 3.0, Pete Hegseth avisou ainda os aliados que os Estados Unidos pretendem reduzir as suas contribuições para o orçamento da organização se os restantes Estados-membros não estivessem no bom caminho para gastar 5% do PIB em defesa até 2035 - compromisso assumido na cimeira do ano passado em Haia, cedendo a uma exigência de Donald Trump. “As nossas contribuições anuais para a NATO estarão condicionadas ao cumprimento das metas de despesas de defesa de outros países”, disse o norte-americano. “Caso outros aliados não gastem com a urgência necessária, as nossas contribuições serão reduzidas.”Hegseth alertou ainda que os EUA ficarão de olho nos aliados que não estiverem no caminho certo, alertando que alguns países da NATO “falharão” na revisão da postura dos EUA, deixando ainda claro que esta não será apenas um exercício burocrático. “É uma revisão na qual alguns países falharão e outros passarão com distinção. No final, a revisão visa tanto melhorar a postura e o posicionamento das forças dos EUA como reforçar a NATO 3.0”.O líder do Pentágono não esqueceu o Irão, descrevendo como “vergonhosa” a recusa dos aliados em ajudar neste conflito, referindo que os EUA “desafiaram os nossos aliados a apoiar a América quando lhes pedimos a sua ajuda, e muitos falharam”.“Os Estados Unidos defenderam a Europa durante gerações, e o presidente disse apenas que os nossos caças precisariam de levantar voo de bases na Europa ou ter os nossos navios a partir de portos para atacar alvos no Médio Oriente, alvos iranianos que ameaçam os interesses europeus ainda mais diretamente do que nos ameaçam a nós”, criticou Hegseth. “Mas muitos dos nossos aliados disseram que não, ou tentaram afogar-nos em debates jurídicos obscuros, ou criticaram-nos publicamente por fazermos aquilo que eles não estão preparados ou não são capazes de fazer. Foi vergonhoso”.Numa intervenção já depois da reunião dos ministros da Defesa, o secretário-geral da NATO tentou minimizar os ataques de Hegseth, sublinhando que o americano também reconheceu que os aliados aumentaram o seu investimento, gastando mais de 90 mil milhões de euros em despesas extra só em 2025, um valor que classificou como histórico.“Mas ainda há alguns aliados que se mostram um pouco mais cautelosos. O que [Hegseth] tentou fazer hoje foi manter a pressão. E isso é bom”, prosseguiu Mark Rutte, que desde que Trump voltou à Casa Branca tem tido um discurso que procura não antagonizar a presidência dos EUA. “Fico feliz por ele o fazer, porque precisamos de falar a verdade uns com os outros.”Sobre a redução do contigente norte-americano na Europa, o neerlandês referiu que as mudanças tornam os planos “mais realistas e, portanto, mais robustos, porque havia uma dependência excessiva dos EUA”, acrescentando que a revisão americana será “um processo estruturado algures nos próximos seis meses”.Rutte admitiu ainda que a NATO “está a passar por uma transformação massiva, provavelmente a maior da sua história”, o que “significa que também há algumas águas turbulentas, é uma fase difícil”. “Haverá debates, discussões, e isso é bom”, concluiu..Aumenta a pressão para a Ucrânia se juntar à NATO e à União Europeia.Macron elogia “mudança de abordagem” do G7 sobre Kiev e aproximação dos EUA à Europa