Xi Jinping e Donald Trump reencontram-se na quinta-feira num local de profundo simbolismo, no complexo do Templo do Céu, e mais concretamente no Salão de Oração pelas Boas Colheitas. Esta joia da arquitetura datada do século XV, uma construção circular de madeira com três telhados assente numa base de mármore de três andares, tinha como finalidade, como o nome dá a entender, a realização de cerimónias religiosas em que o imperador pedia ao Céu uma colheita farta. Além de ser um local representativo da cultura chinesa e ligado à reafirmação do poder imperial, tem uma ligação aos Estados Unidos: em resultado de um incêndio, foi reconstruído no final do século XIX com sequoia norte-americana, disse o historiador Lars Ulrik Thom à Reuters. Que melhor local para relançar uma relação tensa entre as duas maiores economias, num ano em que se espera que os dois líderes se encontrem mais três vezes? Manter as aparênciasA cimeira de dois dias realiza-se a meio de uma trégua de um ano da guerra comercial renovada pelo presidente norte-americano e de um cessar-fogo da guerra dos EUA com o Irão. Num e noutro caso ambos os líderes encontram argumentos para apontar o dedo ao outro. Mas o momento não é de voltar para a trincheira. As políticas do presidente dos EUA em relação à imigração, à economia e à guerra tornaram-no ainda mais impopular. Segundo o estatístico Nate Silver, a média das sondagens aponta para uma taxa de aprovação negativa de 19,5%, numa queda acentuada desde o início da presidência (quando tinha 11,7% de taxa de aprovação). A possibilidade de transmitir uma vitória ao eleitorado, ainda que de algo já há muito planeado, como a venda de bens à China, é uma oportunidade a não perder. Há umas semanas, publicou na sua rede social: “O presidente Xi vai dar-me um grande e forte abraço quando eu lá chegar (...) Estamos a trabalhar juntos de forma inteligente, e muito bem! Não é melhor do que lutar???”. .Trump e Xi: Uma relação de elogios e sorrisos marcada por tensões.Do lado chinês, Xi Jinping ensaia a versão da magnanimidade do seu regime. Basta ler a imprensa oficial para notar o tom distendido e quase paternalista com que a visita é tratada. A agência Xinhua recupera a primeira conversa telefónica do ano entre ambos— já falaram cinco vezes ao telefone desde a reeleição de Trump — e na qual Xi afirmou: “Espero trabalhar consigo para conduzirmos o gigante navio das relações China-EUA através dos ventos e ondas, mantê-lo numa rota estável e alcançar mais resultados importantes e positivos.” Como antes fizera com Vladimir Putin (embora com outras dimensões), Xi recebe de braços abertos um líder em dificuldades, mostrando ao mundo quem é o garante da estabilidade e previsibilidade. Além disso, fá-lo com um Trump que não só já desistiu de pressionar o regime comunista a mudar as suas políticas consideradas injustas para a concorrência como acabou por incorporar algumas ideias de intervencionismo, ao exigir aos parceiros comerciais o investimento em projetos nos EUA, mas também ao entrar no capital da fabricante de semicondutores Intel, em empresas de minerais críticos e até com uma golden share na empresa de aço US Steel depois de esta ter sido adquirida por japoneses. “Toda a conversa sobre equidade está a desaparecer porque, em primeiro lugar, não só acreditam que não conseguiriam fazer os chineses ceder nestas questões, mas ainda mais porque os EUA decidiram intervir fortemente na própria economia americana”, disse ao Washington Post Scott Kennedy, conselheiro do Center for Strategic and International Studies. Relações comerciaisO défice comercial foi um dos argumentos usados por Trump no seu primeiro mandato para as suas políticas protecionistas. Nesse campo, os EUA reduziram o desequilíbrio com a China de 375 mil milhões de dólares em 2017 para 202 mil milhões no ano passado e com as previsões a apontarem para 134 mil milhões neste ano, graças à enorme redução da importação de produtos chineses (de 22% do total das importações para 7,5%). Na realidade, porém, a balança entre exportações e importações dos EUA continuou a pender ainda mais para estas últimas, ou seja, os produtos antes fabricados na China passaram a sê-lo noutros países asiáticos e importados pelos EUA. .Exportadores chineses mais do que compensam os efeitos da guerra comercial iniciada por Trump.Já a China encontrou outros mercados para as suas exportações, ao ponto de, em 2025, o superávit comercial ter atingido 1,2 biliões de dólares, o maior alguma vez registado. Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA, disse que este é agora o maior risco para a economia global. “O mundo não aguenta uma China com um superávit de um bilião de dólares”, afirmou. Ao regressar à Casa Branca, Trump reeditou a guerra comercial que já ia em taxas aduaneiras de 145% quando, em maio, equipas de negociadores alcançaram uma trégua, a qual foi prolongada por um ano em outubro. Pequim levou para a mesa uma arma temível: a limitação da exportação de minerais críticos, essenciais para a produção de tecnologia de ponta e da qual os EUA dependem — indústria de defesa incluída. Para contrariar os planos de Trump, o Supremo rejeitou a política de imposição de taxas aduaneiras por decreto presidencial. E no início do mês o Ministério do Comércio chinês ordenou às empresas para ignorarem as sanções que os EUA haviam imposto a cinco refinarias do país que trabalham com petróleo iraniano. “O objetivo da China é ganhar mais tempo para consolidar a sua posição tecnológica e industrial e reanimar a sua economia em dificuldade; o objetivo dos EUA é provavelmente assegurar vitórias simbólicas em vez de reformas estruturais mais significativas no modelo económico da China”, assinala um texto de vários autores do norte-americano Council on Foreign Affairs. É de esperar o anúncio da aquisição de aviões da Boeing — cujo administrador faz parte da delegação, assim como outros 16 empresários —, assim como de soja. Em paralelo, poderá ser anunciado o ‘Conselho do Comércio’ e o ‘Conselho de Investimento’, organismos já delineados em conversações de nível técnico e que têm como objetivo identificar produtos norte-americanos do valor de 30 mil milhões que a China importaria, para serem compensados por uma quantidade equivalente de importações de produtos chineses para os EUA. Inteligência ArtificialAo Telegraph, uma fonte próxima de Trump disse que a delegação entraria nas negociações “mais confiante” devido ao domínio no mercado de semicondutores de IA e pela alegação de que os chineses ficaram “diminuídos militarmente, na Venezuela e agora no Irão”. No que respeita à IA, a administração Biden acordou com Pequim que só seres humanos podem decidir pelo uso de armas nucleares. Mas há muito mais para discutir sobre o tema, no qual a China deseja ter mais acesso - e sobre o qual os norte-americanos acusam os chineses de tentar roubar a tecnologia norte-americana. Segundo o South China Morning Post, poderão ser criados “canais de comunicação sobre os riscos da IA militar para prevenir a escalada de crises”.TaiwanNão é de esperar uma mudança sísmica no tema, mas a Xinhua recorda que este assunto é o “mais importante e sensível” nas relações bilaterais. Há quem, na China, acredite que Trump possa ser convencido a “reconhecer” que a ilha faz parte da China, uma mudança subtil mas importante nos termos diplomáticos.IrãoPor fim, mas não por último, o Irão será decerto tema a discutir. Um dos países está envolvido numa guerra, o outro é seu aliado e é comprador de 90% do seu crude, essencial não só para os combustíveis, mas também para o plástico. Há dias, Bessent disse para Pequim pressionar o Irão a reabrir o estreito de Ormuz, e os chefes das diplomacias da China e do Irão reuniram-se, a pedido do regime comunista. Xi Jinping propôs um plano de quatro pontos para a paz. Até que ponto a China estará interessada em envolver-se — o seu maior sucesso diplomático foi o restabelecimento de relações entre o Irão e a Arábia Saudita — é a grande incógnita.Sexto encontro A cimeira protagonizada por Xi Jinping e Donald Trump marca a sexta ocasião em que ambos estão juntos. A primeira decorreu há nove anos num ambiente pouco convencional, na residência/estância turística do norte-americano na Florida. No mesmo ano seguiu-se um encontro à margem do G20, em Hamburgo, e uma visita de Estado de três dias do norte-americano a Pequim. Na sequência da guerra comercial iniciada por Trump, ambos voltaram a sentar-se à mesa em Bueno Aires, em 2018, e em Osaca, no ano seguinte, mais uma vez à margem da cimeira das 20 maiores economias. A última reunião aconteceu no aeroporto de Busan, Coreia do Sul, em outubro passado.