Por muito que se inove na tecnologia, esta se difunda pela economia e pelos vários setores e países, e se avance em grandes investimentos em tecnologias de vanguarda, como a Inteligência Artificial (IA), isto será "insuficiente" para impedir o declínio da produtividade europeia em relação a outras potências mundiais, como os Estados Unidos da América (EUA), defende Bart van Ark, professor de Economia da Universidade de Manchester.Este apresentou um estudo sobre o tema na 13.ª edição anual do Fórum BCE (Banco Central Europeu), que decorre como é hábito em Penha Longa, Sintra. O evento começou na segunda-feira (29 de junho) e termina na quarta-feira ao final da tarde (1 de julho).De acordo com o novo artigo submetido para discussão perante muitas dezenas de banqueiros centrais, economistas e financeiros do público e privado, "ao analisar o desempenho da produtividade na Europa a nível agregado, nacional, regional e setorial" conclui-se que o abrandamento registado nesses indicadores de produtividade "é generalizado entre países e setores europeus e que a sua dispersão aumentou entre empresas e regiões"."Ao explorar as ligações entre tecnologia, inovação e difusão, com particular atenção à inteligência artificial (IA), revela que nem um reforço da inovação na fronteira tecnológica [a melhor combinação atualmente possível de fatores de produção e de competências existentes], nem uma difusão mais rápida [desta inovação], por si só, serão suficientes para inverter o abrandamento" da produtividade europeia, alerta o economista de origem holandesa.Em terceiro lugar, "o investimento em ativos intangíveis relacionados tanto com a tecnologia como com a inovação empresarial sustenta o crescimento da produtividade, ao apoiar simultaneamente a inovação na fronteira tecnológica a adoção alargada".Assim, diz o também conselheiro económico do centro de estudos norte-americano The Conference Board, "o problema de produtividade da Europa" é que esta "enfrenta simultaneamente uma menor dinâmica na fronteira tecnológica e barreiras sistémicas que impedem que as inovações existentes se disseminem amplamente pela economia".Para o professor, "estas barreiras incluem uma regulamentação dos mercados de produtos fragmentada e, por vezes, restritiva, fraca concorrência e dinamismo empresarial, constrangimentos de financiamento para empresas jovens e em crescimento, bem como desajustes de qualificações e capacidades que limitam a capacidade de absorção das empresas".Por isso, investir por investir e verter muito dinheiro em tecnologias de ponta, como acontece com a IA atualmente, pode dar parcos resultados.É preciso uma estratégia abrangente, menos "obstáculos", defende o economista. "Abordar apenas um dos lados deste problema — seja através do reforço da I&D (Investigação e Desenvolvimento) na fronteira ou da melhoria isolada da difusão — não será suficiente.""Um crescimento sustentado da produtividade na Europa exige tanto maior dinamismo na fronteira tecnológica como uma redução sistemática dos obstáculos à adoção generalizada de tecnologias".Lograr mais produtividade na Europa "exige igualmente reconhecer que as consequências da fraca inovação e difusão são cada vez mais distributivas: os diferenciais de produtividade alargaram-se não só entre a Europa e os Estados Unidos, mas também entre setores, empresas e regiões dentro da própria Europa, aumentando a importância tanto da eficiência como da inclusão".Para os governos europeus, "a principal implicação em termos de políticas públicas é a necessidade de reconfigurar o enquadramento da produtividade na Europa, de modo a articular a inovação na fronteira, a sua comercialização, a disseminação de tecnologias e práticas inovadoras, e a capacidade de absorção necessária para transformar esses processos em crescimento generalizado da produtividade".Na apresentação que fez em Sintra, Van Ark disse que "o diferencial de produtividade da Europa face aos Estados Unidos voltou a aumentar — e o efeito composto faz com que isso pese cada vez mais ao longo do tempo".Este atraso europeu "está sobretudo dentro dos próprios setores, não resulta de a Europa estar concentrada nos setores errados". Ou seja, muitas empresas não estão a inovar bem, muitas não estarão a inovar de todo.O economista repara que "a inovação aumenta a produtividade quando as empresas conseguem comercializar, adotar, adaptar e utilizar eficazmente novas tecnologias" e que as políticas públicas têm um papel a fazer e a melhorar no caso europeu que é "facilitar o investimento em ativos intangíveis e reforçar as capacidades de inovação, para que a difusão produza melhores resultados para empresas, pessoas e territórios".O caso da IAVan Ark argumenta que "a inteligência artificial é uma tecnologia de uso geral, mas que eleva os níveis de produtividade, podendo também melhorar o próprio processo de invenção e, potencialmente, as taxas de crescimento".Posto isto, o economista concluiu que, até ao momento, "os Estados Unidos captaram uma maior parcela do valor a montante da IA: o software de IA poderá explicar cerca de mais ou menos 40% do recente aumento do crescimento da produtividade total dos fatores nos EUA; já na Europa, esse