Meloni: o desafio de transformar o sucesso eleitoral num governo duradouro

O partido de raízes pós-fascistas conquistou 26% dos votos, mas fê-lo roubando apoios aos aliados de quem depende para ter a maioria em ambas as Câmaras do Parlamento. Matteo Salvini diz que o governo é para cinco anos.
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Os Irmãos de Itália, partido de raízes pós-fascistas liderado por Giorgia Meloni, conquistaram mais seis milhões de votos em quatro anos e foram os grandes vencedores das eleições italianas, passando de 4,4% em 2018 para 26%. No discurso de vitória, Meloni, que aos 45 anos poderá tornar-se na primeira mulher a chefiar o governo italiano, prometeu "governar para todos". Mas está dependente dos humores dos aliados do centro-direita, junto com os quais tem a maioria na Câmara dos Deputados e no Senado, e dos desafios políticos que se avizinham.

"Se formos chamados a governar a nação, faremos isso por todos, para unir um povo, valorizando o que une e não o que divide, dando aos italianos o orgulho de acenar o Tricolor [a bandeira italiana]", disse no seu discurso de vitória após umas eleições onde a participação foi a mais baixa de sempre, 64%. Depois de em adolescente ter elogiado o ditador Benito Mussolini, Meloni tem-se distanciado do seu passado pós-fascista, mas não há dúvida que o seu será o governo mais à direita que Itália tem desde a II Guerra Mundial.

"O seu desafio será transformar este sucesso eleitoral numa liderança de governo duradoura", disse à AFP o responsável pelo centro de estudos eleitorais italiano CISE, Lorenzo De Sio. Isto tendo em conta que os seus dois parceiros de coligação de centro-direita foram dois dos derrotados da noite.

A Liga, de Matteo Salvini, não chegou aos 9%, quase metade do que tinha tido em 2018, quando foi a força dominante na aliança à direita. Já a Força Itália, de Silvio Berlusconi, passou ligeiramente os 8%, caindo seis pontos percentuais em relação às últimas eleições.

"A direita, no seu todo, teve praticamente os mesmos votos de 2018, cerca de 12 milhões, tal como o centro-esquerda teve quase os mesmos 7,5 milhões", lembrou ao DN Goffredo Adinolfi, investigador do ISCTE em Ciência Política. "Mas os equilíbrios dentro do centro-direita mudaram bastante, tendo passado com os anos da Força Itália para a Liga e agora para os Irmãos de Itália", referiu o italiano, radicado desde 2005 em Portugal.

"Há um equilíbrio interno que está completamente diferente e é preciso ver como vão reagir os partidos. Se vão decidir sair da coligação depois de um tempo ou "deixar-se comer" completamente pelos Irmãos de Itália", disse Adinolfi. "Porque há grandes conflitos entre os três e a liderança de Meloni não é totalmente aceite por parte do Berlusconi ou Salvini", lembrou. Apesar de os três terem assinado um acordo de coligação, há também diferenças de política entre os partidos que podem vir ao de cima quando forem para o governo.

Depois, os tempos que se aproximam não serão fáceis, com as previsões de agravamento da crise económica em 2023 e a continuação da guerra na Ucrânia. Segundo o investigador, "perante uma grande emergência pode vir a constituir-se um governo alternativo aos Irmãos de Itália, que algumas pessoas sublinharam durante a campanha que poderia ser preciso, porque tornaria Itália mais estável". Apesar de Meloni ter ganho, um governo de união como o de Mario Draghi, sem ela, é possível.

Salvini admitiu que não ficou satisfeito com o resultado do seu partido, mas diz que a Liga será "protagonista" no novo governo para cinco anos. E admitiu que a oposição de Meloni ao governo de Mario Draghi "deu frutos" nas urnas. "Os Irmãos de Itália foram bons a fazer uma forte oposição e estar no governo durante quase dois anos não foi fácil, mas faria tudo de novo, considerando a situação", disse.

O ex-ministro do Interior não parece disposto a desistir da liderança partidária, apesar de se falar nesse cenário. "É um momento delicado para a Liga e é bom encará-lo com seriedade porque é fundamental compreender o que levou o eleitor a votar de forma diferente", disse o governador da região de Veneto, Luca Zaia, um dos nomes de que se fala para eventualmente suceder a Salvini. Este admite apenas a necessidade de uma "reorganização" no partido, apesar de lembrar que "ninguém é essencial".

A Força Itália ficou ligeiramente abaixo da Liga, mas, ainda assim, Berlusconi teve uma vitória pessoal. Quase com 86 anos (faz na quinta-feira) foi eleito para o Senado - de onde tinha saído em desgraça há quase dez anos depois de ser condenado por fraude e de ter visto serem-lhe retirados os direitos políticos até 2018. Il Cavaliere ou L"Immortale (o imortal, como também é conhecido) conseguiu 50% dos votos em Monza e quer ser uma espécie de figura paternal da aliança de centro-direita.

"O forte crescimento dos Irmãos de Itália não nos prejudicou e a tentativa dos autointitulados centristas para capturar os nossos votos falhou completamente", alegou Berlusconi, numa mensagem vídeo. O ex-primeiro-ministro referia-se à aliança entre a Itália Viva, de Matteo Renzi, e o Ação, de Carlo Calenda. Conseguiram 7,7%. "O seu sucesso limitado foi às custas do Partido Democrático", ao qual ambos já pertenceram.

O principal derrotado foi mesmo Enrico Letta, o líder do Partido Democrático (PD) que em conferência de imprensa falou de "um dia triste para Itália e a Europa", prometendo uma oposição "dura e intransigente". O PD perdeu cerca de 800 mil votos, mas teve os mesmos 19% do que em 2018, falhando ao não fazer alianças para enfrentar o centro-direita (seja com os partidos centristas, com o Movimento 5 Estrelas, de Giuseppe Conte, ou outros partidos mais pequenos).

Letta admitiu a responsabilidade por não ter havido um acordo alargado à esquerda e já anunciou que não será recandidato à liderança do PD. Um cargo que voltou a ocupar no ano passado quando retornou a Itália, depois de se ter autoexilado em Paris após ser afastado da chefia do governo em 2014 por Renzi, então seu companheiro de partido. A ideia de Letta é acelerar o calendário para um congresso "de reflexão" sobre "o conceito de um novo PD que faça jus ao espírito desta época, diante de uma direita que nunca foi mais direita".

O Movimento 5 Estrelas, que tinha sido o mais votado em 2018, perdeu cerca de seis milhões de eleitores. Mas os 15% do partido de Conte, que fez cair o governo de Draghi ao retirar-lhe apoio, acabaram por ser melhores do que o esperado nas sondagens. "Todos diziam que íamos levar uma tareia", disse o líder. "Mas somos o terceiro maior partido [no Parlamento] e temos uma grande responsabilidade", acrescentou, dizendo-se pronto a defender os "valores e princípios" da Constituição.

Conte alertou contra qualquer tentativa de mexer naquela que foi uma das grandes conquistas do partido: o "salário de cidadania", uma espécie de rendimento mínimo. E deixou claro que não é possível qualquer acordo com o PD. "Não haverá diálogo com essa liderança, mas a questão não é pessoal. Os pontos são políticos", referiu.

susana.f.salvador@dn.pt

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