O regresso em força da guerra no Médio Oriente, a nova escalada nos preços da energia (o petróleo voltou a furar a barreira dos 100 dólares por barril, esta quinta-feira, 23 de julho) e a contaminação da economia europeia com inflação muito elevada são argumentos de sobre para que o Banco Central Europeu (BCE) reinicie um novo ciclo de subidas de taxas de juro a partir de setembro, indicam vários analistas e fontes do mercado monetário.Um primeiro aperto de 0,25 pontos percentuais (p.p.) na taxa de depósito (a taxa de juro principal do BCE, atualmente em 2,25%) deve acontecer depois do regresso das férias grandes, na reunião que termina a 10 de setembro. Os agentes dos mercados monetários dizem que a probabilidade de a facilidade de depósito subir para 2,5% é de 90%.Depois, também segundo informações recolhidas pelo DN/Dinheiro Vivo, é bastante provável (quase 50%) que o custo de base para os empréstimos definido em Frankfurt torne a aumentar para 2,75% na reunião que termina a 29 de outubro. A probabilidade sobe de forma dramática (90% de certezas de que a taxa sobe para os referidos 2,75%) na reunião do BCE marcada para 17 de dezembro.Mas não se fica por aqui. Até há escassas semanas, os investidores e a maioria dos analistas pouco peso davam à possibilidade de haver um novo aumento da taxa de juro do BCE, mas com o agravamento da situação internacional, já se está a descontar um terceiro aumento da taxa de juro diretora, até aos 3%. Aliás, este movimento pode acontecer ainda este ano, na reunião de 17 de dezembro, com uma probabilidade superior a 20%.Com mais segurança, o aperto é mais garantido de acontecer no final da primavera de 2027, momento em que, dizem as movimentações dos mercados, a probabilidade de os juros escalarem até 3% aumenta para uns significativos 70%.Por fim, surgiu uma nova hipótese nos últimos dias: no horizonte dos mercados monetários apareceu uma eventual quarta subida, algures em 2027, para 3,25%. Por enquanto, a probabilidade é baixa, mas não existia até há semana passada, por exemplo.Christine Lagarde, a presidente do BCE, reiterou, esta quinta-feira, que "não nos comprometemos previamente com uma trajetória de taxas de juro específica", mas deixou cair que o incómodo da inflação desregrada (acima do objetivo de 2%) é algo que se propaga já no tempo e 2027 a dentro. Foi um aviso à navegação."Apesar de a inflação dos preços dos produtos energéticos ter descido em junho, é provável que a sua subida desde o início do conflito – e o seu impacto na inflação dos preços dos produtos alimentares, dos bens e dos serviços – mantenha a inflação bastante acima do objetivo no primeiro semestre de 2027". Mais palavras de Lagarde, como que a indiciar que as decisões contra a inflação alta e, portanto, as subidas de juro, podem continuar no ano que vem, se o cenário não aliviar.Um novo ciclo de subidas a caminhoPara Jan von Gerich, analista-chefe do grupo financeiro escandinavo Nordea, já não é tanto se o BCE vai aumentar uma ou duas vezes. Para a sua equipa de economistas, a Zona Euro será sim confrontada com "um ciclo de subidas" nos próximos meses, talvez um ano."Embora o acordo de paz provisório e as quedas significativas dos preços do petróleo, juntamente com os dados de inflação relativamente fracos que marcaram junho, tenham reduzido a pressão imediata sobre o BCE para aumentar as taxas de juro a um ritmo mais acelerado, consideramos que estamos perante um ciclo de subidas das taxas, e não num ou dois movimentos isolados, e continuamos a prever que o BCE aumente as taxas mais três vezes".Para Von Gerich, "obviamente, as incertezas em torno desta perspetiva continuam elevadas e muitos percursos diferentes para as taxas de juro continuam a ser viáveis".Mas, observa o economista, "a nossa previsão já não depende tanto das expectativas de uma escalada da guerra no Médio Oriente ou de qualquer aumento significativo adicional dos preços da energia"."Em vez disso, acreditamos que as pressões inflacionistas generalizadas e uma economia resiliente manterão o BCE num percurso de aperto monetário durante mais tempo, embora um ritmo trimestral de subidas pareça agora mais provável".Em Portugal, o departamento de estudos do grupo BPI faz uma leitura semelhante. Após a reunião, os mercados começaram "a descontar um aumento das taxas em setembro (taxa de depósito para 2,5%, com 90% de probabilidade), outro aumento em dezembro (taxa de depósito para 2,75%, também com 90% de probabilidade) e um aumento final na primavera de 2027 (taxa de depósito para 3%, com 70% de probabilidade)".Segundo a mesmo equipa de analistas, "Lagarde reconheceu que o cenário benigno do BCE parece atualmente bastante improvável e, em relação à rutura do acordo EUA-Irão, aludiu ao sentimento once burned, twice shy", cujo equivalente em Português pode ser o provérbio "gato escaldado de água fria tem medo". "Sugere uma menor confiança numa resolução sustentável para o conflito", complementam os economistas do BPI.Além disso, Lagarde "realçou que os mercados financeiros entendem a função de reação do BCE, o que pode ser interpretado como uma validação das expectativas do mercado". Estes "apontam para dois a três aumentos adicionais das taxas de juro, tendo em conta o contexto atual", a partir do patamar atual de 2,25%, observam os mesmos analistas.Carsten Brzeski, economista-chefe global do grupo financeiro de origem holandesa ING, destaca o facto de ter havido "dois comentários