Péter Magyar toma posse este sábado, 9 de maio, como primeiro-ministro da Hungria, depois da vitória por maioria absoluta do Tisza nas legislativas de 12 de abril ter posto fim a 16 anos no poder de Viktor Orbán e do Fidesz. A tomada de posse terá lugar no parlamento húngaro, sendo esperada a presença de milhares de pessoas na praça junto monumental edifício neo-gótico em resposta a um apelo feito nas redes sociais pelo futuro governante para uma celebração de “mudança de regime” que durará todo o sábado, curiosamente a data em que é assinalado do Dia da Europa. “Atravessaremos o portal da mudança de regime com uma grande festa. Venham e tragam os vossos familiares e amigos!”, escreveu Magyar.Uma das principais prioridades do seu mandato, e na qual já começou a trabalhar mesmo antes de tomar posse, é desbloquear cerca de 17 mil milhões de euros em fundos comunitários destinados à Hungria, e que foram congelados durante o governo de Orbán devido a preocupações com o Estado de direito e corrupção. Verbas que Budapeste precisa para ajudar a impulsionar a economia.No entanto, apesar de ter conquistado uma maioria histórica – conquistando mais votos e deputados do que qualquer outro partido na história pós-comunista da Hungria –, o mandato de Péter Magyar pode ser mais frágil do que a sua vitória esmagadora deixa antever, pois a sua vitória foi impulsionada por uma abstrata “exigência de mudança” em vez de uma plataforma política específica, criando uma incerteza significativa para o novo governo, conforme mostra um relatório de sondagens pós-eleitorais publicado no final da semana pelo Conselho Europeu dos Negócios Estrangeiros (ECFR, na sigla em inglês).Quando questionados sobre as suas motivações, 67% dos apoiantes do Tisza citaram o desejo por uma reforma sistémica (37%) ou o sentimento anti-Fidesz (30%), apenas 15% foram motivados pela visão do partido (8%) ou pela liderança de Magyar (7%). Além disso, metade dos eleitores do Tisza (50%) considera a insatisfação com o governo anterior como a principal razão para a vitória do partido, enquanto apenas 21% apontam para os atributos positivos do partido ou para o seu programa.Quanto ao programa, os húngaros parecem ter ideias bem definidas sobre o que esperam do governo de Péter Magyar, tanto os apoiantes do Tisza, como a população em geral - ações para reduzir o custo de vida (37% dos húngaros identificaram este como um dos dois problemas mais importantes que o país enfrenta), a qualidade dos serviços públicos (33%), a corrupção e a governação (26%) e o crescimento económico e a criação de emprego (24%). Em contraste, as relações com a União Europeia figuraram apenas como o quinto tema mais importante para os eleitores de Tisza, sendo referidas por apenas 21% dos mesmos e por 15% da população em geral.Mesmo assim, segundo os dados ao ECFR, existe um desejo de melhorar as relações com Bruxelas e garantir o desbloqueio dos fundos congelados durante o mandato de Orbán. Neste sentido, 79% dos húngaros preveem uma melhoria das relações com a UE sob o governo de Tisza, enquanto 73% esperam a libertação de fundos de recuperação, apesar de a maioria (56%) reconhecer que este último processo será difícil.O apoio à União Europeia também se mantém elevado, com 73% dos húngaros a apoiar a permanência do país no bloco, ou mesmo (62%) a apoiar a adesão à zona euro. Curiosamente, apesar da estratégia do governo de Viktor Orbán de aprofundar as relações com outras potências globais, como a Rússia e a China, a visão dominante entre os húngaros (partilhada por 43% a nível nacional) é a de favorecer um maior alinhamento com os seus vizinhos europeus. Já a ideia de Orbán de que a Hungria equilibre as relações entre o Ocidente, a Rússia e a China surge num distante segundo lugar (com 22% a nível nacional).Um problema chamado UcrâniaEmbora a maioria dos húngaros espere que Budapeste melhore as suas relações com Kiev (64%) e aprove o apoio financeiro da UE à Ucrânia (69%) - provavelmente visto por muitos como um pré-requisito para desbloquear os fundos da UE congelados na Hungria -, o interesse por outras formas de apoiar a Ucrânia é limitado.A oposição entre os húngaros continua elevada em relação ao desbloqueio da candidatura da Ucrânia para aderir à UE (54% opõem-se contra 27% apoiam), enquanto o apoio à prestação de assistência financeira ou militar ao esforço de guerra ucraniano é muito baixo (24% da população nacional é favorável a que o governo forneça apoio financeiro à Ucrânia, contra 63% que se opõem; e apenas 12% apoiam que Budapeste forneça apoio militar à Ucrânia, enquanto 77% se opõem).Para os autores do relatório do ECFR, Piotr Buras e Pawel Zerka, estas “linhas vermelhas” - e especificamente o caminho da Ucrânia para a adesão à UE - representam um dilema estratégico iminente para o novo governo húngaro. Ao prometer um referendo nacional vinculativo sobre