Bortoleto com o uniforme da Audi em Melbourne, na Austrália.
Bortoleto com o uniforme da Audi em Melbourne, na Austrália. Foto: gabrielbortoleto.com.br

Gabriel Bortoleto, o brasileiro que cresceu longe de casa para chegar à Fórmula 1

Aos 21 anos, piloto da Audi volta a disputar o Grande Prémio de Miami neste domingo (3) e tenta consolidar o início de trajetória na elite após títulos consecutivos na Fórmula 3 e Fórmula 2.
Publicado a
Atualizado a

Personalidade, ousadia dentro e fora do autódromo e confiança no que pode alcançar ao longo da carreira. Estas são algumas das características que, de acordo com quem acompanha Gabriel Bortoleto, definem o jovem piloto que, na última época, se tornou o primeiro brasileiro em sete anos a estrear-se na Fórmula 1.

“Existe uma diferença entre a idade cronológica e a experiência de vida. O Gabriel tem hoje 21 anos, mas saiu de casa muito cedo, ainda adolescente, para correr na Europa”, conta ao DN o jornalista Lito Cavalcanti, um dos maiores especialistas da F1 no Brasil. “Isso dá a ele uma vivência muito grande. Por isso, apesar de ter 21 anos, a experiência dele não é a experiência de alguém dessa idade”, complementa.

Atento à carreira de Bortoleto desde que o jovem começou na categoria júnior do kart, Lito viu de perto a transformação do menino de Osasco, na região metropolitana de São Paulo, num dos nomes mais promissores do automobilismo brasileiro. Filho de uma família ligada ao desporto motorizado, Gabriel começou cedo no automobilismo e ainda criança trocou o Brasil pela Europa.

Essa distância precoce de casa aparece, para quem o acompanha, como parte da explicação para a maturidade que o piloto demonstra no paddock. Entre os anos de kart e a chegada à Fórmula 1, Gabi, como é chamado, foi campeão da Fórmula 3 em 2023, pela Trident, logo no ano de estreia. Em 2024, repetiu o feito na Fórmula 2, com a Invicta Racing, antes de chegar ao grid principal.

A chegada à Fórmula 1, em 2025, primeiro pela Sauber e agora no projeto da Audi, devolveu ao Brasil uma presença fixa no grid depois de um longo intervalo desde Felipe Massa, último brasileiro titular antes da nova geração. Num país marcado por Ayrton Senna, Nelson Piquet, Emerson Fittipaldi, Rubens Barrichello e pelo próprio Massa, cada novo piloto brasileiro carrega uma expectativa que raramente é apenas desportiva.

Segundo o jornalista, essa responsabilidade sempre veio acompanhada de uma confiança muito presente no piloto. “Muitas vezes, quando ele ainda estava no kart, a gente conversava e ele falava: ‘quando eu chegar na Fórmula 1’, ‘quando eu estiver na Fórmula 1’. Ou seja, ele sempre teve essa certeza. Não de uma forma arrogante, mas de uma forma em que ele sabia que iria chegar lá".

Dentro da pista, Lito destaca outra característica: a inteligência. “Como piloto, ele tem uma capacidade muito grande de raciocinar enquanto dirige. Eu acho que ele é um piloto agressivo, mas não é aquele agressivo enlouquecido: toma os riscos necessários na hora em que eles oferecem possibilidade de resultado”, analisa.

A exceção, na memória de Lito, aconteceu no Grande Prémio de São Paulo de 2025, quando, diante do público da casa, Bortoleto tentou uma ultrapassagem considerada improvável na corrida sprint. “Bateu e bateu feio. Mas aí era uma condição diferente. Ele estava correndo pela primeira vez diante do público dele, sentiu uma pressão”, explica Lito.

Ao comparar Bortoleto com outros brasileiros que chegaram à Fórmula 1 nas últimas décadas, Lito prefere evitar rankings, mas há um ponto em que vê diferença: a forma como o jovem gere a própria carreira e o nível de compromisso com a equipa e com o projeto da Audi. “Ele está ligado a uma equipa de fábrica e equipa de fábrica sempre vai funcionar, porque tem todos os meios, todos os serviços, toda a tecnologia, um banco de dados inesgotável. É uma aposta que eu acho bastante segura”, afirma, ressaltando a dificuldade do desafio nesta época.

“É um ano de um regulamento inteiramente novo. E uma equipa que fabrica tudo em casa tem uma tarefa muito mais pesada”, explica. Por outro lado, Lito acredita que Bortoleto, a médio e longo prazo, tem credenciais fortes que o colocam como um dos mais promissores da categoria.

Você aponta nos dedos de uma mão quem teve um currículo como ele. Estou falando até chegar à Fórmula 1, porque depois não dá para comparar: cada um pega equipas e momentos muito diferentes. Mas o percurso até agora tem sido muito interessante”, diz, citando o sucesso de Oscar Piastri, Charles Leclerc e Lewis Hamilton em categorias inferiores.

No próximo domingo, 3 de maio, Bortoleto volta à pista no Grande Prémio de Miami. Para o Brasil, cada corrida ainda tem sabor de reencontro com uma tradição interrompida por um longo período. Para o piloto, é mais uma etapa de um caminho que, segundo quem o conhece desde menino, ele nunca tratou como hipótese.

“Eu não tenho dúvida de que ele pode ganhar corridas”, diz Lito. “Quanto a ser campeão, ele acredita nisso - e eu acho que todo piloto tem que ter essa certeza. A Fórmula 1 exige muita autoconfiança. Você vem a 330 km/h e precisa frear no limite, no ponto certo. Se hesitar, não faz. Então você precisa de uma confiança que supere até esses instintos. E é o que ele tem.”

Bortoleto com o uniforme da Audi em Melbourne, na Austrália.
João Fonseca, o “popstar” do ténis que o Brasil tenta não apressar
Bortoleto com o uniforme da Audi em Melbourne, na Austrália.
Como o Flamengo se tornou o destino favorito dos treinadores portugueses no Brasil
Diário de Notícias
www.dn.pt