Um programa Godesberg pós-covid

2020 mostrou a centralidade de Angela Merkel na política europeia, mas 2021 será o último do seu longo consulado. Haverá mudanças na CDU, eleições legislativas e decisivos meses de pressão sanitária, económica, social e política. Conseguirá a Europa pós-covid adaptar-se à Alemanha pós-Merkel?

A Alemanha tem sido um motor essencial da integração europeia e mostrou em 2020 que, sem a dinâmica que emprega, dificilmente a União Europeia teria as condições indispensáveis para enfrentar 2021. A evolução no pensamento europeu de Angela Merkel ao longo dos últimos três anos tem sido apontada como a causa de um compromisso mais construtivo na arquitetura de competências e recursos da União, mas vale a pena lembrar que pouco antes de março, quando a pandemia mergulhou o continente no pânico generalizado, a chanceler e a CDU passaram por uma dupla crise de autoridade e de estratégia.

Por um lado, a escolhida para a liderança do partido demitiu-se depois de um ano no cargo, como dano colateral do abraço dado pela CDU à AfD no governo regional da Turíngia, uma linha vermelha sagrada no pós-Guerra para os democratas-cristãos. Por outro, a habitual gestão prolongada dos silêncios levou Merkel a perder o tempo das reformas para a zona euro propostas por Paris, a não conseguir desatar o nó do Brexit, a sofrer com a opção russófona pelo gasoduto Nord Stream 2, e a sentir as bases da CDU cada vez mais incomodadas com a sua flexível política de imigração. As sondagens refletiam uma queda, com os Verdes a posicionarem-se como segundo partido ou mesmo como primeiro, captando cada vez mais a atenção do eleitor urbano e jovem, muito dele descontente com o bipartidarismo clássico estruturado em sucessivas grandes coligações, mas suficientemente cosmopolita para rejeitar radicalmente derivas nacionalistas.

A partir de março o cenário alterou-se. Merkel fez jus à sua especialidade na gestão de crises e consolidou-se como figura central da credibilidade das duras decisões sanitárias, reencontrando um rumo estratégico até final do mandato. A sua popularidade atingiu números nunca vistos e a CDU retomou os índices de estabilidade nas sondagens. A dinâmica europeia beneficiou com isso. O eixo franco-alemão assumiu a proposta maximalista que viria a dar corpo às decisões do histórico Conselho Europeu de julho, dotando a UE de instrumentos políticos, financeiros e jurídicos à altura da maior crise da sua história. Coincidentemente, o semestre que agora termina teve Berlim ao leme da presidência rotativa, um reforço de legitimação das dinâmicas comunitárias que, entre outros aspetos, contribuiu para alinhar estratégias com a Comissão Von der Leyen e acautelar o desenlace na produção maciça de uma vacina com o máximo de investimento, celeridade e rigor exigíveis. É justo dizer que 2020 teria sido muito pior sem Merkel.

Acontece que o novo ano começa com nova eleição para líder da CDU. Como sabemos, Merkel não concorre e já fez saber antecipadamente que não se recandidata às legislativas de setembro. Ou seja, cumprido com brilhantismo o semestre à frente do Conselho da UE, a chanceler terá de progressivamente dar palco ao candidato da CDU/CSU, cuja popularidade está longe dos seus calcanhares, assim como a capacidade para se impor no debate político. Os três candidatos (Laschet, Merz e Rottgen) têm uma história bem diferente de Merkel, vêm todos da Renânia do Norte-Vestefália, o mais rico e populoso estado alemão, e são figuras sem protagonismo na linha da frente. Friedrich Merz, o favorito, está mais interessado em recuperar eleitores da AfD, que aliás perdeu força durante a pandemia, do que alinhar com o centrismo de Merkel, o preferido dos dois outros candidatos. Merz não está só na direita da CDU como vai a votos pela terceira vez no partido, o que revela algum recalcamento. Acresce um traquejo político desconhecido da maioria dos alemães, depois de anos no setor privado, o que não traz confiança aos eleitores nesta fase tão crítica. Contudo, há um detalhe ainda mais alarmante e que vem surgindo a espaços no debate alemão, levantado recentemente pelo ex-ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble: a hipótese de o candidato da CDU/CSU às legislativas não ser o líder do maior partido, mas o político mais popular desse espaço: o líder da CSU, Markus Soder, alguém que podia estar perfeitamente na Afd.

Quer isto dizer que podemos entrar em 2021 com Merkel e terminar o ano com Soder ou Merz, o que no domínio interno pode inviabilizar coligações com o SPD ou com os Verdes, forçando uma crise política, e no domínio externo criar novas entropias à política europeia da Alemanha, com custos para a força da UE. É aqui que as alternativas devem ser tidas em conta. Olaf Scholz, candidato a chanceler pelo SPD, atual ministro das Finanças e um parceiro de Merkel na gestão da atual crise, tem sido um importante pilar da evolução da política europeia alemã, embora não descole nas sondagens. Precisa que a recuperação económica se sinta no próximo semestre, além de encontrar a centralidade política necessária, aproveitando o final de mandato de Merkel. Pode beneficiar de alguma flutuação de voto ao centro, mas o que se tem visto é a capitalização desse espaço pelos Verdes, cuja antecipação na defesa do Green Deal, dos instrumentos federais à disposição da UE, da abertura à imigração e do financiamento às funções sociais do Estado têm feito do partido o refúgio da contemporaneidade social-democrata atrativo ao centro-esquerda e ao centro-direita. A viabilidade de uma coligação SPD-Verdes, sem a CDU pós-Merkel, não está apenas refém de resultados, mas do risco que o SPD enfrenta se tentar ir buscar votos à ala centrista da CDU, competindo abertamente com o atual parceiro de governo ao longo do crítico ano de 2021.

O meu argumento principal nem está tanto nos cenários pré e pós-eleitorais, embora valha a pena começar a prepará-los. O que parece mais relevante liga diretamente a Alemanha pós-Merkel à Europa pós-covid, abrindo uma série de interrogações que merecem especial atenção, agora que o desanuviamento transatlântico pode encarreirar, a integração europeia saiu reforçada, os populismos salivam pelo desastre da vacinação e da recuperação económica, e a China e a Rússia se mantêm como fatores de atrito na Europa, em particular na Alemanha. Uma das lições de 2020 diz-nos que o Estado readquiriu capacidades, competências, instrumentos e iniciativa política. Será precisamente na forma correta como usar e interpretar essa força reconquistada, sem cair em abusos de poder ou na tentação de esmagar a iniciativa privada, que resultará o equilíbrio indispensável à saúde das democracias liberais. É esta a receita da social-democracia que vale a pena defender: "competição sempre que possível, planeamento sempre que necessário", como defendia o histórico Programa Godesberg, refundador em 1959 do SPD e de todos os partidos europeus por ele influenciados desde daí, de que Portugal não foi felizmente exceção.

A herança de Merkel é também esta: uma proposta social-democrata inclusiva e não dogmática para enfrentar a maior crise europeia do pós-Guerra, preparando a recuperação económica de forma justa, solidária, equitativa, de maneira a preservar a coesão social, geracional e, com isso, a própria democracia. Esperemos que 2021 não seja o início de uma rutura com este seu legado.

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