Mundial 2026. Martínez tem 21 nomes garantidos e um lugar vago para terceiro avançado
A convocatória da seleção nacional, que será conhecida esta sexta-feira, 20 de março, para os jogos particulares com México e Estados Unidos representa a última chance para fazer testes antes do Mundial 2026, que vai realizar-se no verão nos EUA, México e Canadá. Espera-se, portanto, que possam existir surpresas, sobretudo no ataque, porque Roberto Martínez já abriu a possibilidade de levar três avançados, uma vez que no torneio vai haver pela primeira vez 16 avos-de-final, o que aumenta, numa partida, a necessidade de gestão.
Abrem-se portas para um lote que tem já 21 atletas definidos, que representam a espinha dorsal da seleção nacional e que, na prática, transitam da equipa que chegou aos quartos de final no Euro2024 e que conquistou a Liga das Nações de 2025. Falamos dos três guarda-redes Diogo Costa, José Sá e Rui Silva; dos seis defesas Diogo Dalot, João Cancelo, Nuno Mendes, António Silva, Rúben Dias e Gonçalo Inácio na defesa. No meio-campo, João Neves, Vitinha, Bruno Fernandes, João Palhinha e Rúben Neves terão lugar garantido. E no ataque, Cristiano Ronaldo, Gonçalo Ramos, João Félix, Rafael Leão, Bernardo Silva, Pedro Neto e Francisco Conceição têm vantagem clara.
Assim, Martínez pode escolher levar mais um central, dois médios e dois atacantes ou utilizar um nome que faça a posição de defesa e médio para levar outro lateral, um centrocampista e dois atacantes para perfazer os 26.
Opções para a baliza e defesa
Na baliza, face ao fim de carreira de Rui Patrício, Rui Silva, titular no Sporting, herdará a convocatória ao lado de José Sá, guardião do Wolverhampton, e do dono da baliza desde o Mundial 2022, Diogo Costa.
Para o eixo defensivo, sai Pepe, histórico e agora retirado, e surge a dúvida de quem acompanha Rúben Dias, há seis anos indiscutível no Manchester City. No lote de convocados estará Gonçalo Inácio, titular no Sporting, canhoto e habituado a esquemas de três centrais. António Silva foi ao Europeu2024, ao Mundial2022 e à Liga das Nações 2025, entrará nas contas, apesar de perder a titularidade no Benfica, a espaços, para Tomás Araújo, que pode bem fazer a primeira fase final na seleção.
Corre por fora Renato Veiga, que é um trunfo a utilizar por poder ser central e médio defensivo. Um dos destaques na época do Villarreal, concorrerá com Araújo pela vaga. Nas laterais, Nuno Mendes, elogiado como o melhor do mundo na posição, e João Cancelo, com nova vida no Barcelona, são indiscutíveis, tal como Diogo Dalot, já de tarimba internacional e com polivalência para ambos os corredores, como demonstra no Manchester United. Nélson Semedo tem sido um dos jogadores mais relevantes para a rotação de Martínez, mas sofreu uma entorse no joelho esquerdo, o que o deixa como uma das grandes dúvidas. Nesse sentido, o selecionador nacional pode agora optar por testar outro ala.
Espaço ao teste para um médio
No meio-campo, Palhinha é o homem mais posicional, sendo a experiência no Tottenham relevante para nova fase final, Rúben Neves, do Al Hilal, tem outro perfil, mais construtivo, e marcou presença nas conquistas da Liga das Nações, em dois Europeus e num Mundial. Bruno Fernandes, capitão e dos mais consensuais jogadores do Man. United, é indiscutível, Vitinha, outro cérebro determinante no onze, e ainda João Neves, que até foi lateral na final da Liga das Nações, posicionam-se com supremacia.
Dada a necessidade de um médio de outro perfil, mais rompedor, a ida de Matheus Nunes ganhará mais força do que a de Pedro Gonçalves, esse mais um típico número 10, ou de Mateus Fernandes, jogador do West Ham. Apesar de só ter feito dois jogos no Mundial2022 com Fernando Santos e outros dois com Martínez no Euro2024, o luso-brasileiro tem jogado no City, até como lateral direito. Mas Martínez até poderá chamar um nome além de Matheus Nunes.
Ataque pode ter surpresas
Até maio, será no ataque que o impacto do rendimento tem mais relevo. Daí que a convocatória de hoje de Roberto Martínez dê pistas para o ramalhete que atacará, em junho, a fase de grupos, diante de Uzbequistão, Colômbia e o adversário que saia do play-off entre RD Congo, Jamaica e Nova Caledónia.
Gonçalo Ramos, Campeão Europeu no PSG, e Cristiano Ronaldo, desde 2004 sem falhar uma única fase final, capitão e melhor marcador da história das quinas, são os pontas-de-lança referência, abrindo vagas nos corredores para Bernardo Silva, que também pode ser médio ofensivo. João Félix vai com 23 golos na época, ao lado de Ronaldo, e terá lugar garantido, tal como Pedro Neto, que soma dez golos e 46 jogos no Chelsea, sendo um ativo imprescindível pela dimensão em todo o corredor esquerdo. Rafael Leão leva dez golos, deve atingir o pecúlio mínimo de 12, que tem feito sempre desde 2022 ao serviço do AC Milan, e seguirá para o segundo Mundial. Francisco Conceição, o “espalha-brasas”, como apelidou Roberto Martínez, deverá ter uma vaga aberta para se posicionar para o Mundial, apesar de ter somado 63 minutos na fase de qualificação. Foi um jóquer no Euro2024 e, apesar de pouco impacto em golos na Juventus (quatro e duas assistências), tem perfil para desestabilizar a partir do banco.
