"Acho que é injusto dizer que Portugal é, todo ele, constituído por racistas"

Candidato ao segundo mandato como Presidente da República, ​​​​​​​é a favor da alteração nos poderes do Ministério Público numa futura revisão da Constituição, mas não acredita que isso seja possível a tempo das eleições de dia 24. Defende a votação dos idosos sem saírem dos lares e está preocupado com o impacto no emprego de um confinamento rigoroso.

Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa nasceu em Lisboa, tem 72 anos, é licenciado em Direito com doutoramento em Ciências Jurídico-Políticas. Foi professor universitário, jornalista, comentador e, na política, deputado, secretário de Estado, ministro e líder do PSD. É o atual PR, concorrendo a um segundo mandato.

Permita-me mudar de plano. Somos estruturalmente racistas?

Há na sociedade portuguesa quem defenda posições radicalmente opostas sobre isso. Há quem diga que Portugal não é racista, ninguém é racista, e depois há quem diga que a sociedade portuguesa é esmagadoramente constituída por racistas. É como dizer de uma pessoa que o seu mandato presidencial foi um fracasso total ou um sucesso total. Eu fui professor de dezenas de milhares de alunos e nunca encontrei um aluno que fosse todo perfeito ou um que fosse todo imperfeito. Na sociedade portuguesa houve sempre, e há, setores racistas e não racistas. E graus. Há os que são muito, há os que são pouco, há os que são seletivamente, mais em certas circunstâncias do que noutras. Tem que ver com as pessoas, sua história e vivências; a conjuntura económica e social.

Não somos uma sociedade estruturalmente racista?

É injusto dizer que Portugal é todo ele constituído por racistas. Como também é irrealista dizer que em Portugal não há racistas.

Admite que racismo e xenofobia explicam o que aconteceu no aeroporto de Lisboa, na morte do cidadão ucraniano às mãos do SEF?

Não quer que me pronuncie sobre um processo que está na justiça e em que uma das componentes há de ser, naturalmente, a averiguação dos factos. Até estar terminado esse processo, não faz sentido o PR dizer o que é que pensa sobre o que se passou, as motivações... É como, muitas vezes, quando me pedem para, perante um facto dizer o seguinte: E não acha que toda aquela gente, aquela comunidade é assim? Acha que a instituição não é toda assim? O que se passou num caso, não se passa sempre assim?

As generalizações são terríveis, mas este é um caso concreto.

Pois é, mas o PR não deve comentar um caso concreto que está na justiça, tal como outros casos.

Disse que o SEF não serve tal como está. Que SEF gostaria de ter?

Rigorosamente, o que eu disse foi o seguinte: se vier a demonstrar-se que não é um caso isolado, mas uma cultura, que há uma multiplicação de casos ou repetição e isso engloba toda uma instituição, então há que repensar a instituição. Isso parece-me uma coisa muito óbvia. Uma coisa é uma instituição atuar de determinada maneira uma vez, duas, quatro vezes, outra é haver certas condutas de uma instituição, qualquer que seja, e entender que devem ser mudadas, isso passa por repensar a instituição. Não é necessariamente extingui-la, é repensá-la. Eu disse "se", mas imediatamente cortou-se o "se" e disse-se: o PR acha que é óbvio que deve repensar-se o SEF e extinguir-se. Assim como se pegou na questão de o diretor nacional da PSP pedir uma audiência - como de costume nesses casos, o PR recebe depois de comunicar ao governo que vai receber, e pode haver razões que levem o governo a dizer que não se justifica no momento, no quadro daquilo que é pedido; não foi o caso. Foi marcada para um dia e pedida a antecipação pois o senhor diretor nacional não podia nesse dia, eu não podia nos dias que antecediam porque tinha o Conselho de Segurança Nacional, a audição dos partidos e o Conselho de Estado. Foi marcada uma data para a mesma audiência a pedido do senhor diretor nacional. Isto foi convertido em quê? PR convoca de emergência o diretor nacional para o ouvir sobre determinada matéria e para intervir sobre determinada matéria. São duas histórias totalmente diferentes.

Tendo em conta as repercussões que teve em Bruxelas, a Presidência Portuguesa ficará manchada pela nomeação de José Guerra como procurador europeu?

Sobre isso, disse o que tinha a dizer, e está dito. Não tenho nada a acrescentar e menos ainda vou comentar os comentários e o debate político. Não é o papel do PR.

A pergunta é se a Presidência Portuguesa pode ficar manchada.

É uma forma subtil de comentar. Esperemos que a Presidência, que tem objetivos muito importantes para a Europa e o país e têm de funcionar bem na Europa para funcionarem bem aqui mas também que funcionem bem cá, que sejam preenchidos esses objetivos num tempo muito limitado - seis meses passam a correr. São muitos, muitos objetivos - sociais, financeiros, políticos, internos e externos; temas sensíveis - migrações, refugiados, relações com África, com o Mercosul, o problema das relações com a Ásia, incluindo a Índia, o relacionamento no novo ciclo político com os EUA. Não pode haver mais temas, o tempo é que é curto.

Como qualifica o que aconteceu no Capitólio?

Portugal foi o primeiro país não alinhado na guerra com os britânicos a reconhecer a independência dos EUA, o que não deve ter sido fácil para os nossos mais antigos aliados, os ingleses. Olhamos para os EUA com a amizade que veio da independência e com a solidariedade que vem de sermos aliados, querendo o melhor para a democracia americana. Imagine o que era em Portugal haver eleições e de repente ocuparem São Bento ou Belém. Portanto, não é um facto que nos tenha alegrado, é um facto que nos entristece. Desejamos que se há eleições, sejam respeitados os resultados das eleições, em qualquer país democrático.

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