O aeroporto que não arranca, a lição de Braga e o golpe de Putin

Na semana em que o novo aeroporto de Lisboa voltou a ser discutido e em que Portugal foi eliminado da Liga das Nações, milhares de cidadãos russos continuaram a tentar fugir do país para evitarem ser mobilizados para a guerra. Putin deu novo passo para fazer escalar o conflito, assinando tratados que anexam mais quatro regiões da Ucrânia.

Sábado, 24 de setembro

Milhares de russos em fuga após mobilização

Só entre quarta-feira, 21 de setembro, quando Vladimir Putin anunciou a mobilização parcial de reservistas para a guerra na Ucrânia, e sábado, 24, mais de 260 mil cidadãos russos terão atravessado as fronteiras do país, segundo o jornal online Novaya Gazeta, que citou fontes do Serviço Federal de Segurança. A estes números juntam-se outros: a Agência Europeia de Guarda de Fronteiras (Frontex) revelou que no espaço de uma semana a quantidade de russos que entraram na União Europeia, através, sobretudo, da Finlândia e da Estónia, aumentou 30%, e países como a Geórgia, Mongólia ou Cazaquistão, entre outros, admitem um tráfego anormal de veículos a tentar cruzar as fronteiras vindos da Rússia, sendo que logo nos primeiros dias assistiu-se a uma corrida aos bilhetes de avião para destinos que não exigiam vistos como a Turquia ou a Arménia.

O embaraço que a mobilização causou ao regime russo já não passa despercebido a ninguém. Nem ao Kremlin, que tenta agora travar a debandada através da repressão dos protestos e recusando emitir passaportes para os reservistas já mobilizados. Esta última medida foi conhecida na quarta-feira, dia em que a União Europeia propôs um novo pacote de sanções - o oitavo - à Rússia.

Domingo, 25 de setembro

O triunfo de Meloni e o futuro da relação com a UE

Itália foi a votos e deu a vitória a Giorgia Meloni, 45 anos, líder dos Irmãos de Itália, força política de raízes pós-fascista, fundada em 2012, que nas eleições de 2018 não passou dos 4,4% e agora alcançou 26%. Aos votos de Meloni somam-se os dos dois partidos, também de direita, que assinaram um acordo pré-eleitoral com os Irmãos de Itália: a Liga (8,8%), de Matteo Salvini, político que ganhou popularidade graças às posições radicais antiemigração, e a Força Itália (8,1%), de Silvio Berlusconi, que aos 86 anos regressa ao Senado de onde fora expulso em 2013 acusado de fraude fiscal.

Meloni deverá, assim, tornar-se a primeira mulher a governar Itália e o seu triunfo foi celebrado por forças da direita radical europeia, como a Reunião Nacional, de Marine Le Pen, o Vox, de Santiago Abascal, ou o Chega, de André Ventura. Este novo ciclo político em Itália faz adivinhar relações mais tensas na relação com a União Europeia. A Comissão mostrou-se cautelosa ao comentar o triunfo de forças consideradas antieuropeístas num dos países fundadores da UE e que é, ao mesmo tempo, um dos seu principais motores económicos. "Encarar estas eleições como uma espécie de julgamento sobre a Europa parece uma simplificação extrema", frisou o porta-voz Eric Mamer.

Segunda-feira, 26 de setembro

A falta de diálogo que não ajuda Lisboa

Um ano depois da eleição da coligação Novos Tempos, liderada pelo social-democrata Carlos Moedas, para a presidência da câmara de Lisboa, o DN tomou o pulso à cidade. A gestão da autarquia, a mobilidade na capital, a segurança, as questões ambientais, a habitação e o turismo estiveram em análise ao longo da semana e se há pontos em que todas as forças políticas concordam que está quase tudo por fazer - como a segurança, que depende muito mais da ação do governo e da PSP do que da iniciativa municipal -, o que se nota, sobretudo, são motivos de discórdia entre os partidos.

A governar sem maioria, Moedas admitiu que se tratou de "um ano difícil, de constantes bloqueios da oposição", que, "em estado de negação", mostrava vontade de "cumprir o programa dela e não o programa de quem ganhou", mas ainda assim destacou decisões "realmente históricas" como os transportes públicos gratuitos para todos os maiores de 65 anos e menores de 23. "Às vezes na política o difícil é tomar decisões e acho que tomámos muitas este ano", sintetizou o autarca. "Vitimização e desresponsabilização", "uma gestão que está a agravar as desigualdades", "uma cidade estagnada" e "sem uma ideia", retorquiu a oposição. Só com diálogo se estabelecem pontes e compromissos. E essa responsabilidade não cabe só a Moedas, é de todos. O conflito político permanente não serve os interesses de Lisboa. Quanto mais depressa todos o perceberem, mais depressa a cidade terá condições para evoluir.

Terça-feira, 27 de setembro

Recuo fatal. Lição de Braga para recordar no Qatar

Portugal teve o pássaro na mão e deixou-o fugir, aos 88 minutos... Depois da vitória na República Checa, por 4-0, à Seleção bastava empatar em Braga frente à Espanha para estar na final four da Liga das Nações pela 2.ª vez (na 1.ª, que foi também a edição de estreia, conquistou o troféu). A chave do jogo esteve nas mexidas operadas pelo técnico espanhol aos 60 minutos, quando lançou em campo três 'motas' - Gavi, Pedri e Pino -, todos sub-20, e agarrou o comando ofensivo da partida. Portugal precisava de ter mais bola mas não conseguia. Fernando Santos demorou a reagir e quando mexeu as peças já o adversário mandava no jogo. E o golo espanhol lá apareceu, ao cair do pano, por Morata, castigando o recuo português.