importantes de Christine Lagarde esta tarde, sinalizando futuras movimentações da política monetária"."O primeiro foi a referência de que os riscos de alta e de baixa para as perspetivas de inflação e crescimento já não estavam mais equilibrados; em vez disso, Lagarde enfatizou os riscos ascendentes para a inflação e os riscos descendentes para o crescimento", o que para o analista é "uma clara mudança para uma postura mais conservadora"."O segundo foi a constatação de que alguns membros do BCE manifestaram-se a favor de um aumento da taxa de juro na reunião de hoje [quinta, 23 de julho], embora a decisão de manter as taxas inalteradas tenha sido tomada por unanimidade", acrescenta o mesmo economista.Ou seja, o desconforto com o atual nível de taxa de juro de 2,25%, eventualmente demasiado baixo, começa a notar-se.Pausa para ter mais informação no meio do caos da guerra e do petróleoComo referido, a taxa de juro principal da Zona Euro, a chamada taxa de depósito, ficou inalterada nos 2,25%, depois de uma primeira subida em junho que pôs fim ao ciclo de descidas que durou quase três anos (desde setembro de 2023 que estava a cair).Em todo o caso, a instituição sediada em Frankfurt sinaliza, no comunicado que resume a reunião de política monetária destas quarta e quinta-feira (22 e 23 de julho), que está bastante mais inquieta ou preocupada com a recente subida dos preços, com o reacendimento da guerra do Irão e no Golfo Pérsico e com o contágio à Zona Euro através da inflação mais elevada e de novos travões ao investimento e ao consumo, outra forma de dizer que estarão a caminho novas subidas de taxas de juro até ao final deste ano para tentar deter a escalada dos preços (inflação).Lagarde sinalizou ainda, por várias vezes, que o choque energético, que começou no final de fevereiro e agora ganhou fôlego, ainda não atingiu em pleno a economia da Zona Euro, nem se consegue vislumbrar sequer o seu fim, como se vê pelo fracasso no cessar-fogo com o Irão e pelo preço do petróleo (futuros do contrato Brent), que furou outra vez os 100 dólares por barril, ou seja, está tão caro quanto na altura do memorando ou pré-acordo para um cessar-fogo e eventual paz apalavrado no final de maio e assinado a 17 de junho entre Washington e Teerão.Trump rasgou o memorando a 13 de julho, dizendo que o cessar-fogo acabou porque Teerão não honrou os compromissos. Desde aí, tudo ruiu. "O impacto inflacionista total do choque energético ainda não se fez sentir", adverte agora o BCE."É de esperar" que empresas subam preços, diz LagardeNa conferência de imprensa, a presidente do BCE foi bastante clara nos termos e receios, lamentando que a inflação possa ficar outra vez "bastante acima do nosso objetivo [2%] no primeiro semestre de 2027", advertiu.O mesmo que dizer que, neste momento, estão reunidos cada vez mais argumentos para subir juros este ano, eventualmente no início do próximo também, como aliás observam já vários analistas."O conflito continua a ser uma importante fonte de incerteza. Por esse motivo, estamos a acompanhar de perto a magnitude e a persistência do aumento dos preços da energia, bem como a forma como este se repercute na formação de preços e salários, nas expectativas de inflação e na dinâmica geral da economia", explicou Christine Lagarde.Portanto, o quadro geral é tendencialmente inflacionista e as taxas de juro devem começar a subir. Estas são indicadores diretos dos custos de financiamento dos bancos comerciais, que depois refletem estes encargos nos seus clientes por via dos créditos concedidos mais caros (ou remunerações superiores, se forem depósitos).O BCE notou ainda que "embora muito voláteis, as perspetivas quanto aos preços dos produtos energéticos situam‑se atualmente próximo das projeções de referência subjacentes às projeções de junho elaboradas por especialistas do Eurossistema e bastante acima dos níveis registados antes do conflito no Médio Oriente"."A incerteza continua a ser elevada e o impacto inflacionista total do choque energético ainda não se fez sentir" pelo que o conselho do BCE avisa que tem de "acompanhar de perto a intensidade e a duração do choque, assim como os seus efeitos indiretos e de segunda ordem", como é o caso dos salários dos empregados e dos lucros das empresas, que podem sair empolados e agravar ainda mais a pressão inflacionista de base ou original.Lagarde usou o palco de Frankfurt para frisar bem esse perigo que está em crescendo, o da inflação elevada que está para vir, alimentada por estes quase cinco meses de guerra e pelo descalabro no cessar-fogo, nos fluxos e nos preços de petróleo, gás e outras mercadorias."O choque energético continua a gerar preços mais elevados e está a tornar-se mais dispendioso para as empresas obter fatores de produção externamente [energia, por exemplo], sendo, portanto, de esperar que subam os preços de venda"."E embora a evolução da inflação subjacente [inflação sem as componentes de energia e alimentos não processados] tenha permanecido contida, ainda não se fizeram sentir os efeitos completos do choque energético", repetiu a banqueira central..BCE mantém taxas de juro, mas adverte que vêm aí mais inflação.BCE revela imagens de Maria Callas, Cervantes, Da Vinci e de rios e aves para as novas notas de euro.Cessar-fogo com o Irão acabou e já pressiona BCE a duplicar subida de juros.Fórum BCE. Imigrantes são melhores que os nacionais a puxar pelo investimento e pela produtividade