Quando foi anunciado como novo treinador do Botafogo no dia 2 de abril, há pouco mais de um mês, o português Franclim Carvalho viu-se rodeado de desconfiança de adeptos do Fogão e da imprensa brasileira. Pouco experiente - tem apenas 39 anos e tinha no currículo apenas uma oportunidade como treinador principal na B SAD, em 2021/22 -, o mirandense era visto como uma aposta ousada da gestão de John Textor, proprietário da Eagle Football, grupo que, até há duas semanas, controlava o clube carioca.Cerca de 35 dias depois, não se pode dizer que o início de Franclim Carvalho seja mau em números, pelo contrário. A vitória sobre os argentinos do Racing Avellaneda, por 2-1, na última quarta-feira (6), garantiu ao Botafogo o apuramento antecipado na Copa Sul-Americana com duas jornadas ainda por disputar na fase de grupos e reforçou a sensação de que, mesmo longe de encantar, o português tem conseguido apresentar resultados.Os números positivos do treinador, que chegou ao Botafogo após ter sido adjunto de Artur Jorge no maior ano da história do clube carioca - em 2024, quando os alvinegros conquistaram a Copa Libertadores e o Brasileirão -, contrastam com o caos administrativo vivido pelo clube este ano. Hoje, o Botafogo é uma casa a arder e Franclim Carvalho tenta remar contra a maré num ambiente marcado pela crise financeira, disputa societária e incerteza sobre o futuro da SAF.O início da crise botafoguense começa com nome e sobrenome, como se diz no Brasil: John Textor. O empresário norte-americano, que por mais de uma vez tentou aproximar-se do Benfica no passado, foi afastado da administração da SAF por decisão do Tribunal Arbitral da Fundação Getúlio Vargas, num processo ligado à disputa entre a Eagle Football Holdings, a Eagle Bidco e credores do grupo. A decisão veio pouco depois de a SAF do Botafogo protocolar o pedido de recuperação judicial, num cenário em que a dívida total do clube foi estimada em cerca de 2,7 mil milhões de reais (cerca de 466 milhões de euros).Não é a primeira vez que o império de Textor azeda o caldo num clube. Na última época, o Lyon, também controlado pela Eagle, chegou a correr o risco de descer à segunda divisão francesa por questões financeiras, antes de conseguir reverter a situação. Agora, é o Botafogo que vive dias de incerteza, obrigado a equilibrar contas, lidar com credores e admitir a saída de jogadores importantes.Dentro de campo, o quarto treinador português da história recente do Botafogo - que além de Artur Jorge teve Luís Castro e Bruno Lage - tenta sobreviver nesse cenário complicado. E, até aqui, conseguiu em nove jogos, cinco vitórias, três empates e uma derrota. Além disso, o Botafogo avançou na Sul-Americana e manteve-se competitivo no Brasileirão, ainda que sem convencer plenamente. Por outro lado, o único desaire, frente ao Remo (1-2) em casa no último fim de semana, deixou claro que o desempenho ainda oscila e que parte da torcida continua desconfiada, sobretudo em partidas nas quais a equipa tem posse de bola mas pouca agressividade ofensiva. Foi assim que desperdiçou pontos em casa, nos empates com o Internacional e o Coritiba, ambos por 2-2. Ainda assim, seria injusto ignorar o contexto. Franclim assumiu uma equipa em transição, com perda de peças importantes e a necessidade permanente de vender jogadores para aliviar as contas. Alexander Barboza, um dos ídolos dos adeptos, já está encaminhado para o Palmeiras, enquanto Danilo, que está a ser o melhor jogador do Botafogo esta época e um dos nomes fortes do Brasileirão, deve deixar o clube depois do Mundial 2026. O médio ofensivo tem sido potencializado pelo treinador português e também já entrou no radar de Carlo Ancelotti para a seleção brasileira e é quase um nome certo para o Campeonato do Mundo organizado por EUA, Canadá e México.O maior problema nesta altura é fora dos relvados: a cada boa partida segue-se uma dúvida, a cada vitória aparece uma nova notícia de bastidores e a cada promessa de estabilidade surge uma nova urgência financeira. É difícil avaliar um treinador num clube em que o ambiente parece mudar todas as semanas.Franclim Carvalho, por sua vez, tenta afirmar-se como mais do que o antigo adjunto de Artur Jorge. A seu favor tem o conhecimento do plantel, a boa relação interna e a memória recente de ter participado na época mais vitoriosa da história do clube. Contra ele pesam a pouca experiência como treinador principal, a comparação inevitável com o antecessor português e a exigência de uma torcida que, depois de viver o céu em 2024, não aceita facilmente voltar à instabilidade.No meio de uma casa a arder, Franclim Carvalho vai fazendo o que, por agora, mais importa: ganhar tempo com resultados. O desempenho ainda não convence toda a gente, mas a classificação antecipada na Sul-Americana dá força ao treinador português. No Botafogo de 2026, entre dívidas, disputas societárias e vendas inevitáveis, este já é um começo mais do que razoável..Como o Flamengo se tornou o destino favorito dos treinadores portugueses no Brasil.Gabriel Bortoleto, o brasileiro que cresceu longe de casa para chegar à Fórmula 1