O "prolongamento" da situação de conflito e tensão militar no Médio Oriente, o "espaço orçamental" cada vez mais exíguo dos países europeus para lidar com exigências financeiras (Defesa, envelhecimento populacional) e um colapso nos mercados de capitais dos Estados Unidos da América (EUA), alimentada por uma desvalorização abrupta do sector da Inteligência Artificial (IA) e um agravamento no risco da dívida soberana dos EUA, facilmente arrastarão a Europa e a maioria dos países europeus para uma nova recessão e um novo quadro de inflação elevada que, neste cenário adverso, pode chegar mesmo a 5%, avisa o Mecanismo de Estabilidade Europeu (ESM - European Stability Mechanism), o fundo de resgate da Zona Euro e maior credor de Portugal.Na primeira edição do Observatório da Estabilidade da Zona Euro (Euro Area Stability Watch), apresentada esta segunda-feira, Rolf Strauch, economista-chefe do ESM, explicou, em conferência de imprensa, que "uma escalada das tensões geopolíticas e dos riscos económicos associados está no topo das preocupações dos investidores, como demonstra um recente inquérito realizado pelo Mecanismo Europeu de Estabilidade junto de participantes nos mercados financeiros".Recorde-se que o ESM é o maior credor de Portugal, tendo ainda a haver do contribuintes portugueses mais de 23 mil milhões de euros por conta do resgate financeiro de 2011 a 2014 na sequência da bancarrota do país em 2010/2011.Segundo o economista alemão, "para compreender melhor estes riscos", o ESM sentiu necessidade de, como outras instituições, caso do Banco Central Europeu (BCE), começar a incluir nas suas avaliações "um cenário adverso destinado a avaliar as perspetivas macroeconómicas e orçamentais dos Estados-membros da área do euro".Mais do que isso. Strauch explicou que é um "dever" do ESM como credor monitorizar estes novos riscos, que têm vindo a crescer."A Zona Euro enfrenta uma conjugação sem precedentes de desafios", entre eles, "o aumento das ameaças à segurança, a fragmentação das relações comerciais globais, as perturbações no fornecimento de energia e os períodos de volatilidade nos mercados financeiros exercem uma pressão crescente sobre o crescimento económico e as finanças públicas".Até aqui, a área da moeda única europeia "tem demonstrado resiliência perante choques anteriores, mas não ficará imune aos que se avizinham", avisa Rolf Strauch, que lança a pergunta: "Conseguirá a área do euro manter-se resiliente à medida que os riscos externos se intensificam e as margens orçamentais se esgotam?""Mercados" vão apertar outra vez com os países do euroA resposta "é clara": para o economista-chefe, "um crescimento mais fraco e uma procura cada vez maior de apoios públicos estão a pressionar a sustentabilidade da dívida, tornando inevitáveis escolhas políticas difíceis"."Muitos países" – Portugal incluído pois, diz o ESM, deve enfrentar exigências orçamentais significativas nos próximos dez anos (até 2035) devido ao "envelhecimento" da população e aos gastos militares exigidos pelos novos acordos internacionais, designadamente no âmbito da NATO – "terão de prosseguir ajustamentos orçamentais mais determinados para preservar a credibilidade do quadro orçamental europeu"."Caso contrário, como demonstraram crises anteriores, os mercados financeiros tenderão a impor constrangimentos cada vez maiores ao espaço orçamental dos governos, gerando mais incerteza e instabilidade."O ESM fez algumas contas preliminares assumido que nem tudo correrá normalmente a partir de agora. "Este cenário parte do princípio de que dois riscos de elevada relevância se materializam em simultâneo", explica o economista-chefe."Em primeiro lugar, as tensões geopolíticas prolongam-se, eventualmente com uma nova escalada no Médio Oriente, levando a uma subida dos preços da energia e mantendo elevados os níveis de incerteza. Em segundo lugar, uma reavaliação abrupta dos ativos norte-americanos restringe as condições financeiras globais e transmite perdas aos investidores europeus.""Cada um destes choques, por si só, já representaria um desafio significativo", mas, assumindo que acontecem em simultâneo ou mais ou menos ou