O Canadá e a Índia anunciaram esta segunda-feira, 2 de março, vários acordos, após os seus primeiros-ministros se terem reunido em Nova Deli para restabelecer as relações bilaterais entre os dois países, que se tinham deteriorado nos últimos anos devido às tensões diplomáticas. “Não se trata apenas da renovação de uma relação. Trata-se da expansão de uma parceria valiosa com novas ambições, foco e visão de futuro”, afirmou o canadiano Mark Carney, que seguirá depois para a Austrália e Japão no âmbito da sua estratégia para diversificar os parceiros comerciais do Canadá e atrair investimentos.Entre as parcerias estabelecidas entre os dois líderes está um acordo de energia nuclear de dez anos, mas também acordos em áreas como a tecnologia, os minerais críticos, o espaço, a defesa e a educação. O primeiro-ministro canadiano revelou ainda que esperam concluir um acordo de comércio livre até ao final do ano, “com o objetivo de duplicar o comércio bilateral nos próximos cinco anos”. Este acordo estava a ser negociado há 15 anos e surge numa altura em que Otava e Nova Deli estão a tentar reduzir a exposição às tarifas comerciais dos EUA.“O nosso objetivo é atingir os 50 mil milhões de dólares em comércio bilateral. É por isso que decidimos finalizar em breve uma parceria económica abrangente”, explicou o indiano Narendra Modi. “Na área da energia nuclear civil, chegámos a um acordo histórico para o fornecimento de urânio a longo prazo. Também trabalharemos em conjunto em pequenos reatores modulares e reatores avançados”. De acordo com o gabinete de Carney, a Parceria Estratégica de Energia entre os dois países - que inclui Gás Natural Liquefeito, Gás de Petróleo Liquefeito, urânio, energia solar e hidrogénio - tem como um dos seus primeiros passos um “acordo histórico” de 2,6 mil milhões de dólares canadianos entre Nova Deli e a empresa canadiana Cameco para o fornecimento de cerca de 11.000 toneladas de urânio à Índia para a geração de energia nuclear entre 2027 e 2035. O primeiro-ministro indiano descreveu os dois países como “parceiros naturais em tecnologia e inovação”, referindo que vão intensificar a cooperação em inteligência artificial, supercomputação e semicondutores.Num comunicado conjunto, e numa altura em que os dois países celebram os 79 anos do estabelecimento de relações diplomáticas, Carney e Modi “reafirmaram a importância da relação Canadá-Índia, assente em valores democráticos partilhados, laços profundos entre os povos, respeito pela soberania e integridade territorial e um compromisso conjunto com o Estado de direito”.Declarações que mostram como a relação bilateral melhorou desde que as autoridades canadianas alegaram que a Índia esteve envolvida no assassinato de um ativista sikh canadiano perto de Vancouver, em junho de 2023. Alegações negadas pelas autoridades indianas que, por seu turno, acusaram o governo do então primeiro-ministro Justin Trudeau de abrigar extremistas sikhs separatistas do Khalistan, um movimento ilegal na Índia. Disputa que levou à expulsão de diplomatas dos dois lados e à suspensão de alguns serviços de vistos. Os primeiros sinais de estabilização surgiram na Cimeira do G7 no ano passado no Canadá, quando o convite de Carney a Modi assinalou um avanço diplomático. “A visita de Carney à Índia sugere que o reatamento das relações está a passar do simbolismo à implementação”, escreve Saira Bano, professora assistente de Ciência Política na canadiana Universidade Thompson Rivers, notando que esta melhoria de relações “está também em linha com a visão mais ampla de Carney sobre a política externa, articulada em Davos, de que as potências médias devem cooperar mais estreitamente em resposta às fraturas na ordem global”.Para esta analista, “a inclusão da Índia numa digressão mais ampla pelo Indo-Pacífico, juntamente com a Austrália e o Japão, sublinha que este envolvimento faz parte de uma recalibração estratégica mais abrangente”, notando ainda que “estabilizar as relações com a Índia não é, portanto, um mero exercício bilateral. Trata-se de posicionar o Canadá de forma mais credível na região do Indo-Pacífico e de reforçar a coordenação entre as potências médias democráticas que enfrentam a incerteza geopolítica”..Carney criticou rumo dos Estados Unidos, Trump não gostou e já começou a retaliar.Após uma década de tensão, Canadá vira-se para a China com visita de Carney a Xi Jinping