Ainda Biden não se sentou e Xi já lhe está a fazer xeque

Ainda é cedo para perceber o alcance do novo acordo comercial patrocinado pela China e que abrange uma quinzena de países da Ásia-Pacífico, incluindo Japão, Coreia do Sul e Austrália, mas basta envolver 2,2 mil milhões de consumidores, um terço do comércio global e um quarto do PIB mundial para ser tido em conta, incluindo nos Estados Unidos, onde se está a dois meses de Joe Biden assumir a presidência, com o contrariar da ascensão chinesa como principal desafio, uma das poucas linhas de continuidade com o derrotado Donald Trump.

Se o mundo fosse um tabuleiro de xadrez, com Xi Jinping a representar a China e Trump, embora contrariado, a ter de ceder o lugar americano a Biden, diríamos que ainda o novo presidente americano não se sentou à mesa e já vai ter de lidar com um xeque. Não um xeque-mate, que Pequim está muito longe de poder assumir essa predominância sobre Washington, mas um xeque, reversível com uma boa defesa, mas que não deixa de mostrar atrevimento por parte do jogador ainda tido como o mais fraco.

Trump não pode ser ignorado, por muito que se saiba já que vai ceder lugar a outro, pois foi um erro estratégico logo no início do seu mandato, em 2017, que abriu uma brecha no lado americano: o abandono do TPP, a Parceria Transpacífico que ia juntar uma dúzia de países, colossos das Américas como o Canadá e o México mas também grandes economias da Ásia, como o Japão, e até a Austrália.

Pouco adepto do multilateralismo, promotor de uma guerra comercial com a China (rival estratégico), mas também crítico de um certo protecionismo do Japão (aliado estratégico), o presidente cessante quis fazer valer o peso de o país ser ainda o número um mundial em termos económicos para obrigar Xi a recuar as suas peças, incluindo essa espécie de rainha que dá pelo nome de Huawei. Alianças só militares, e mesmo assim sem o formalismo da NATO, como está a acontecer na tal Ásia-Pacífico em que para contrariar as ambições chinesas, sobretudo marítimas (o terceiro porta-aviões estará prestes a sair do estaleiro), os Estados Unidos estão a juntar forças com Japão, Austrália e Índia.

Sabe-se que o duelo Estados Unidos-China pela supremacia militar não é comparável com a Guerra Fria, pois o sistema comunista excluía a União Soviética do comércio global tirando quase no fim a exportação de petróleo e de gás. Mas também não se pode confiar demasiado que laços económicos estreitos entre duas potências garantam ausência de conflito militar, basta recordar Grã-Bretanha e Alemanha em vésperas da Primeira Guerra Mundial. A América ainda de Trump continua a ser o primeiro parceiro comercial da China, mas tal não significa que não possa haver guerra seja por causa do mar da China do Sul, seja por causa de uma eventual ação militar em Taiwan.

E mesmo Japão, Coreia do Sul e Austrália (a Índia tem dúvidas sobre o novo acordo promovido pela China, e isso é de assinalar) não podem confiar demasiado que laços económicos com Pequim sejam garantia de relação política pacífica ou que Xi separa as águas entre negócio e diplomacia. Qualquer um dos países teve atritos políticos recentes com a China que trouxeram boicotes comerciais, por vezes falsamente espontâneos: o Japão em 2012 por causa de uma ilhas disputadas, a Coreia do Sul em 2017 por um dos seus conglomerados ter vendido terrenos aos militares americanos para instalar um sistema de defesa em teoria direcionado para a Coreia do Norte, e a Austrália já em 2020, quando lançou suspeitas sobre as origens do vírus que causou a atual pandemia.

Por decisão das autoridades de Pequim, ou por iniciativa das redes sociais mas com tolerância oficial, a Toyota pode deixar de vender carros na China, as telenovelas sul-coreanas deixam de ser importadas, os vinhos australianos ficam nas prateleiras.

Mesmo com todo este risco de retaliação económica, a atração chinesa (segunda economia mundial, a caminho de ser a primeira, uma novidade em dois séculos, mas com tradição histórica) é enorme, a ponto de o Vietname - que mesmo comunistas chegaram em 1979 a ter uma guerra com o gigante vizinho - estar no novo acordo. Não faltam ilhotas no mar da China do Sul para trazer tensões entre os camaradas de Hanói e de Pequim, mas Trump tornou a América muito longínqua nos últimos quatro anos. Haverá saudades nos líderes vietnamitas desse dia em 1995 em que Bill Clinton, duas décadas após a queda de Saigão, veio a Hanói enterrar o passado e abrir vias a uma nova aliança (em 2015 voltou para celebrar os 20 anos da primeira visita e do restabelecimento de relações diplomáticas entre dois antigos inimigos cuja disputa tanto material deu a Hollywood).

Agora resta esperar por Biden tomar posse para ver que estratégia para a China traz. E Xi, como é regra entre os xadrezistas de qualidade mas também entre os grandes líderes chineses, já está de certeza a tentar prever o primeiro movimento do sucessor de Trump.

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