Seleção uruguaia antes da partida contra a Jugoslávia, no Mundial de 1930.
Seleção uruguaia antes da partida contra a Jugoslávia, no Mundial de 1930.Foto: DR/FIFA

História dos Mundiais. Em 1930, Uruguai inaugurou o torneio com título em casa e brilho de ‘El Manco’

Bicampeã olímpica, Celeste confirmou favoritismo diante de quase 100 mil pessoas no Centenário e venceu a Argentina na primeira final do Mundial
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Entrar no Estádio Centenário, em Montevidéu, capital do Uruguai, leva o visitante a uma viagem pelo tempo. Entre corredores, arquibancadas e fotografias históricas, uma das paragens mais emblemáticas leva diretamente a 1930, ano em que o futebol mundial viveu um momento que mudou a história do desporto bretão: a realização do primeiro Mundial da FIFA.

Bicampeã olímpica em 1924 e 1928, algo que os uruguaios defendem até hoje equivaler-se a títulos mundiais, a seleção uruguaia já era considerada a maior potência do futebol naquele período. A FIFA, então presidida por Jules Rimet, escolheu o país sul-americano como sede tanto pelo peso desportivo da Celeste quanto pela celebração do centenário da independência uruguaia. O torneio reuniu apenas 13 seleções, sem eliminatórias, numa época em que viajar da Europa até à América do Sul significava uma hercúlea viagem em navios transatlânticos que poderia durar semanas. 

Dentro de casa, o Uruguai confirmou o favoritismo. Sob comando do técnico Alberto Suppici - até hoje o treinador mais jovem a conquistar um Mundial, aos 31 anos - a equipa venceu os quatro jogos que disputou, marcou 15 golos e sofreu apenas três. A caminhada começou com vitória por 1-0 sobre o Peru e ganhou força na goleada por 4-0 diante da Roménia, antes do histórico 6-1 sobre a Jugoslávia na meia-final.

Pôster Mundial 1930.
Pôster Mundial 1930. Foto: DR

A decisão colocou frente a frente as duas grandes forças do Rio da Prata: Uruguai e Argentina. No dia 30 de julho de 1930, cerca de 93 mil pessoas lotaram o Centenário para assistir à primeira final de um Mundial. Os argentinos chegaram a virar o jogo ainda no primeiro tempo e foram para o intervalo a vencer por 2-1. Mas a Celeste reagiu na etapa final com golos de Pedro Cea, Santos Iriarte e Héctor Castro, fechando a vitória por 4-2 e inaugurando a galeria de campeões mundiais.

O elenco uruguaio reunia nomes históricos como José Nasazzi, capitão da equipa, Héctor Scarone, conhecido como “El Mago”, e Héctor Castro, eternizado como “El Manco” por atuar mesmo depois de perder parte do braço direito num acidente na infância. Castro, inclusive, marcou o último golo da final e é um dos grandes destaques contemplados no museu do Estádio Centenário. 

Além do título uruguaio, o Mundial de 1930 deixou marcas e personagens que ficaram para a eternidade futebolística, como o francês Lucien Laurent, que marcou o primeiro golo da história dos Mundiais e a epopeia de Jules Rimet, que viajou ao Uruguai carregando o troféu na própria mala durante a travessia de navio entre Europa e América do Sul.

Quase um século depois da partida histórica, o Centenário segue como um dos principais monumentos do futebol latino-americano e poucas seleções carregam tanto simbolismo nos Mundiais quanto o Uruguai, país de Eduardo Galeano, um dos autores que melhor traduziu o futebol através da literatura. Em 2026, a Celeste volta a entrar em cena no Grupo H, onde terá pela frente Espanha, Cabo Verde e Arábia Saudita. Faltam 17 dias para o arranque do Mundial de 2026.

nuno.tibirica@dn.pt

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