"A Inteligência Artificial (IA) não afetará todos os empregos da mesma forma" e "a ideia de que a exposição de uma tarefa [laboral] determina automaticamente a evolução desse emprego está errada", desdramatizou Aaron Chatterji, economista-chefe da OpenAI, uma das mais importantes empresas do mundo no sector dos modelos de IA e criadora e dona do popular 'robô' de linguagem ChatGPT, num dos debates do Fórum BCE (Banco Central Europeu), que decorre entre segunda e quarta-feira desta semana, em Sintra, Portugal.Em conversa Philip R. Lane, membro da comissão executiva do BCE e também ele economista-chefe da autoridade monetária da Zona Euro, Aaron Chatterji tentou, sem surpresa, desmontar a ideia de que a IA seja uma ameaça às pessoas, nomeadamente, aos empregos que, dizem muitos analistas, poderá substituir em massa dentro de poucos anos, lançando milhares ou milhões de pessoas no desemprego e reduzindo o custo da mão-de-obra humana."Temos de usar a empatia e passarmos depois à análise das evidências. Assim, conseguimos identificar melhor o que está a diminuir e o que está a crescer. É essencial sublinhar que a IA não afetará todos os empregos da mesma forma e também dizer que a ideia de que a exposição de uma tarefa determina automaticamente a evolução de um emprego está errada", atirou o economista perante a audiência de cerca de várias dezenas de pessoas nesta 13ª edição do grande encontro anual do BCE.Modelos atuais "conseguem realizar tarefas igual ou melhor que os humanos em cerca de 80% dos casos"No entanto, há empregos e empregos consoante a percentagem de tarefas que podem ser substituídas num determinado momento. Este momento é importe porque muda muito à medida que o tempo passo.O alto responsável deu um exemplo que conhece bem.Em 2025, a OpenAI lançou o GDPval, um modelo de IA que ajuda a medir o desempenho dos outros modelos mas só nas tarefas e profissões que têm um impacto económico elevado.“Pode estar a falar de uma apresentação de um processo no caso de um advogado, de um pitch no caso de um consultor, um mapa de fluxos de caixa feito por um analista financeiro”, exemplifica o economista. Perante isto, vamos avaliamos a capacidade do modelo para realizar tais tarefas e comparamos o seu desempenho com o do ser humano". Atualmente, feita esta comparação e avaliação, "já conseguimos verificar que que os modelos mais recentes conseguem realizar essas tarefas ao mesmo nível ou melhor do que os humanos em cerca de 80% dos casos“.Mas não todas, claro. “Trata-se de um conjunto selecionado de tarefas de trabalho dos chamados colarinhos branco [profissionais mais bem remunerados e num patamar superior da hierarquia], não são profissões completas, mas sim de tarefas específicas”.Agora, conta o economista, a capacidade dos algoritmos da OpenAI já permite cumprir tarefas igual ou melhor que um humano em 80% dos casos selecionados para análise quando "há uns anos os modelos informáticos nunca superavam os humanos em mais de 50% dos casos (tarefas). Ou seja, estamos perante "um crescimento dramático das capacidades destes modelos", acena Chatterji.O meu pai era economista nos anos 80 e não perdeu o emprego por causa dos PC"Se olharmos apenas para os empregos como um conjunto fixo de tarefas, perdemos um ponto fundamental: as tarefas estão sempre a mudar. Acrescentamos novas, retiramos outras" e depois recorreu às suas memórias familiares. "O meu pai, que também era economista como eu, em 1985 tinha um trabalho muito exposto à introdução do computador pessoal", um equipamento que conheceu forte ascensão e popularidade nessa década."Em vez de usar cartões perfurados num grande centro de computação para correr regressões econométricas, o mau passou a fazê-lo diretamente num computador, e isso não substituiu o seu trabalho — complementou-o e tornou-o mais produtivo", defendeu Chatterji, que também é professor de Economia na Universidade de Duke, nos EUA.Com o advento da IA, mercado que é liderado por poucas e enormes empresas tecnológicas muito conhecidas (OpenAI, Anthropic, Google, Microsoft, Meta são algumas das mais sonantes), muitos estudiosos sobre o tema, nomeadamente os economistas mais céticos, antecipam uma vaga significativa de destruição de empregos no globo. Pessoas a serem substituídas pelos algoritmos, basicamente.Para Chatterji , "o facto de uma tarefa estar próxima da IA não significa automaticamente que será substituída" e "precisamos de pensar de forma mais profunda sobre o que são os empregos e como evoluem — e isso ajuda-nos a ir além de visões simplistas, sejam elas otimistas ou pessimistas"."Se queremos ser credíveis enquanto economistas-chefes", continuou, "temos de apresentar uma visão realista". "Em primeiro lugar, quando alguém manifesta ansiedade em relação ao mercado de trabalho, independentemente do que os dados mostrem — neste momento, por exemplo, os dados nos EUA apontam para uma taxa de desemprego baixa, perto de 5%, e na Europa também não se observa, pelo menos até agora, um nível elevado de desemprego induzido pela IA — isso não faz com que a pessoa se sinta melhor, sobretudo se estiver à procura de emprego ou se não tiver formação superior e estiver com dificuldades em encontrar uma posição".O alto responsável da OpenAI diz que é preciso é ajudar as pessoas a tirar partido da IA. Perguntar aos trabalhadores deste mundo “Como posso ajudar neste desafio? Que aspetos das suas competências podem ser desenvolvidos? Que empregadores está a tentar alcançar? Esta abordagem humana vem primeiro — porque este será sempre um desafio quer o mercado de trabalho esteja forte ou fraco", atirou.Também "devemos olhar para a evidência e perceber o que está de facto a acontecer: quais são os setores que estão a crescer e os que estão a contrair. Houve muitas previsões, por exemplo, de que os empregos no sector do desenvolvimento de software iriam diminuir devido à IA — mas isso não aconteceu na dimensão que se antecipava".E porquê? A resposta possíve é que "no meio empresarial, sobretudo em São Francisco, falamos do Paradoxo de Jevons: quando o preço baixa, se a procura for elástica, o consumo pode aumentar. É uma forma de dizer que a maior eficiência [da IA] gera mais utilização da tecnologia e, portanto, mais procura".É o que está a acontecer no mundo, defende de forma insistente; no fundo, diz que a IA está a abrir mais muitos mercados que já existiam..Fórum BCE. Inovação e IA são insuficientes para inverter declínio da produtividade europeia.Fórum BCE volta a Sintra e na ementa tem temas como imigração, IA e criptoativos.BCE. Choque petrolífero atinge sobretudo os mais pobres, incerteza da guerra perturba os mais ricos.Lagarde elogia crescimento da IA, mas critica avanço dos salários.Lagarde está satisfeita com subida de juros, mas avisa que acordo EUA-Irão "não está garantido"