o assunto, Magyar, na opinião destes especialistas, “amarrou, efetivamente, as próprias mãos numa das decisões mais importantes da Europa”.Buras e Zerka defendem ainda que permitir que o “não” prevaleça acarretara o risco de um novo confronto com os líderes da UE, desfazendo potencialmente os esforços para reintegrar a Hungria na corrente principal europeia, ao mesmo tempo que desafiar um resultado negativo no referendo provavelmente coloca em risco o mandato democrático que levou Tisza ao poder.Mesmo assim há que ter em conta que 50% do eleitorado de Péter Magyar apoia a ideia de que, "em princípio", a Ucrânia deveria eventualmente tornar-se membro da UE, contra 37% dos eleitores de Tisza que se opõem à ideia.Ainda no capítulo do que os húngaros não querem está a diversificação da origem da sua energia, de forma a reduzir a dependência energética da Rússia – outro dos cavalos de batalha entre Viktor Orbán e Bruxelas, com mais de metade dos inquiridos (52%) opõe-se à ideia de interromper as importações de energia russa do país, enquanto 30% a apoiam.De acordo com o ECFR, as opiniões dos eleitores do Tisza sobre esta questão foram as que mais mudaram em comparação com outras questões entre o período anterior e posterior à eleição, talvez como consequência do conflito no Médio Oriente e os efeitos que está a ter na Europa, nomeadamente energéticos. Antes da eleição, dois terços (66%) dos eleitores do Tisza eram a favor da suspensão da compra de combustíveis russos, e apenas 24% eram contra. Agora, apenas 48% dos eleitores do partido de Péter Magyar são a favor do abandono da energia russa, enquanto 38% se opõem. Embora isto dê aos húngaros uma maior margem de manobra internamente, corre o risco de gerar tensões futuras com Bruxelas.“A vitória esmagadora de Péter Magyar foi um voto pela mudança interna, não por uma reviravolta geopolítica. Embora os húngaros estejam prontos para virar a página de anos de corrupção e isolamento, estabeleceram limites claros em relação à independência energética e à segurança nacional do país — realidades que precisarão de ser respeitadas pelos líderes em Bruxelas. Para Magyar e o seu novo governo Tisza, o grande desafio dos próximos meses será provar que podem alcançar uma reaproximação duradoura com a UE sem perder o mandato interno que os levou ao poder”, nota Pawel Zerka.Apoio a algum progressismoEmbora Péter Magyar seja amplamente visto como uma figura de direita, muitos dos seus eleitores apoiam uma agenda governamental, em certa medida, progressista, com o ECFR a notar que os os eleitores do Tisza são mais abertos a novas ideias do que se poderia pensar.Por exemplo, mais de dois terços (77%) dos eleitores do Tisza querem que o governo tome medidas mais enérgicas em relação às alterações climáticas, visão partilhada pela maioria dos húngaros (62% a favor contra 26% contra). Uma realidade que pode encorajar o novo governo a considerar as energias renováveis e a energia limpa como uma forma de limitar a dependência do país em relação aos combustíveis fósseis provenientes do leste, nomeadamente da Rússia.Foi também registado um forte apoio entre a base eleitoral do Tisza, e da na população em geral, à proteção dos direitos das pessoas LGBTQIA+ (71% a favor contra 19% contra entre os eleitores do Tisza e 49% a favor contra 32% contra entre a população em geral), o que poderá limitar o custo político para o novo primeiro-ministro na implementação das reformas sociais também exigidas por Bruxelas.De recordar que, há duas semanas, o Tribunal de Justiça da União Europeia considerou a lei anti-LGBTQIA+ da Hungria estabelecida em 2021 pelo executivo de Viktor Orbán como sendo discriminatória e violadora dos valores democráticos básicos, bem como do Direito da União, sublinhando que esta legislação, que proíbe conteúdos sobre pessoas LGBTQIA+ nas escolas e na televisão em horário nobre, é incompatível com uma sociedade baseada no pluralismo e em direitos fundamentais. É esperado pelo TJUE que Budapeste cumpra esta determinação sem demora.A decisão - a primeira em que o TJUE considerou um Estado-membro culpado de desrespeitar o direito comunitário com base apenas na violação dos valores fundamentais do bloco descritos no artigo 2.º do seu tratado (que incluem o respeito pelos direitos fundamentais e o Estado de Direito) - representa um primeiro teste para o governo de Péter Magyar, que precisa de fazer reformas para desbloquear os fundos de Bruxelas, alguns deles suspensos por causa desta lei. A grande questão é o que fará Magyar, já que manteve em silêncio sobre os direitos desta comunidade durante a campanha, preferindo focar-se em questões não controversas, como a saúde ou a corrupção..Magyar quer Hungria mais democrática e próxima da UE, mas mantém algumas das críticas de Orbán.Cunhado de Magyar desiste de ser ministro da Justiça da Hungria para evitar mais polémicas