Fundo de resgate da Zona Euro volta a endividar-se em dólares mas paga mais para cativar investidores
O fundo de resgate da Zona Euro e maior credor de Portugal, o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE ou ESM, na sigla em inglês), foi aos mercados internacionais endividar-se em dólares de forma a "diversificar" e angariar mais interesse dos investidores, sobretudo os de fora da Europa.
Segundo anunciou a instituição financeira, esta terça-feira (25 de agosto), o ESM lançou uma nova obrigação a cinco anos através da qual captou mais dois mil milhões de dólares (1,7 mil milhões de euros ao câmbio atual).
Em agosto de 2025, tinha feito o mesmo, mas pagou menos. Há cerca de um ano, uma mesma obrigação de dois mil milhões de dólares com maturidade a cinco anos valeu uma taxa de juro (spread) de 3,75%. Esta quarta, a taxa para uma emissão em tudo semelhante subiu para 4,375%.
O Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) refere que obteve dois mil milhões de dólares em novo financiamento "através de uma nova emissão obrigacionista com prazo de cinco anos".
Disse ainda que os bancos coordenadores desta nova emissão nos mercados internacionais foram "o Crédit Agricole CIB, o Citigroup Global Markets Europe AG e a TD Global Finance Unlimited Company".
A taxa de juro (spread) da obrigação tem um cupão (juro a pagar regularmente) de 4,375%. Este título vence em 2 de setembro de 2031.
A procura foi boa, com o ESM a dizer que os investidores enviaram propostas num valor global de 6,1 mil milhões de dólares.
No entanto, este interesse caiu a pique face há um ano, quando uma mesma emissão de dois mil milhões dólares atraiu uma procura inicial de 13,3 mil milhões de dólares, segundo o próprio ESM.
Esta terça, "o livro de ordens superou os 6,1 mil milhões de dólares, incluindo as ordens dos bancos coordenadores" e a instituição liderada por Pierre Gramegna, o antigo ministro das Finanças do Luxemburgo, diz estar satisfeita na mesma.
“O objetivo do programa de financiamento do MEE em dólares é diversificar a base de investidores. O estabelecimento e a manutenção de relações duradouras com os nossos investidores, através de roadshows presenciais e virtuais, deram frutos hoje, permitindo-nos demonstrar uma carteira de ordens muito bem diversificada", afirmou Jun Dumolard, diretor de Financiamento e Relações com Investidores do ESM.
Apesar deste endividamento em dólares, "o euro continua a ser a principal moeda de financiamento do MEE", representando 94% do financiamento obtido em 2025, de acordo com o relatório anual do Mecanismo.
O maior credor oficial
O ESM é o maior credor da República Portuguesa. Foi um dos três grandes credores que resgataram o país em 2011-2014 (juntamente com os empréstimos do mecanismo de emergência criado na altura pela Comissão Europeia e do Fundo Monetário Internacional).
Portugal já saldou tudo o que devia ao FMI (cerca de 21 mil milhões de euros), mas ainda deve uma pilha de dívida ao ESM, cerca de 23 mil milhões de euros a amortizar até 2040, segundo as Finanças (IGCP).
Ao MEEF (o referido mecanismo de emergência da Comissão) também. Falta pagar 19,8 mil milhões de euros. A última tranche está prevista para 2042.
Estes dois empréstimos dos credores ditos "oficiais", ainda por reembolsar, ascendem a 43 mil milhões de euros, valendo assim mais de 13% da dívida total do Estado português, que supera 322 mil milhões de euros.
Há um ano, o ESM congratulou-se com a emissão em dólares porque suscitou "o interesse de investidores de elevada qualidade".
"Os investidores apresentaram uma forte diversificação geográfica, com 65% da colocação atribuída a investidores fora da Europa", "a operação atraiu igualmente uma sólida procura institucional, tendo 66% da emissão sido alocada a bancos centrais, fundos soberanos e outros investidores públicos ou ligados a agências governamentais", diz o Mecanismo nas contas anuais referentes a 2025, publicadas em junho último.
"À semelhança do que aconteceu nas emissões denominadas em euros, a obrigação em dólares contou também com uma participação expressiva das tesourarias de instituições bancárias", remata.

