"Da Rússia com amor." Ajuda e propaganda dos regimes musculados

Rússia, China, Turquia e Cuba não perdem oportunidade para tentar melhorar imagem externa.

Quando a epidemia eclodiu em Wuhan, União Europeia e Estados Unidos enviaram ajuda para a China: um procedimento comum quando há emergências sanitárias. Com alguns países europeus e com os norte-americanos a braços com uma crise sanitária, Pequim e Moscovo, mas também Havana e Ancara, em menor escala, aproveitam o momento para propagandear toda e qualquer ajuda - ainda que possa ser defeituosa ou sem aplicação.

Momentos estranhos os que se vivem no chamado concerto das nações. Os Estados Unidos têm a Rússia debaixo de sanções devido à invasão da Crimeia e à guerra por procuração que tem mantido no leste da Ucrânia. No entanto, e depois de uma conversa telefónica entre os presidentes das duas maiores potências militares, o embargo passa a letra morta e um avião de carga Antonov foi despachado para o aeroporto JFK, em Nova Iorque, com equipamento médico.

"O lado russo ofereceu ajuda na forma de material médico e equipamento de proteção à luz da difícil situação epidemiológica na América", disse o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov. "Trump aceitou com gratidão esta ajuda humanitária."

"Ao oferecer ajuda aos nossos colegas americanos, o presidente espera que, quando os produtores americanos de equipamentos e artigos médicos retomarem a produção, também sejam capazes de responder por sua vez, se necessário. Agora, quando a situação atual afeta todos, sem exceção, em todo o mundo, não há alternativa a não ser agir dentro do espírito de parceria e ajuda mútua", disse Peskov.

Mas nem todos veem a aterragem de um avião militar em solo norte-americano como um momento de solidariedade.

"O que estão os EUA a fazer ao aceitar a 'ajuda' da Rússia para o coronavírus? Isto é um golpe humilhante de relações públicas sem substância. Garanto-vos que o próximo passo da Rússia será dizer: "Esqueçam a nossa invasão da Ucrânia e a morte de dez mil soldados, deem-nos alívio nas sanções", escreveu o investidor e ativista Bill Browder.

A representante Maxine Waters não podia ter sido menos diplomática: "Trump, seu idiota incompetente! Você enviou 18 toneladas de equipamento de proteção individual para a China antes, mas ignorou as advertências e chamou ao covid-19 um embuste. Você pôs em perigo médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, auxiliares de limpeza e contínuos - todos a arriscar a vida para salvar a nossa. Rezem por perdão pelo mal que estão a causar!", escreveu a congressista eleita pela Califórnia.

A ajuda russa surge num momento em que o primeiro-ministro Mikhail Mishustin anunciou que Moscovo destinou 16,2 mil milhões de euros para combater a pandemia, ao mesmo tempo que impôs um estrito confinamento. Oficialmente, a Rússia tem 2777 casos de covid-19, de que resultaram 24 mortes.

Militares russos na Lombardia

As relações públicas russas deram outro golpe de enorme efeito em Itália. País fundador da comunidade europeia e da NATO, a braços com uma tragédia e sem equipamento suficiente nem ajuda europeia inicial, Itália aceitou de braços abertos a solidariedade de Moscovo.

Mas, em vez de médicos e enfermeiros (como fizeram a Polónia, a Albânia e Cuba), a Rússia enviou nove aviões militares e lá dentro, além de material, militares: cem especialistas em guerra biológica.

Segundo uma fonte citada pelo La Stampa , "80% do material é inútil ou de pouca utilidade para Itália. Noutras palavras, é mais um pretexto".

Além das imagens de camiões militares com as bandeiras russas a percorrer as estradas italianas, Elizabeth Braw, do Royal United Services Institute, aponta qual pode ser o objetivo: "Bérgamo, a cidade italiana mais atingida pelo coronavírus, está localizada a menos de duas horas de Vicenza, o local de uma grande base militar dos EUA."

Braw questiona ainda no texto da Foreign Policy o facto de a Itália ser um dos países da NATO com mais militares em operações no estrangeiro, dos quais 166 na Letónia numa missão criada para impedir o avanço da Rússia.

Desviar erros

No caso da China, a jogada tem um duplo propósito: procura desviar as críticas sobre os erros iniciais no reconhecimento e no combate da epidemia e propagandear a sua capacidade num momento de pausa da guerra comercial com os Estados Unidos.

Foram enviados especialistas, máscaras e equipamentos para Itália e Espanha, mas também para a Áustria, Bélgica, França, República Checa, Holanda e, fora da UE, a Sérvia, no que o politólogo Antoine Bondaz classifica à AFP de "campanha de relações públicas sem precedentes".

No entanto, estes e outros países europeus compraram muito mais equipamentos à China do que receberam de assistência. Por exemplo, segundo o South China Morning Post , a China tem neste momento 116 fábricas a produzir máscaras e a produção diária pode ascender aos 110 milhões, pelo que a oferta de um milhão de máscaras não é um tesouro tão grande como pode parecer à primeira vista.

Já para não falar que Pequim enviou para os Países Baixos centenas de milhares de máscaras defeituosas e kits de testes igualmente sem qualidade para Espanha - neste caso foram adquiridos.

Também a Espanha vai receber de Pequim material avaliado em cerca de 45 mil euros enquanto encomendou ao mesmo país 432 milhões de euros de material.

"[Pequim] aproveita cada oportunidade nacional ou internacional para mostrar a suposta 'superioridade' do seu sistema", disse Alice Ekman, do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia à AFP.

"É mais fácil espalhar propaganda"

Os políticos europeus acordaram entretanto para estas operações de relações públicas. O chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, instou a UE para se preparar para uma "luta por influência" numa "batalha global de narrativas". "Devemos estar conscientes de que existe uma componente geopolítica que inclui uma luta por influência através do spinning e da 'política de generosidade'", disse o catalão.

Borrell acusou Pequim de inicialmente encobrir o surto, dizendo que isso abriu o caminho para a sua rápida propagação global: "Munidos de factos, precisamos de defender a Europa contra os seus detratores", disse Borrell.

A secretária de Estado francesa para os Assuntos Europeus, Amélie de Montchalin, disse à RFI que "às vezes é mais fácil espalhar propaganda, imagens bonitas e explorar o que está a acontecer".

Dias antes, o seu presidente, Emmanuel Macron, que ordenou uma ponte aérea entre a China e a França para suprir o país de equipamentos necessários, reconheceu a dependência da China.
"Esta crise mostrou-nos que a natureza estratégica de certos bens, certos produtos e certos materiais exigem a soberania europeia", disse Macron.

Erdogan estende a mão

Também a Turquia de Recep Tayyip Erdogan, à sua maneira, estendeu a mão. O país que há poucas semanas abriu as fronteiras para a Grécia e instigou milhares de refugiados e migrantes a deslocarem-se para a Europa enviou na quarta-feira material sanitário, incluindo máscaras, para Itália e Espanha, os dois países europeus mais atingidos pelo novo coronavírus.

"Material de saúde preparado para combatermos juntos o covid-19, e com a esperança de ver dias mais risonhos, foi enviado a caminho de Espanha e Itália" por um avião militar, anunciou o Ministério da Defesa em inglês, espanhol, italiano e turco.

Em Itália, a delegação turca foi recebida pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Luigi Di Maio.

Os artigos, incluindo máscaras, macacões e líquidos antibacterianos, foram produzidos nas fábricas e instalações do Ministério da Defesa e enviados "sob as instruções do presidente" Erdogan.

Oficialmente, a Turquia registou até agora 214 mortos e 13 531 casos.

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