BCE mantém taxas de juro, mas adverte que vêm aí mais inflação
A taxa de juro principal da Zona Euro, a chamada taxa de depósito, ficou inalterada nos 2,25%, depois de uma primeira subida em junho que pôs fim ao ciclo de descidas que durou quase três anos (desde setembro de 2023 que estava a cair), anunciou o Banco Central Europeu (BCE), esta quinta-feira.
Em todo o caso, a instituição sediada em Frankfurt sinaliza, no comunicado que resume a reunião de política monetária destas quarta e quinta-feira (22 e 23 de julho), que está bastante mais alarmada com a recente subida dos preços, com o reacendimento da guerra do Irão e no Golfo Pérsico e com o contágio à Zona Euro através da inflação mais elevada e de novos travões ao investimento e ao consumo, uma forma de dizer que estarão a caminho novas subidas de taxas de juro até ao final deste ano para tentar deter a escalada dos preços (inflação).
O choque energético, que começou no final de fevereiro, ainda não atingiu em pleno a economia da Zona Euro (avisa o próprio BCE), como também ainda não acabou, como se vê pelo fracasso no cessar-fogo com o Irão e pelo preço do petróleo (futuros do contrato Brent), que furou outra vez os 100 dólares por barril, esta quinta-feira, ou seja, está tão caro quanto na altura do memorando ou pré-acordo para um cessar-fogo e eventual paz apalavrado no final de maio e assinado a 17 de junho entre Washington e Teerão.
Trump rasgou o memorando a 13 de julho, dizendo que o cessar-fogo acabou porque Teerão não honrou os compromissos. Desde aí, tudo ruiu. "O impacto inflacionista total do choque energético ainda não se fez sentir", lamenta agora o BCE.
Na conferência de imprensa que decorreu esta quinta-feira, a presidente do BCE foi bastante clara nos termos e receios, afirmando que "apesar de a inflação dos preços dos produtos energéticos ter descido em junho, é provável que a sua subida desde o retomar do conflito – e o seu impacto na inflação dos preços dos produtos alimentares, bens e serviços – mantenha a inflação bastante acima do nosso objetivo [2%] no primeiro semestre de 2027", advertiu.
O mesmo que dizer que, neste momento, estão reunidos cada vez mais argumentos para subir juros este ano, eventualmente no início do próximo também.
O cenário atual do BCE indica que após a primeira metade do ano que vem "a inflação deverá desacelerar, uma vez que se prevê uma descida dos preços da energia e uma subida mais moderada dos restantes preços", mas isto está pouco ou nada garantido.
"O conflito continua a ser uma importante fonte de incerteza. Por esse motivo, estamos a acompanhar de perto a magnitude e a persistência do aumento dos preços da energia, bem como a forma como este se repercute na formação de preços e salários, nas expectativas de inflação e na dinâmica geral da economia", explicou Christine Lagarde.
Assim, tudo considerado, o Conselho dos governadores reunido na Alemanha "decidiu manter as três taxas de juro diretoras do BCE inalteradas".
Ou seja, "as taxas de juro aplicáveis à facilidade permanente de depósito, às operações principais de refinanciamento e à facilidade permanente de cedência de liquidez permanecerão inalteradas em, respetivamente, 2,25%, 2,40% e 2,65%".
São estas as taxas de juros aplicadas aos bancos comerciais, que depois refletem estes custos nos clientes por via dos créditos concedidos (ou remuneração, se forem depósitos).
O BCE nota que "embora muito voláteis, as perspetivas quanto aos preços dos produtos energéticos situam‑se atualmente próximo das projeções de referência subjacentes às projeções de junho elaboradas por especialistas do Eurossistema e bastante acima dos níveis registados antes do conflito no Médio Oriente".
Como referido, uma das novidades no discurso do BCE é o regresso do dramatismo em relação ao choque petrolífero, algo que se tinha dissipado ao logo do mês de junho, com efeitos visíveis de alívio no custo da energia e nos indicadores de inflação do Zona Euro.
Impacto da guerra ainda não chegou com toda a força
Já não é assim. Segundo a autoridade presidida por Lagarde, o efeito do choque energético que começou no final de fevereiro com o ataque dos EUA e de Israel ao Irão ainda não chegou totalmente aos bolsos dos europeus e, pior, agora está-se perante uma segunda vaga desse mesmo choque.
"A incerteza continua a ser elevada e o impacto inflacionista total do choque energético ainda não se fez sentir" pelo que o conselho do BCE avisa que está "a acompanhar de perto a intensidade e a duração do choque, assim como os seus efeitos indiretos e de segunda ordem".
O BCE está "empenhado em definir a política monetária de modo a assegurar que a inflação estabiliza no objetivo de 2% a médio prazo".
Lagarde usou o palco de Frankfurt para frisar bem esse perigo que está em crescendo, o da inflação elevada que está para vir, alimentada por estes quase cinco meses de guerra e pelo descalabro no cessar-fogo, nos fluxos e nos preços de petróleo, gás e outras mercadorias.
"O choque energético continua a gerar preços mais elevados e está a tornar-se mais dispendioso para as empresas obter fatores de produção externamente [energia, por exemplo], sendo, portanto, de esperar que subam os preços de venda".
"E embora a evolução da inflação subjacente [inflação sem as componentes de energia e alimentos não processados] tenha permanecido contida, ainda não se fizeram sentir os efeitos completos do choque energético", constatou a banqueira central.