Então, que sirva de lição para o Mundial que está aí à porta. Jogar certinho, muito concentrado na defesa, à espera do erro do rival, pode ter resultado no Euro 2016. Mas seis anos depois, não é esse o ADN da atual fornada de jogadores às ordens de Santos. A quantidade e qualidade da 'matéria prima' ao seu dispor, com vários jogadores no meio-campo e ataque tecnicamente muito evoluídos, a quem a bola não "queima", com capacidade tanto para acelerar como para acalmar o ritmo de jogo, oferece-lhe soluções para montar uma equipa que assuma sempre o controlo da partida em vez de se deixar controlar. Ignorar esse potencial, e viver na expectativa do que pode fazer o adversário, é meio caminho andado para nova desilusão no Qatar.

Quarta-feira, 28 de setembro

Agressões e "impunidade" na Saúde

"Estou muito revoltada. Estou com raiva. A minha alma ficou amolgada". Assim reagiu, em declarações à RTP, a médica agredida esta semana no Hospital São Francisco Xavier, por três pessoas, quando prestava serviço de urgência. A obstetra, de 60 anos, disse ter sido cuspida e agredida verbal e fisicamente, com bofetadas que a atiraram ao chão, por ter recusado realizar uma ecografia a uma grávida de quatro semanas. A situação foi denunciada pelo Sindicato Independente dos Médicos (SIM), acrescentado que a médica "ficou sem condições para trabalhar" e que existe "uma sensação de impunidade muito grande". Além disso, lamenta que o Plano de Ação para a Prevenção da Violência no Setor da Saúde, apresentado em janeiro deste ano, "continue na gaveta, porque não há instruções e nunca foi divulgado" - "é lamentável que quem nos tutela não nos proteja".

Manuel Pizarro, ministro da Saúde, visitou o hospital nesta quarta-feira "para se solidarizar com os seus profissionais" e "condenar o ato de violência", defendendo que o Plano de Ação está a ter "resultados positivos" mas que não será capaz de travar todos os incidentes já que "o sistema de saúde é de porta aberta". Para a Ordem dos Médicos, solidariedade não chega e importa avançar com medidas concretas, como a instalação de botões de pânico nos consultórios. A PSP comunicou 961 situações de violência em hospitais e centros de saúde em 2021, mais 16% do que em 2020.

Quinta-feira, 29 de setembro

Aeroporto. A obra urgente que nunca mais arranca...

Montijo, Alcochete ou Santarém. Ou outra solução que a "comissão técnica independente", que vai conduzir a avaliação ambiental estratégica, venha a propor (se tudo correr bem, até final de 2023) para a localização do novo aeroporto que servirá Lisboa... Com o Humberto Delgado a rebentar pelas costuras face à retoma do turismo (o número de hóspedes e dormidas em Agosto bateu recordes), entra-se numa nova fase de estudos, pareceres e afins que parece interminável, principalmente tendo em conta que todos os agentes envolvidos neste processo, desde os atores políticos aos operadores turísticos e empresariais, concordam na urgência de se avançar rapidamente para uma obra fundamental para o futuro do país.

Enquanto não se chega a uma conclusão sobre o novo aeroporto, e tendo em conta que "vai demorar", o governo, pela voz do ministro Pedro Nuno Santos, o que promete é começar "já" a fazer obras na Portela, que mesmo "não permitindo aumentar a capacidade do aeroporto, vão permitir pelo menos aumentar a fluidez do funcionamento da operação aeroportuária". Quanto ao novo, as soluções já identificadas para serem estudadas são cinco. Em duas, o Humberto Delgado mantém-se como aeroporto principal e o complementar será Montijo ou Santarém; noutra o Montijo adquire progressivamente o estatuto de principal e Humberto Delgado de complementar; e nas restantes duas Alcochete ou Santarém substituem integralmente o Humberto Delgado.

Sexta-feira, 30 de setembro

Putin assina tratados para anexar 15% da Ucrânia

Como se esperava, Putin assinou ontem, em Moscovo, os tratados de anexação de Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporijia (juntam-se à Crimeia, já anexada em 2014), que representam aproximadamente 15% dos território da Ucrânia, validando assim os resultados dos "referendos" realizados nestas quatro regiões. Os mesmos que Kiev e seus aliados ocidentais, onde se incluem UE e EUA, classificam como "uma fraude". Entendimento bem diferente tem o presidente russo. "Foi decisão inequívoca, de milhões de pessoas. Vão tornar-se cidadãos russos para sempre. (...) E serão protegidos por todos os meios necessários", ameaçou, desafiando a Ucrânia a regressar à mesa das negociações para um cessar-fogo.

Quase de seguida, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, fez saber que o seu país "não negociará com a Rússia enquanto Putin for o presidente" e formalizou um pedido de "adesão acelerada" à NATO, o que traria uma nova dimensão a esta guerra. Jens Stoltenberg, o secretário-geral da aliança atlântica, disse que a decisão caberá aos 30 estados que fazem parte da organização e tratou de identificar prioridades: "O nosso foco agora é dar apoio imediato à Ucrânia para se defender contra a invasão brutal russa. Os aliados da NATO não reconhecem e não reconhecerão nenhum destes territórios como parte da Rússia".

pedro.sequeira@dn.pt

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