França e Inglaterra disputam sábado, 18 de julho, às 22.00, em Miami, a partida que define o 3.º e 4.º classificados do Mundial 2026, desafio que também é conhecido como “o jogo que ninguém quer jogar”. É fácil explicar porquê. Quem entra em campo fá-lo com a carga de desânimo de quem acabou de falhar o objetivo maior de um futebolista internacional: jogar a final de um Mundial e tentar ser campeão. Mas a disputa do 3.º lugar também tem outro detalhe cruel. Em caso de derrota, uma seleção que até tinha atingindo as meias-finais do torneio – o que será, seja qual for o parâmetro de análise, um desempenho positivo –, pode muito bem deixar a prova vergada a duas derrotas consecutivas, manchando a sua prestação coletiva, a autoestima de jogadores e equipa técnica, e, até, a confiança dos adeptos.Em 2006, numa das duas ocasiões em que Portugal jogou pelo 3.º lugar na prova, o selecionador nacional, Luiz Felipe Scolari, explicou, citado pelo site UOL, as dificuldades que o encontro perante a Alemanha encerrava: “Se você está do nosso lado da cerca, esse jogo representa sofrimento, e não um jogo que está feliz por disputar. (...) É díficil. Você pensa no que perdeu e não no que pode conquistar”. Eliminado pela França nas meias-finais (1-0), Portugal acabou também por perder o pódio frente aos germânicos (3-1), ao contrário do que aconteceu em 1966, quando os Magriços, conduzidos por um super Eusébio (9 golos no torneio) bateram a União Soviética, por 2-1, selando o 3.º lugar, naquela que é, ainda hoje, a melhor prestação nacional na competição.Ainda assim, não se pode dizer que este é um “jogo a feijões”, porque o vencedor receberá 25 milhões de prize-money da FIFA, mais dois milhões do que já tinha garantido pela presença nas meias-finais.A primeira vez que disputou o 3.º lugar foi em 1934 (segunda edição do torneio), com triunfo da Alemanha sobre a Áustria (3-2), e desde então só em 1950 é que essa partida não teve lugar, tendo o 3.º classificado (a Espanha) sido através de um formato de liguilha entre os quatro semifinalistas, que terminou com o Uruguai campeão mundial frente ao Brasil, em pleno Maracanã.Certo é que o “jogo que ninguém quer jogar” é bem mais ‘democrático’ do que a final. Ao longo da história, foram 20 as seleções que o disputaram (13 vencedores diferentes), contra apenas 13 que marcaram presença na decisão do título mundial (oito foram campeãs e não será em 2026 que este grupo cresce). Além disso, nas finais nunca estiveram países que não fossem europeus ou da América do Sul, enquanto que na disputa pelo 3.º lugar já participaram duas seleções fora desse eixo, nomeadamente a Coreia do Sul, em 2002, quando foi anfitriã da prova em parceria com o Japão, e Marrocos, no Qatar 2022. No entanto, nenhuma conseguiu garantir o lugar no pódio, tendo os sul-coreanos perdido frente à Turquia (3-2), enquanto Marrocos foi batido pela Croácia (2-1). As restantes 18 seleções que entraram em campo para tentar garantir o 3.º lugar eram federadas na europeia UEFA (15) e na sul-americana CONMEBOL (3).A Alemanha, que neste Mundial 2026 foi eliminada pelo Paraguai, logo nos 16-avos-de-final, é a seleção que mais vezes disputou o 3.º lugar. Fê-lo em cinco ocasiões, tendo saído vencedora em quatro delas. A este registo, os alemães somam a presença em oito finais (ganharam quatro), ou seja, a mannschaft tem no seu historial 13 jogos nas partidas mais decisivas do torneio, duas acima do Brasil, o recordista de títulos mundiais (5 em 7 finais) e que disputou o 3.º lugar em quatro edições (ganhou duas delas).O confronto entre França e Inglaterra pelo pódio é inédito, mas os gauleses já disputaram este encontro em três ocasiões (duas vitórias), enquanto que para os britânicos será a segunda vez (em 2018, perderam para a Bélgica). A ausência de foco defensivo e os recordesUma das principais diferenças deste jogo em relação à final é a quase total ausência de pressão, o que resulta em partidas muito menos fechadas defensivamente. Numa final, a ambição de ganhar anda de mãos dadas com o medo de errar, pelo que tanto jogadores como treinadores se tornam bastante mais cautelosos na abordagem ao jogo. Se a média de golos por jogo é muito aproximada (3,80 na atribuição do 3,º lugar; 3,82 na final), salta, no entanto, à vista que 8 dos 22 jogos do título precisaram de ter tempo extra para se encontrar o vencedor – no prolongamento (5) ou no desempate por grande penalidades (3) –, enquanto que só por uma vez é que o pódio não foi decidido nos 90 minutos regulamentares (aconteceu em 1986, quando a França bateu a Bélgica, por 4-2, no prolongamento).Há ainda outro registo histórico que ajuda a compor a ideia de maior desconexão defensiva e falta de foco das equipas nas partidas de 3.º ou 4.º lugar: foi num destes jogos, em 2002, que o avançado turco Hakan Sukur marcou, frente à Coreia do Sul, o golo mais rápido de sempre da história das Mundiais, logo aos 11 segundos.Se o recorde de Sukur já leva 24 anos, outro que também foi alcançado num jogo pelo pódio dura há 68 anos. Em 1958, na Suécia, o francês Just Fontaine entrou em campo para defrontar a Alemanha já com nove golos na prova. E, frente aos germânicos, somou mais quatro à conta pessoal, num dos resultados mais volumosos da história da competição: 6-3 para os bleu. Os 13 golos numa só edição ainda lhe valem hoje um lugar cimeiro na história do futebol e fizeram de Fontaine uma das grandes figuras do torneio. Mas, em 1958, os louros teriam de ser divididos com um jovem de apenas 17 anos, que guiou o Brasil ao título Mundial e viria a revolucionar o futuro da modalidade, de seu nome Edson Arantes do Nascimento. O “Rei” Pelé. .Campeã Argentina vence Inglaterra em mais uma aula de sobrevivência e repete final de 2022.Espanha está na final do Mundial 16 anos depois