mesmo tempo, esses choques "podem empurrar a Zona Euro para uma recessão, fazer a inflação anual aproximar-se dos 5% e colocar a maioria dos países numa trajetória ascendente da dívida pública, assumindo que não há alterações das políticas monetária e orçamental".A longo prazo, "provocariam uma perda de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) da Zona Euro, o equivalente ao PIB [anual] da Finlândia", exemplifica.O alto responsável do mecanismo europeu justifica que este novo estudo é agora mais pertinente por vários motivos, que até ao passado recente não se verificavam."O que distinguiu o episódio recente não foi apenas a gravidade do choque imediato, mas também a probabilidade de o risco geopolítico elevado persistir".Assim é também porque "a intervenção militar no Irão agravou igualmente as preocupações de segurança em importantes pontos de estrangulamento marítimos [como é caso exemplar do Estreito de Ormuz, por onde passava 20% do fluxo mundial de petróleo e gás] e baixou a fasquia no que toca a futuros confrontos noutras regiões".Isto porque, depois do que aconteceu no Golfo Pérsio, na sequência do ataque dos EUA e de Israel ao Irão no final de fevereiro, o mundo está em alerta redobrado e a desconfiança quanto a episódios parecidos no futuro, espoletados por estes dois países ou outros, é um novo factor que passou a ser tido em conta ou que domina as novas previsões e análises que estão a ser feitas.Gastos militares, risco soberano dos EUA e colapso no sector da IASegundo Rolf Strauch, "em primeiro lugar, o espaço orçamental está a diminuir, em parte devido ao aumento das necessidades de despesa com a defesa", ainda que no novo estudo que apresentou esta segunda-feira, "uma parte significativa desta despesa pode, ao longo do tempo, apoiar o crescimento económico de longo prazo e, dessa forma, acabar por se autofinanciar, desde que seja aplicada de forma produtiva".Em segundo lugar, o economista adverte que "a Zona Euro continua estruturalmente exposta a perturbações no fornecimento de energia decorrentes das tensões geopolíticas", choques que "aumentam os preços e a incerteza, prejudicam a competitividade e o investimento e criam o risco de danos duradouros na produtividade".Em cima destes dois, há um novo advento que deixa o ESM inquieto, apontando para o efeito combinado de três problemas. A degradação do risco de crédito do EUA pode sofrer por causa dos seus défices e dívida elevadíssimos; a "preocupação" com a independência da Reserva Federal dos EUA face aos desejos do governo e do Presidente Donald Trump; e o rebentamento de uma bolha bolsista ligada à IA.Aqui, o economista-chefe do ESM assume de forma clara que no seu novo cenário mais exigente conta que "as valorizações elevadas das ações norte-americanas poderão sofrer uma correção abrupta caso diminua o otimismo em torno dos investimentos em inteligência artificial (IA)"."As expectativas de um crescimento excecional dos lucros impulsionado pela IA têm contribuído para a subida das valorizações bolsistas" e "os gastos de capital das maiores empresas dos Estados Unidos em infraestruturas de IA têm sido substanciais e as notícias relacionadas com esta tecnologia são consideradas mais influentes para os mercados do que as divulgações de indicadores macroeconómicos tradicionais", observa o alto responsável.No entanto, há um problema nisto tudo: "o retorno efetivo destes investimentos continua a ser incerto, sobretudo tendo em conta o aumento da concorrência no desenvolvimento desta tecnologia" e, assim, "a ideia de que os lucros das grandes empresas tecnológicas continuarão a compensar as pressões que afetam o conjunto do mercado pode vir a ser posta em causa"..Tobias Adrian. “A minha preocupação é que os resultados das tecnológicas possam desiludir”.Fórum BCE. FMI aponta para riscos da IA: se não for uma bolha, pode ser um problema de dívida.Fórum BCE. Economista-chefe da OpenAI: "A IA não afetará todos os empregos da mesma forma".FMI. Seis das oito maiores ameaças à economia devem concretizar-se e causar danos relevantes.FMI pede fim dos apoios aos jovens na habitação e no IRS e quer nova reforma das pensões