Quando João Fonseca chegou ao Rio de Janeiro - cidade onde nasceu e começou a praticar ténis ainda criança - para disputar o Rio Open, há pouco mais de um mês, o cenário à sua volta já não era mais o de um prodígio em ascensão, mas o de um fenómeno do desporto brasileiro. Cerca de duas mil pessoas se espremeram nos arredores da quadra para acompanhar um simples treino, enquanto outras se penduravam em árvores do lado de fora do recinto na tentativa de ver de perto o novo nome do ténis brasileiro.“Parecia um popstar”, resume Fernando Nardini, jornalista da ESPN Brasil e um dos principais especialistas na modalidade. “Era o primeiro torneio dele depois de ficar entre os 25 melhores do mundo e ele próprio, ao ver aquilo tudo, disse: ‘não sabia que tinha virado isso’", nos conta Nardini, apresentador do podcast de ténis "New balls, please".A imagem dá a dimensão do momento da carreira - ainda que precoce - de João Fonseca. Aos 19 anos, o carioca tornou-se a maior promessa do ténis brasileiro desde Gustavo Kuerten e, mais do que isso, um dos nomes mais observados do circuito internacional.Campeão do US Open juvenil e antigo número um do ranking de juniores, o jovem rapidamente confirmou a expectativa ao dar o salto para o profissional: venceu um ATP 250 ainda aos 18 anos, conquistou um ATP 500 em Basileia em 2025 - feito inédito para um brasileiro na categoria - e, no mesmo ano, chegou ao 24.º lugar do ranking mundial, o terceiro melhor da história do país.Ainda assim, a comparação com Guga, que inevitavelmente surgiu nos primeiros meses de maior exposição, começa a ser vista com mais cautela por quem acompanha de perto o circuito. “As pessoas meio que desistiram dessa história de comparar com o Guga”, diz Nardini. “Inegavelmente, o João é um jogador de extremo potencial, mas cada atleta tem sua fase de maturação. Claro que pode ser um grande jogador. Mas novo Guga? Não sei. Para ser Top-1 o caminho é muito longo". Se para o especialista chegar ao topo ainda envolve uma jornada laboriosa, ganhar um Grand Slam no futuro breve não parece impossível, afinal, dentro de quadra, os argumentos são evidentes. Dono de um jogo agressivo e tecnicamente sólido, Fonseca chama atenção sobretudo pela capacidade de definir pontos com o forehand, segundo Nardini: "[O forehand] é muito forte, decisivo, já é das melhores bolas do circuito, de entre outras qualidades: para alguém de 19 anos, é impressionante como disputa 'pau a pau' com jogadores que estão (ou já estiveram) no top-10". Recentemente, em Indian Wells, um dos torneios mais importantes do calendário, Fonseca deu exemplos deste equilíbrio quando enfrentou adversários de topo e mostrou capacidade para competir de igual para igual. Nas oitavas de final, levou o número dois do mundo, Jannik Sinner, a dois tie-breaks, num duelo que terminou decidido nos detalhes e que reforçou a impressão de que o brasileiro já não sente o peso do cenário em que está.“Ele não se intimida, não baixa a cabeça e isso é muito importante, porque há jogadores que entram em quadra já respeitando demais o adversário. Ele não tem isso", diz, ressaltando que a maturidade precoce é um dos pontos que mais impressionam quem acompanha o seu desenvolvimento, muito pelo foco e estrutura ao seu redor. "Ele tem esse pacote completo - maturidade, talento, equipa bem montada, família que ajuda e uma ética de trabalho muito forte”, explica Nardini. “É um cara dedicado, trabalhador, não tem tempo ruim. E tem coragem. É 'carudo', como dizemos, é destemido." Embora mostre entusiasmo em relação ao futuro de Fonseca, Nardini também pede cautela: “Cada jogador tem o seu processo, e o João está no dele. Ele está a começar agora nos grandes torneios, tem muita coisa para evoluir. Ainda não está pronto”, reforça, ressaltando que a transição para o circuito principal, iniciada de forma mais consistente apenas na última temporada, ainda exige evolução física, maior regularidade e experiência em jogos de alto nível.Outro ponto que gera preocupação no especialista é que o crescimento meteórico também traz consigo o aumento exponencial da pressão: especialmente de fãs que, desde Guga - que despontou mais tarde que João, aos 21 anos - procuram uma nova referência no desporto.“O hype atrapalha muito mais do que ajuda e o brasileiro é carente de ídolos, exagera na dose: ano passado ele perdeu quatro seguidas e o pessoal estava querendo que trocasse o treinador, mas espera aí. Isso não é futebol, o ténis é algo completamente diferente". Para dar o exemplo de "um passo de cada vez" e não colocar Fonseca num patamar que ele ainda não chegou, Nardini dá o exemplo de Jannik Sinner: "Na época que o Sinner tinha 19 anos, a gente falava dele como um talento, mas não como o fenómeno que ele é hoje. O ténis é um processo. Não se pode pular etapas. Exagerar na dose pode moer o talento”.nuno.tibirica@dn.pt.Como o Flamengo se tornou o destino favorito dos treinadores portugueses no Brasil.Portugal deixa de ser escala obrigatória para promessas brasileiras