efeito é negligenciável".Para mais, a adoção de IA na Europa "ainda está numa fase inicial e é desigual".Por exemplo, "as taxas de adoção ao nível das empresas situam-se entre o final da casa dos 10% e o início da casa dos 20%, com grandes diferenças entre países e consoante a dimensão das empresas".No caso da Europa, "a oportunidade" da IA está na sua "aplicação": "os ganhos exigem qualificações, reconfiguração do trabalho e capacidade de expansão (escala) em setores onde a Europa já é forte", aconselha o professor.Perante isto, o que significa este advento da IA e da inovação para governos e outras autoridades europeias e nacionais, como os bancos centrais?Por exemplo, "quando a difusão é credível, os ativos intangíveis podem impulsionar a procura e a taxa de juro natural". Visto de outra forma, pode "sobretudo enfraquecer a transmissão".Também é "necessário articular políticas verticais e horizontais: a estratégia industrial pode gerar escala, mas a produtividade só aumenta quando a concorrência, os mercados, o capital, as competências e a mobilidade permitem a sua difusão".O economista holandês diz ainda que "a União Europeia orienta os mercados, a concorrência e o comércio, mas as políticas setoriais são frequentemente de âmbito nacional — contudo, os desafios atuais abrangem ambos os níveis".Assim, os decisores de políticas da UE devem trabalhar em "criar escala, missões, infraestruturas partilhadas e normas; e recorrer às políticas nacionais para desenvolver competências, apoiar as Pequenas e Médias Empresas (PME) e reforçar a absorção a nível local".Resumindo: quando se tentar resolver o problema de falta de produtividade europeia, "não se trata de um problema de inovação versus difusão, a Europa precisa sim de voltar a conectar" estas duas dimensões."Os ganhos de produtividade dissipam-se sem competências — qualificações, gestão, dados, financiamento e organização são determinantes", sumariza o economista.As políticas públicas também são cruciais para "reconectar os vários níveis do processo de inovação — escala europeia, reforma nacional, capacidade regional e investimento das empresas".Europa tinha de chegar a 20% de computação global em IA para competir com os EUANo comentário ao estudo de Van Ark, Monika Schnitzer, da universidade LMU Munique e do Conselho Alemão de Peritos Económicos, tentou responder à questão "IA e Produtividade: A Europa está no bom caminho?"Para a economista, nem por isso. "A Europa tem cerca de 5% da capacidade global de computação em IA" pelo que "para corresponder ao seu peso económico, teria de atingir 20% da computação global em IA", algo que "exige capital privado, energia, semicondutores, rapidez nos processos de planeamento e licenciamento, localizações adequadas e apoio público".Para a professora alemã, "pelo menos parte dessa capacidade deverá estar sob controlo soberano — a Europa executa atualmente aplicações de IA em infraestruturas dos EUA, sob jurisdição norte‑americana".Isto faz com que "o acesso a modelos de ponta dos EUA possa ser interrompido a qualquer momento". Por exemplo, acabamos de assistir, em junho de 2026, a isto: "a Anthropic restringiu o acesso ao Fable e ao Mythos; a OpenAI restringiu o acesso ao ChatGPT 5.6". A Europa ficou a assistir, está fora da sua "jusrisdição".Portanto, qualquer estratégia europeia bem sucedida para a IA tem de ter "duas frentes": "garantir o acesso a modelos de ponta dos EUA através de mecanismos contratuais" e "utilizar ativos estratégicos, como a ASML ou a Zeiss, como alavanca estratégica".Também é preciso "desenvolver tecnologia de fronteira na UE para aplicações sensíveis (defesa, administração fiscal, etc.), por razões de soberania".Depois, é preciso resolver o problema do atraso na adoção e da falta de cultura inovadora para "aumentar a eficiência dos processos através da IA".No caso das empresas da Zona Euro, "cerca de 70% reportam adoção, mas apenas 7% fazem uma utilização intensiva de IA".Portanto, para haver uma transformação dos processos mais a fundo a Europa "requer uma utilização intensiva", o que "exige investimento complementar e mudanças organizacionais".A economia europeia precisa de "novos produtos e serviços baseados em IA" porque esta "inovação em produtos e serviços deverá gerar efeitos de crescimento mais expressivos do que os ganhos decorrentes do aumento da eficiência dos processos".E o ponto de partida é baixo, alerta Monika Schnitzer: "Apenas 34% das empresas utilizam atualmente IA para criar novos produtos ou desenvolver novos modelos de negócio", segundo um novo estudo da consultora Deloitte. "Isso exige capital de risco, experimentação regulatória e um mercado digital integrado". Só os Estados Unidos registaram "75% do capital de risco (venture capital) global em IA em 2025". No caso da Europa (UE27), a proporção não ultrapassa os 6%..Lagarde está satisfeita com subida de juros, mas avisa que acordo EUA-Irão "não está garantido".Presidente do BCE alerta que ordem mundial está em perigo devido aos EUA .Fórum BCE volta a Sintra e na ementa tem temas como imigração, IA e criptoativos.Fórum BCE. Ganhos com inteligência artificial "não serão substanciais" e Portugal aproveita menos