Numa economia dependente e importadora em termos líquidos de energia, como é o caso da Zona Euro e de Portugal, as famílias mais pobres e de menores rendimentos são as que sofrem mais, e logo no imediato, os efeitos nocivos dos choques petrolíferos, como o que decorre atualmente.Segundo um estudo com a chancela do Banco Central Europeu (BCE), publicado esta segunda-feira, 11 de maio, como essas pessoas ganham pouco (têm salários baixos), uma subida na inflação corrói rapidamente o seu poder de compra, fenómeno que se transmite logo à economia.A debilidade do consumo, a maior componente do Produto Interno Bruto (PIB), vale cerca de 60% do total, arrasta consigo o crescimento real da economia.Mas, nos tempos que correm, além do choque petrolífero em curso e da guerra que nunca mais acaba (o preço petróleo continua sob forte stress, estando a alimentar já a tese de um novo choque inflacionista (depois da energia, os preços muito mais elevados começar a contaminar partes vitais da economia, como o custo da alimentação, por exemplo), o BCE chama a atenção para um efeito que vai no sentido oposto: a incerteza que se apodera dos consumidores tende a travar subidas de preços porque gera receio junto dos consumidores.Os que podem, os de rendimento mais alto, tendem a cortar mais no consumo (choque na procura) de modo a conseguirem poupar mais por motivos de "precaução" e assim enfrentarem o futuro desconhecido.As famílias mais pobres não são protagonistas aqui pois sofrem um primeiro embate negativo imediato e expressivo no poder de compra, não tendo qualquer margem para decidir não consumir para poupar. Todo o seu rendimento é drenado pelas necessidades mais básicas, como comida, transporte, habitação, água, luz, etc..Mais ricos garantem o básico e têm margem para se precaverAssim, diz o estudo assinado por Niccolò Battistini, Alina Bobasu, Rodolfo Dinis Rigato e Hanno Kase, no caso da incerteza, é entre as famílias com rendimentos superiores que este fenómeno provoca mais distúrbios (menos consumo, mais poupança) na atividade económica.Portanto, defendem os economistas do banco central presidido por Christine Lagarde, dois fenómenos diferentes (choque em alta nos preços e incerteza quanto ao futuro) parecem ter efeitos divergentes na inflação (o primeiro faz subir preços, ou segundo nem tanto).Mas, no fim, ambos acabam por gerar impactos muito negativos na atividade económica. Isto estará já a materializar-se, como se sabe, alertam várias instituições. A mais contundente têm sido o Fundo Monetário Internacional (FMI).A guerra dura há dois meses e meio, o preço do petróleo disparou de 70 dólares no final de fevereiro para perto de 110 dólares (mais 60%), só para se ter a noção da gravidade do momento.Pobre e rico levam a economia ao fundo, cada um à sua maneiraDe acordo com o BCE, "numa economia importadora líquida de energia, como a Zona Euro, os termos de troca – o rácio entre deflator do PIB e deflator do consumo [vulgo, inflação] – normalmente diminuem quando os preços da energia aumentam", refere o trabalho do BCE.Por norma, isto conduz a "perdas no rendimento disponível real das famílias, tanto diretamente, através de preços mais elevados para os produtos energéticos importados, como indiretamente, através de salários reais e lucros mais baixos distribuídos pelas empresas"."Estas perdas de rendimento real tendem a traduzir-se em menores despesas [de consumo] e, em maior medida, em menores poupanças".De acordo com um dos modelos econométricos usados pelos autores, "após um choque adverso nos termos de troca, as famílias do tercil de rendimento mais baixo [as mais pobres] representam mais de metade (54%) da queda do consumo", apesar de pesarem apenas 18% no consumo total. São pessoas "que não possuem grandes reservas de liquidez para amortecer as perdas no rendimento real do trabalho", constata o estudo.Por outro lado, continuam dos economistas do BCE, "uma maior incerteza dos consumidores – frequentemente desencadeada pelo mesmo choque subjacente, como os aumentos dos preços da energia – fortalece os motivos de precaução, reduzindo o consumo e elevando a taxa de poupança".Ou seja, "um aumento da incerteza do consumidor faz com que a maior parte da queda do consumo (63%) ocorra com as famílias do tercil superior [as de rendimentos superiores], refletindo a sua maior participação inicial no consumo total (52%)". No entanto, ao contrário dos pobres, conseguem poupar, mesmo em tempos sombrios como estes.