Jair Bolsonaro pode estar inelegível por oito anos e a cumprir pena de prisão de 27 por golpe de estado mas o apelido da família continua ativo. E de que maneira. Além do primogénito, Flávio Bolsonaro, candidato a presidente empatado ou até à frente do presidente Lula da Silva nas sondagens de segunda volta, também o terceiro e o quarto filhos, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, a ex-mulher Rogéria Bolsonaro e o irmão Renato Bolsonaro concorrem com o nome Bolsonaro no boletim de voto.“A vantagem de carregar o apelido é ter um apoio expressivo de uma parcela significativa da população que votou em Jair Bolsonaro, maior líder da direita brasileira, garantindo um eleitorado fiel que tende a apoiar candidaturas associadas ao seu nome”, defende Téo Cury, analista da CNN Brasil. “Porém”, completa, “o apelido também enfrenta alta rejeição, fenómeno comum quando se trata de lideranças polarizadoras, sejam elas de esquerda ou direita”.Flávio, do Partido Liberal (PL), é senador, tem 44 anos e foi escolhido como sucessor pelo próprio pai, através de uma carta assinada pelo em que o incumbe de liderar a extrema-direita contra Lula. O 01, como é chamado, ocupou dessa forma a vaga que se acreditava pertencer a Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo que vai assim concorrer ao segundo mandato no estado.Se Tarcísio, que não tem o apelido Bolsonaro embora seja aliado do ex-presidente, a quem serviu como ministro da Infraestrutura no governo brasileiro anterior, viesse mesmo a concorrer, o nome mais falado para sua vice era o de Michelle Bolsonaro, a atual mulher de Jair, mãe da quinta filha do presidente, Laura, e líder do PL Mulher. Por esse e outros motivos, têm surgido atritos entre Michelle, Flávio e os demais enteados na internet.Mas Michelle estará, garantidamente, nas eleições de 2026. É, por ora, pré-candidata a senadora pelo Distrito Federal e com fortes possibilidades de eleição, de forma a expandir a força da extrema-direita na câmara alta do Congresso Nacional.Carlos, o 02, e Jair Renan Bolsonaro, o 04, ambos vereadores e também do PL, o primeiro do Rio de Janeiro e o segundo de Balneário Camboriú, cidade turística do estado de Santa Catarina, também concorrem a Brasília. Carlos, 43 anos, é candidato ao senado e Renan, 28, pretende ser deputado federal, os dois por Santa Catarina, estado mais à direita do país. Renato Bolsonaro, irmão mais novo de Jair, também quer ser deputado na Praça dos Três Poderes e já entrou com estatuto de estrela no PL: vai concorrer sob o cobiçado número 2222. No Brasil, cada candidato tem um número e é esse número, e não o nome do candidato, que os eleitores inserem na urna eletrónica; nessa perspetiva, carregar um número fácil de memorizar pode ser relevante para o resultado final e 2222 é, afinal, a simples multiplicação do número, 22, do PL. Porém, outros concorrentes pelo PL sentiam-se merecedores de usar esse número e acusam Renato de chegar como “preferido” de Valdemar Costa Neto, o líder do partido a quem compete distribuir a numeração, e de ser “ruim de voto” – em oito eleições a que se candidatou, só se elegeu numa para vereador da cidade de Praia Grande.Quem usou o 2222 há quatro anos foi Eduardo Bolsonaro, 41 anos, terceiro filho do ex-presidente, e grande ausente da família, ao lado do pai, nas eleições de outubro. A residir nos Estados Unidos – ele define–se como “exilado político”, a oposição chama-o de “foragido da justiça” –, o 03 arrisca prisão no Brasil por coação no curso do processo do golpe de estado. Em dezembro de 2025 perdeu, por excesso de faltas injustificadas, o cargo de deputado e arrisca processo na Polícia Federal, onde exercia cargo de escrivão, por abandono de funções. Entretanto, a primeira mulher de Jair Bolsonaro e mãe de Flávio, de Carlos e de Eduardo (Renan, o 04, é filho de Ana Cristina Valle, a segunda mulher) também vai a jogo em outubro. Rogéria Nantes Bolsonaro, 65 anos, que ocupou o cargo de vereadora do Rio de 1992 a 2000, será candidata a suplente ao Senado.Em resumo, são seis membros diretos da família Bolsonaro como pré-candidatos mas podiam ser oito, se Jair não estivesse inelegível e preso e Eduardo nos Estados Unidos. Mas deve haver muitos mais Bolsonaro sem ligação de parentesco ao ex-presidente: nas municipais de 2020, a reboque da eleição de Jair para o Planalto dois anos antes, 83 candidatos usaram o apelido como alcunha; nas eleições municipais de 2024, foram 72 cidadãos a concorrer com “Bolsonaro” anexado, uma vez que no Brasil, à exceção dos candidatos a presidente da República, não estão vedados nomes de guerra políticos. Usar “Bolsonaro”, no entanto, não é garantia de sucesso: em 2020, apenas um foi eleito.Um caso intermédio nessas eleições foi o de um primo distante de Bolsonaro, um candidato a vereador de Jaboticabal, pequena cidade no interior de São Paulo, chamado Marcos Borsonaro, com “r”, por erro na grafia no registo que contou na altura ao DN concorrer “em nome de Deus, da pátria e da família” como o quase homónimo..Se Flávio for eleito, a família Bolsonaro pode fazer história