As dúvidas somam-se depois. Pela primeira vez desde que Cristiano Ronaldo passou a jogar como ponta-de-lança, pode mesmo haver espaço para um terceiro avançado mais posicional. “Temos presentemente três opções - o Paulinho, que está a ser muito constante e está a jogar muito bem, o André Silva, que tem feito uma temporada muito boa no Elche, e temos o Fábio Silva, que está no Dortmund e já esteve com a seleção”, identificou Martínez em novembro.
Tendo em conta que o primeiro particular é com o México, há expectativa em relação a Paulinho, goleador e figura central no Toluca, somando 25 golos, números acima de qualquer outro. Só que desde 2020 que o ex-avançado do Sporting não joga pela seleção. Aos 33 anos seria a grande novidade, até porque nunca foi consensual em Portugal.
Já Fábio Silva baixou a sua performance, tem seis assistências e não alinha tanto na zona central. André Silva, no Elche, tem sete golos em 23 jogos, enquanto Youssef Chermiti, no Rangers, tem nove golos em 33 partidas, inserindo-se na categoria de referência ofensiva. Ainda assim, não se pode afastar a entrada de Gonçalo Guedes, que ajudou a Real Sociedad a chegar à final da Taça do Rei, contabilizando nove golos e oito assistências. Além disso, foi determinante na conquista da primeira Liga das Nações, em 2019, quando herdou o posto de segundo avançado de Nani, além de ser o mais parecido com Diogo Jota, falecido num acidente de viação no verão passado.
Entrando um terceiro avançado, sobra um posto para um extremo. O grande candidato é Francisco Trincão, que leva 11 golos e 12 assistências no Sporting, e bisou frente à Dinamarca quando foi decisivo no apuramento de Portugal para a final four da última Liga das Nações.
Neste contexto, leva vantagem sobre Rodrigo Mora, que não tem tido o mesmo impacto no FC Porto, pois tem saltado mais do banco, mas também sobre Geovany Quenda, que está lesionado desde dezembro e pode não recuperar a tempo de lutar por um lugar, bem como sobre Ricardo Horta, que apesar de 19 golos e dez assistências no Sp. Braga, só fez três jogos com Martínez, em 2023, depois de ter ido ao Mundial com Fernando Santos.
Marco Tavares: “Guedes chega para terceiro avançado”
Marco Tavares, analista tático fundador da empresa Analyst OS, que fez parte da equipa profissional do Sporting entre 2019 e 2025, falou ao DN sobre as opções da seleção nacional. Admitiu que apostaria em Mateus Fernandes, com quem se cruzou nos iniciados dos leões, e concorda que Gonçalo Guedes é o jogador mais parecido com Diogo Jota.
Entre os avançados, Paulinho é o mais bem posicionado para ganhar a vaga em aberto?
Se se olhar para o rendimento imediato, Paulinho está a fazer excelentes épocas, mas sabe-se que o patamar está limitado. Ou seja, não vai dar mais do que é neste momento. Queimar-se-ia uma vaga para a última competição que poderá fazer. Diria que o André Silva vive situação semelhante e já perdeu o seu momento na seleção. O Fábio Silva pode ser uma opção, apesar de não o ver com capacidade para ser o avançado da seleção nos próximos dez anos. Tem muito mais a ver com o tipo de projeto que o selecionador tenha. Chermiti, entre todas as opções, é o avançado mais tipicamente de referência ofensiva e está a fazer uma grande época. No entanto, mais depressa vejo o Gonçalo Guedes a entrar.
Gonçalo Guedes é o mais parecido com Diogo Jota?
Com Guedes, Martínez já pode considerar que leva um terceiro avançado. Gonçalo Ramos é um finalizador, ameaça a última linha, está sempre bem posicionado e beneficiaríamos mais de ter alguém a criar entre linhas, de alguém que faça parcerias. Paulinho gosta de ligar o jogo, mas Guedes joga nas costas do avançado, aproveita bem segundas bolas e está a fazer uma boa época em Espanha. É o mais parecido com Diogo Jota.
Na posição de extremo, entre as vagas possíveis, Trincão é o melhor posicionado?
Trincão deverá estar no Mundial. Tem feito uma boa época no Sporting. Rodrigo Mora poderia ser chamado a pensar no longo prazo, mas não me parece que justifique ficar com o lugar de Trincão. Quenda seria outra opção, mas está lesionado há muito e demora, pelo que me recordo no Sporting, a voltar ao melhor nível.
Na defesa e no meio-campo quais seriam as últimas vagas?
Na defesa, Martínez deve manter António Silva, apesar de eu preferir o Tomás Araújo. Mas entre Tomás Araújo e Renato Veiga, acredito que seja Veiga, por garantir saída com pé esquerdo e por ser médio de origem e com boa época no Villarreal. No meio-campo, Matheus Nunes irá certamente, até porque pode ser lateral direito. Não levaria Pedro Gonçalves, mas sim Mateus Fernandes. É completo, sabe levar a bola, é agressivo e destaca-se no West Ham. Poderia ser a surpresa da convocatória.

