Prestação da casa aumenta 7% até ao Natal se esta guerra continuar
O custo em juros da maioria dos créditos à habitação que ainda faltam saldar vai aumentar de forma substancial, eventualmente 7% ou mais, até final deste ano, na sequência do agravamento entretanto esperado nas taxas de juro diretoras da Zona Euro, definidas pelo Banco Central Europeu (BCE). O encargo mensal adicional que se pode imputar à guerra, se o BCE subir a sua taxa de juro de 2,25% para 2,75%, mais do que duplica.
Com o regresso das hostilidades no Irão e no Médio Oriente e de uma nova vaga inflacionista que está novamente a caminho (o custo do contrato futuro do barril de petróleo Brent voltou a furar os 101 dólares na semana passada), a taxa de depósito do BCE, principal instrumento de política monetária da área do euro, terá de subir pelo menos mais duas vezes em 2026, dos atuais 2,25% (para 2,75% no final deste ano).
Se a guerra se mantiver acesa desta forma, muitos investidores do mercado monetário e analistas já antecipam, até, uma terceira subida “na primavera de 2027".
O BCE sobe as taxas de juro para arrefecer os preços, através do encarecimento do crédito bancário, que assim faz cair o investimento e o consumo e, ato contínuo, a inflação. Frankfurt tem por missão ancorar a inflação em torno dos 2%.
Há três meses consecutivos que a pressão em alta dos preços no consumidor está perto de 3%, apesar do alívio momentâneo do pseudo cessar-fogo que marcou o mês de junho.
Em julho, tudo de desmoronou outra vez. O pré-acordo entre os EUA e o Irão “acabou” (termo usado por Donald Trump, o Presidente norte-americano), e Frankfurt prepara-se para entrar num novo “ciclo de subidas” de taxas de juro.
De acordo com dados do Banco de Portugal (BdP), o valor médio dos novos empréstimos para compra de habitação rondará os 175 mil euros, sendo que o prazo mais comum é pagar o crédito em 30 anos.
Rompendo com o que era hábito no passado, hoje a esmagadora maioria dos novos créditos hipotecário (quase 85%) está indexada a taxas de juro mistas (taxa fixa negociada com o banco nos primeiros um a cinco anos e depois a Euribor, normalmente a seis meses, até à maturidade do contrato).
No entanto, considerando todos os créditos que atualmente ainda estão por pagar, o cenário muda de figura e cerca de metade deles ainda depende apenas da Euribor, logo, este enorme conjunto de devedores em Portugal está diretamente vulnerável face às subidas do BCE.
É por isso também que a política monetária funciona em Portugal. Se o BCE sobe juros, os portugueses sentem quase imediatamente.
De acordo com um levantamento feito pelo DN e os dados oficiais de vários bancos e do Banco de Portugal, considerando todo o capital em dívida por motivos de habitação, o valor do empréstimo médio que ainda está por saldar rondará os 80 mil euros.
Uma simulação com este último valor em dívida indexado a uma Euribor a seis meses e uma margem de ganho para o banco (spread) de 0,85% (o valor mais comum, segundo as estatísticas do banco central) indica-nos que, hoje, com a taxa de referência do BCE em 2,25%, a prestação média mensal a pagar por uma família associada àquela dívida remanescente de 80 mil euros está nos 362 euros.
De acordo com cálculos do DN, percebe-se que cada acréscimo de 0,25 pontos percentuais (p.p.) na taxa do BCE tem um reflexo diretamente proporcional na Euribor usada.
Assim, se o BCE subir a taxa de juro principal para 2,5%, cuja probabilidade de acontecer ronda agora os 90%, segundo a esmagadora maioria dos operadores do mercado monetário, então a prestação mensal correspondente àquele crédito de 80 mil euros associada a uma Taxa Anual Nominal ou TAN (soma do indexante Euribor e spread, e ainda sem incluir despesas com seguros e comissões) que vai subir de 3,5% hoje para 3,8% em setembro, elevará a prestação 312 euros agora para 374 euros mensais no fim do verão.
Se a guerra continuar, a indefinição e o caminho errático e caótico dos EUA a lidar com o problema persistir, então o BCE terá de subir novamente em dezembro (90% de probabilidade neste momento), para 2,75%.
O departamento de estudos do grupo BPI referiu na quinta-feira (23 de julho) que, após a reunião em Frankfurt, os mercados começaram “a descontar um aumento das taxas em setembro (taxa de depósito para 2,5%, com 90% de probabilidade), outro aumento em dezembro (taxa de depósito para 2,75%, também com 90% de probabilidade) e um aumento final na primavera de 2027 (taxa de depósito para 3%, com 70% de probabilidade)”.
Se a taxa subir para 2,75%, o que parece quase certo agora, o agravamento do custo imputado à guerra duplica para 24 euros, colocando a prestação mensal em 386 euros, isto é, mais 7% face à situação atual (sem mais aumentos do BCE).
Se o conflito persistir e o petróleo e o resto não acalmar, é provável que o BCE tenha de subir a taxa de depósito uma terceira vez, para 3% em dezembro (segundo operadores do mercado, essa probabilidade já mais nos 20% quando há poucas semanas era praticamente nula).
Neste cenário inflacionista e de forte aperto aos endividados, a mesma família que em Portugal estava apagar hoje 362 euros em juros ao banco por causa da casa, passa a pagar mais 36 euros, ou seja, uma prestação de 398 euros por mês. É mais 10%, segundo cálculos também do DN.

