Os choques económicos e de preços que têm fustigado as maiores economias do mundo nos últimos anos, entre elas a Zona Euro, são diferentes face ao passado porque são mais irregulares, recentemente o efeito negativo de um choque comercial (tarifas) foi compensado por uma corrida à defesa e ao armamento (efeito positivo na procura), o choque petrolífero tem tido momentos de muita "intensidade" e o seu contrário, a Europa está a conseguir absorver esses choques melhor do que no passado, considerou a presidente do Banco Central Europeu (BCE).A líder da autoridade monetária falou na abertura de mais uma edição anual do Fórum BCE, que decorre, como habitualmente, em Sintra, Portugal. Esta grande conferência decorre entre segunda-feira 29 de junho e quarta 1 de julho de 2026.Christine Lagarde mostrou-se satisfeita com a decisão do BCE a 11 de junho passado, que subiu a taxa de juro principal de 2% (valor mais baixo desde finais de 2022) para 2,25%.Como é hábito, Lagarde não se comprometeu com mais subidas de juros, mas foi avisando que está tudo em aberto, há muita incerteza no ar e mais aprendizagem em terra (e mais capacidade de digerir o imprevisto) face ao acontecimentos imprevisíveis que têm acontecido.Um dos grandes exemplos disto é o choque petrolífero que eclodiu no final de fevereiro passado: o petróleo já furou a barreira dos 120 dólares, já caiu para a casa dos 70 dólares, sem ninguém conseguir prever absolutamente nada na rota deste mercado.Para Lagarde, tudo continua em aberto para o BCE. Por exemplo, no que respeita à solução para acabar com o choque petrolífero, que é abrir de vez o Estreito de Ormuz como este estava antes dos EUA atacarem o Irão em fevereiro, nada está garantido, diz a líder da autoridade monetária.O mesmo se poderá dizer das taxas de juro do BCE, que dependem da "durabilidade" de um acordo entre o governo norte-americano de Donald Trump e o governo de Teerão. "A durabilidade deste acordo não esteja assegurada", comentou Lagarde.O mesmo que dizer que se corre mal, é mais uma acha na fogueira da inflação e o BCE, claro, terá de agir e subir mais os juros.A maioria dos analistas internacionais considera que é razoável admitir um cenário de mais duas ou três subidas de taxas até final deste ano. Se forem duas, a taxa principal definida em Frankfurt (taxa de depósito) aumentará, passando dos atuais 2,25% para 2,75% no final deste ano.Subida de juros foi uma boa decisão: totalmente "justificada"Agora que passaram mais de duas semanas sobre a subida de juros de 2%, mínimo que durou um ano até junho deste ano, para os atuais 2,25%, Lagarde disse à plateia do hotel de luxo na Serra de Sintra, onde decorre o 13º Fórum BCE, que neste momento da História sabe-se que, ao contrário do que acontecia no passado, "os choques podem mudar de direção rapidamente", pelo que "seria insensato ancorar as nossas decisões com demasiada firmeza num único indicador ou numa única projeção".A primeira inovação é esta: definir taxas de juro (continuam a ser a principal ferramenta do BCE para afinar a inflação em torno dos 2%) torna necessário ler além das expectativas.Segundo Lagarde, "as expectativas de inflação são, e sempre serão, uma parte importante dos dados que acompanhamos" e "qualquer sinal de desancoragem das expectativas a mais longo prazo justificará, sem dúvida, uma reação". Portanto, "perante choques grandes e persistentes, poderá também ser adequado reagir com determinação antes de ser visível uma desancoragem".No entanto, isto nos dias que correm já não chega, indica a presidente do banco central. "Se os decisores de políticas atuarem para evitar uma desancoragem futura, não há forma fiável de avaliar até que ponto é necessário aumentar as taxas de juro, nem de saber, a posteriori, se a resposta preventiva foi necessária ou excessiva".Assim, o BCE teve de ir mais longe na sua autoavaliação e cruzar com mais informação disponível. "A segunda inovação assenta na forma como avaliamos as nossas decisões, à luz de diferentes situações a nível mundial."A antiga chefe máxima do Fundo Monetário Internacional (FMI) relembrou que "a análise de cenários tornou-se parte integrante do processo de tomada de decisões em condições de incerteza acrescida" pois "permite-nos testar se uma decisão de política