Huang descobriu a cortiça quando vivia em Itália, onde passou parte da infância e juventude.
Huang descobriu a cortiça quando vivia em Itália, onde passou parte da infância e juventude. Foto: Raul Adriano / Lusa

Chinês Jinky Huang e a cortiça portuguesa: a matéria que molda a arte e promove a sustenbilidade

"Quando descobri a cortiça percebi que podia ter muito mais formas e possibilidades”, diz o artista, que há 20 anos usa cortiça importada para promover uma visão de arte sustentável.
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A cortiça portuguesa ganhou nova vida nas esculturas e instalações do artista contemporâneo chinês Jinky Huang, que há duas décadas utiliza o material importado de Portugal para promover uma visão de arte sustentável. Huang contou à Lusa que descobriu a cortiça há cerca de 20 anos, quando vivia em Itália, onde passou parte da infância e juventude. “Vi alguns materiais feitos de cortiça que estavam à venda e achei que era um material muito especial”, recordou.

A variedade de aplicações era então limitada, mas o potencial criativo despertou-lhe interesse imediato. “Gosto de trabalhar com materiais novos e especiais. Já fazia instalações, esculturas e até roupas com materiais diferentes. Quando descobri a cortiça percebi que podia ter muito mais formas e possibilidades”, disse.

O artista afirma ter desenvolvido centenas de técnicas e aplicações para o material, que hoje utiliza em esculturas, mobiliário e objetos de design, incluindo cadeiras, esculturas e acessórios. “Do ponto de vista da sustentabilidade, da reciclagem e do respeito pelo ambiente, a cortiça é um dos melhores materiais do mundo”, contou.

A matéria-prima utilizada nas suas obras é importada de Portugal, país que o artista já visitou para contactar produtores. “Portugal tem a melhor cortiça”, afirmou Huang, acrescentando que a espessura e a resistência da cortiça portuguesa são superiores às da produzida na China.

As exportações portuguesas de cortiça atingiram, em 2025, cerca de 148 mil toneladas, no valor de 1,1 mil milhões de euros, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), um aumento de 1,7% face a 2024.

Apesar de trabalhar com a cortiça há cerca de 20 anos, Huang reconheceu que este material continua relativamente pouco conhecido no país asiático. “A maioria das pessoas na China só tem contacto com a cortiça através das rolhas de vinho”, afirmou.

Segundo Huang, a sua trajetória ajudou a divulgar a cortiça no país: “Hoje, quando muitas pessoas na China falam de arte em cortiça, pensam em mim”. Em 2024, Portugal exportou 19 milhões de euros em cortiça e produtos de cortiça para a China, segundo dados do comércio internacional baseados na UN Comtrade. Apesar de a China ser um mercado relevante na Ásia, os Estados Unidos e países europeus continuam a absorver grande parte da cortiça portuguesa.

Com o tempo, a utilização da cortiça levou Huang a aprofundar o conceito de sustentabilidade na criação artística. “No início não pensava tanto na sustentabilidade. Só queria fazer algo diferente. Foi a cortiça que me fez compreender realmente o que significam sustentabilidade, reciclagem e respeito pelo ambiente”, afirmou.

A aposta neste material esteve recentemente no centro da exposição Deconstruct the Past Codes Hero: the Sustainable Roads, apresentada em Xangai, a “capital” económica da China, onde Huang reside e mantém o seu estúdio.

A mostra, que recebeu dezenas de milhares de visitantes, reinterpretou duas figuras icónicas da cultura popular asiática – o Rei Macaco, do romance mitológico chinês Jornada ao Oeste, e Astro Boy, personagem criada pelo japonês Osamu Tezuka – através de esculturas e instalações inspiradas na sustentabilidade. Entre os destaques esteve uma escultura do Rei Macaco produzida em cortiça.

Nos últimos anos, o artista apresentou exposições em várias cidades chinesas e afirma que o interesse pelo seu trabalho tem aumentado. “Cada vez mais pessoas conhecem o meu trabalho e visitam as exposições”, disse. Em 2025, realizou quatro exposições na China e prepara agora novas mostras internacionais.

Segundo Huang, estão confirmadas exposições em Singapura, Tailândia e Nova Iorque, enquanto decorrem negociações para novos projetos na Europa. Além da atividade artística, Huang dá aulas e palestras em universidades chinesas, como a Academia Central de Belas-Artes de Pequim, a Academia de Belas-Artes da China e a Universidade Tongji, em Xangai. “O meu objetivo é que mais artistas se juntem a esta ideia. Quero que as novas gerações participem neste movimento”, afirmou.

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