História dos Mundiais. Em 1938, Itália tornou-se bicampeã sob vaias francesas e tensão pré-guerra
A terceira edição do Mundial aconteceu numa Europa cada vez mais próxima de uma das noites mais escuras de sua história. Em 1938, enquanto o continente via o avanço do nazismo alemão, do fascismo italiano e da Guerra Civil Espanhola, a França recebeu um torneio cercado por tensões políticas e diplomáticas que iam muito além dos relvados.
A escolha francesa como sede desagradou principalmente a Argentina, que defendia um sistema de rodízio entre Europa e América do Sul. Os argentinos boicotaram a competição, acompanhados pelo Uruguai, ainda ressentido com a ausência de potências europeias no Mundial de 1930. A Espanha, mergulhada na guerra civil, também ficou fora, enquanto a Áustria classificou-se, mas acabou retirada do torneio após ser anexada pela Alemanha nazista meses antes da competição.
Dentro de campo, o Mundial manteve o formato de mata-mata desde o início e apresentou histórias improváveis, como a de Cuba, que tornou-se a primeira seleção caribenha a disputar a competição e surpreendeu ao chegar às quartas de final. Já a Itália confirmou a força construída durante o regime de Benito Mussolini e chegou novamente à decisão liderada por Giuseppe Meazza e pelo goleador Silvio Piola.
Os italianos eliminaram Noruega, França e Brasil até encontrarem a Hungria na final, disputada em Colombes, nos arredores de Paris. A vitória por 4-2 garantiu à “Squadra Azzurra” o primeiro bicampeonato da história dos Mundiais e transformou Vittorio Pozzo, até hoje, no único treinador campeão do torneio em duas ocasiões consecutivas.
O ambiente político, porém, nunca deixou o torneio em paz. Antes da final, Mussolini voltou a enviar aos jogadores italianos o telegrama “Vencer ou morrer”, assim como em 1934. Depois da conquista, o capitão Giuseppe Meazza realizou a saudação fascista diante das tribunas francesas e ouviu fortes vaias do público presente.
O Mundial de 1938 acabaria por entrar para a história também como o último antes da Segunda Guerra Mundial, conflito que interromperia a competição durante 12 anos. Entre política, propaganda e futebol de alto nível, a Itália consolidou uma hegemonia que parecia inabalável naquele momento, algo muito distante no momento atual.
Nove décadas depois, a seleção tetracampeã do mundo tenta se reerguer após ficar fora de três edições do torneio, inclusive a deste ano: os italianos foram derrotados pela Bósnia nos pênaltis em março e perderam a chance de rumar aos EUA, Canadá e México. Faltam 16 dias para o arranque do Mundial de 2026.