monetária produz os efeitos esperados numa série de resultados plausíveis e identificar com antecedência em que condições seria necessário mudar de rumo"."Este instrumento foi particularmente útil na nossa reunião mais recente. Além dos cenários adverso e grave que já tínhamos elaborado em março, incluímos um cenário mais moderado, no âmbito do qual os preços dos produtos energéticos se revelam mais baixos do que o atualmente previsto".E o "moderado" foi o que veio a verificar-se. "Acrescentámos esse cenário precisamente para captar a possibilidade de os choques geopolíticos se desvanecerem mais rapidamente do que o esperado, como aconteceu em relação ao estreito de Ormuz."Portanto, estamos nesta era. Tudo em aberto, é preciso trabalhar em múltiplos cenários, maus e menos maus.Seja como for, foi dizendo Lagarde esta segunda em Sintra, "o aumento das taxas de juro era justificado em todos os cenários ponderados" e "foi uma decisão robusta do ponto de vista da conceção e nada do que observámos desde então pôs em causa a nossa apreciação". "Os preços dos futuros dos produtos energéticos continuam dentro do intervalo dos cenários que modelizámos."É um mundo "diferente"Lagarde considera que "o mundo em que aplicamos estes princípios essenciais é fundamentalmente diferente do mundo de antes"."Enfrentamos um contexto geopolítico desafiante, em que a frequência de grandes choques parece estar a aumentar. E esses choques assumem também novas formas: o acesso ao mercado, o abastecimento energético e os minerais críticos são cada vez mais utilizados como arma."Os choque que hoje enfrentamos surtem efeitos económicos que "dependem de reações estratégicas que podem não seguir regularidades históricas". "A imposição de tarifas mais elevadas pelos Estados Unidos no ano passado ilustra bem o que pretendo afirmar", exemplificou."A maioria dos modelos económicos previa que o euro registaria uma depreciação face ao dólar – impulsionada por expectativas de taxas mais elevadas nos Estados Unidos e de um menor défice comercial nesse país – e que a incerteza pesaria fortemente sobre o investimento. Muitos observadores esperavam que a União Europeia retaliasse, aumentando os custos das importações."Mas na prática "verificou-se uma forte apreciação do euro em relação ao dólar, dado que os investidores reavaliaram a posição dos Estados Unidos no sistema financeiro mundial".E mais: "A União Europeia não retaliou, dando prioridade à relação estratégica com os Estados Unidos em detrimento dos seus interesses comerciais" e os governos europeus "responderam à transformação geopolítica mais generalizada com o maior aumento da despesa em defesa registado em décadas – uma resposta endógena que compensou, em parte, os entraves do comércio"."A segunda característica destes choques é a sua capacidade de forte intensificação, mas também de rápido desvanecimento. A guerra no Médio Oriente é um exemplo. O conflito gerou pressões inflacionistas significativas. No entanto, em todas as fases, as apreciações sobre a sua duração, profundidade e implicações para as perspetivas mudaram", indica a presidente do BCE.Ou seja, "os ciclos de intensificação, negociação, acordos anunciados e reversões provocaram movimentos rápidos nos mercados petrolíferos – por vezes, em poucos dias", "em março, os preços do petróleo subiram para quase 120 dólares dos Estados Unidos por barril e as projeções mais desfavoráveis eram significativamente mais altas. Na sequência do acordo de paz provisório alcançado na semana passada, os preços desceram para cerca de 73 dólares dos Estados Unidos por barril, embora a durabilidade deste acordo não esteja assegurada".Resumindo: "o panorama que descrevi coloca a política monetária em novo território", "embora seja mais provável enfrentarmos choques que afastam a inflação do objetivo, a resiliência construída pela Europa implica que os efeitos desses choques na nossa economia são mais contidos", ou seja, podemos "encontrar-nos mais vezes numa zona intermédia, entre choques que podemos observar sem atuar e choques a que temos de reagir com determinação"..Fórum BCE volta a Sintra e na ementa tem temas como imigração, IA e criptoativos.Fórum BCE. Ganhos com inteligência artificial "não serão substanciais" e Portugal aproveita menos