Se o Uruguai inaugurou o Mundial em clima de festa popular em 1930, a edição seguinte apresentou ao futebol uma atmosfera completamente diferente. Quatro anos depois da estreia em Montevidéu, o torneio desembarcou numa Itália mergulhada no fascismo de Benito Mussolini, que enxergava o desporto como ferramenta de propaganda política para o regime.A escolha italiana como sede aconteceu em 1932, durante congresso da FIFA em Estocolmo. A Suécia retirou a candidatura e abriu caminho para o país comandado por Mussolini, disposto a transformar o Mundial numa vitrine internacional da Itália fascista. Estádios foram construídos e remodelados, símbolos do regime espalharam-se pelas cidades-sede e o futebol passou a ocupar papel central na narrativa nacionalista italiana.Diferente da edição de 1930, o Mundial de 1934 teve eliminatórias e contou com 16 seleções classificadas. Foi também a primeira vez que o torneio aconteceu totalmente em formato mata-mata. O próprio país-sede precisou disputar qualificação - algo que nunca mais se repetiu na história da competição. Já o Uruguai, campeão quatro anos antes, recusou-se a participar em retaliação ao boicote de algumas seleções europeias no torneio disputado em Montevidéu..Dentro de campo, a Itália reuniu uma geração talentosa liderada por Giuseppe Meazza, um dos maiores nomes do futebol europeu na primeira metade do século XX. Sob comando do técnico Vittorio Pozzo, a “Squadra Azzurra” avançou até à final depois de eliminar Estados Unidos, Espanha e Áustria.Na decisão, disputada em Roma diante de Mussolini, os italianos venceram a Tchecoslováquia por 2-1 na prorrogação, com golo decisivo de Angelo Schiavio. Antes da partida, o ditador teria enviado aos jogadores um bilhete com uma frase que entrou para a história dos torneios: “Vitória ou morte”.O Mundial de 1934 também eternizou personagens como Matthias Sindelar, o craque austríaco apelidado de “O Homem de Papel”, e marcou a estreia do Egito, primeira seleção africana a disputar a competição.Mais de nove décadas depois, a conquista italiana de 1934 continua cercada por debates históricos, políticos e desportivos. Se aquele Mundial marcou o nascimento da glória italiana no futebol, o presente da “Azzurra” é bem diferente. Pela terceira vez consecutiva, a Itália ficou fora do Mundial, aumentou um jejum que já dura 12 anos sem disputar a principal competição de seleções do planeta e entrou numa crise sem precedentes para uma tetracampeã do mundo. Faltam 17 dias para o arranque do Mundial de 2026.nuno.tibirica@dn.pt.Gennaro Gattuso deixa comando da seleção italiana após falhar apuramento para o Mundial.Presidente da Federação Italiana de Futebol demite-se após falhar pela terceira vez um Mundial