Portugal é considerado como um caso exemplar de ajustamento financeiro, na sequência da bancarrota e do resgate de 2011, continua a ser um bom pagador da dívida, "mantém a capacidade para reembolsar", mas há perigos à espreita, diz a Comissão Europeia (CE) na avaliação ao país no âmbito do novo ciclo do Semestre Europeu.Um dos principais alertas visa o sistema de pensões: sustentabilidade de médio prazo está em perigo e é preciso abrir mais o mercado de pensões aos privados, defende agora a CE.No diagnóstico sobre Portugal, apresentado esta quarta-feira pelo comissário da Economia, Valdis Dombrovskis, na capital belga, as recomendações da Comissão colidem frontalmente, por exemplo, com algumas propostas do Chega, que está a propor uma redução da idade legal de acesso à reforma para os antigos 65 anos ou que as pessoas se possam reformar mal atinjam os 40 anos de descontos (carreira contributiva).A Comissão rejeita este tipo de medidas e, pelo contrário, insiste que o Governo tem de fazer mais para garantir a sustentabilidade do atual sistema porque há perigos à espreita. "O envelhecimento da população, a par da redução da população em idade ativa, exerce pressão sobre a sustentabilidade do sistema de pensões de repartição em Portugal a médio prazo", atira a CE.Segundo a avaliação ao país, "prevê-se que a despesa pública com pensões continue a aumentar nas próximas duas décadas, passando de 12,8% em 2025 para 15,1% [do Produto Interno Bruto ou PIB] em 2045" fazendo com que Portugal "apresente o terceiro mais elevado rácio de despesa com pensões em percentagem do PIB entre todos os Estados-Membros em 2045, com a despesa projetada do sistema público de pensões a atingir o seu pico em 2046"."Em Portugal, a idade legal de reforma está indexada à esperança de vida, com vista a melhorar a sustentabilidade do sistema de pensões", mas isto não chega, defende a Comissão.À espera de novas medidasO executivo europeu toma nota de que o país "criou um grupo de trabalho com o objetivo de definir estratégias e avaliar propostas para garantir a sustentabilidade do sistema, incluindo a reavaliação do regime de reformas antecipadas e um estudo sobre mecanismos de reforma parcial".Mas lamenta que "este grupo de trabalho ainda não apresentou o seu relatório com propostas concretas de política, e Portugal não adotou medidas concretas que possam contribuir para aliviar a pressão sobre o sistema público de pensões"."Além disso, os regimes complementares de pensões em Portugal continuam pouco desenvolvidos e cobrem apenas uma fração da população ativa, o que limita também o potencial do país para mobilizar poupança de longo prazo para investimento produtivo", acrescenta.Assim, a CE recomenda que é preciso "adotar medidas para assegurar a sustentabilidade orçamental do sistema de pensões a médio prazo e promover regimes complementares de pensões".Bom aluno e bom pagadorQuanto ao resto, Bruxelas "avaliou a situação económica, orçamental e financeira dos Estados-Membros que beneficiaram de programas de assistência financeira, com especial enfoque na sua capacidade de reembolso" e com isto concluiu que "as avaliações relativas a Irlanda, Grécia, Chipre e Portugal concluem que os quatro Estados-Membros mantêm capacidade para reembolsar a sua dívida".Segundo os números mais atualizados do Ministério das Finanças, Portugal ainda deve cerca de 43 mil milhões de euros aos credores oficiais europeus, o ESM (o fundo da Zona Euro) e o EFSM (gerido pela Comissão). É a enorme dívida que continua por pagar do tempo da bancarrota e do subsequente resgate e programa de austeridade, que decorreram entre 2011 e 2014..Governo tira do caminho cinco mil milhões de euros que tinha em dívida até final da legislatura