Pode parecer estranho aos ouvidos de quem só recentemente passou a ter olhos para o futebol brasileiro, mas o facto é que, até 2019, o século XXI estava longe de ser brilhante para o Flamengo, o novo clube do treinador português Leonardo Jardim. Hoje instituição com maior sucesso desportivo e financeiro no Brasil, o rubro-negro andava tímido no cenário nacional até então, com apenas três títulos de grande relevância em 19 anos - um campeonato brasileiro, em 2009, e duas taças do Brasil, em 2006 e 2013.À época, campanhas discretas no cenário continental e outras de meio de tabela no campeonato de pontos corridos despertavam angústia nos adeptos. O cenário começou a mudar com a reestruturação financeira conduzida pela direção do clube ao longo dos últimos 13 anos. O Flamengo não só equilibrou as contas e pagou dívidas históricas, como também passou a atingir outro patamar desportivo nas Américas.Não à toa vieram os títulos e, com eles, o interesse de fora do Brasil - especialmente de Portugal. Além de Leonardo Jardim, recém-chegado ao rubro-negro depois de ter orientado, também no Brasil, o Cruzeiro de Belo Horizonte, outros três treinadores lusos comandaram o emblema carioca nos últimos anos: Jorge Jesus, o de maior sucesso, Vítor Pereira e Paulo Sousa.A presença portuguesa no clube, aliás, não se limita ao banco de suplentes. No ano passado foi a vez de José Boto assumir o cargo de diretor desportivo do Mengão. A dimensão do Flamengo e o sucesso recente já fizeram o dirigente afirmar, mais de uma vez, que, apesar de estar na América, o clube funciona como se fosse um gigante europeu.Ora, apesar de o maior património que tem o Flamengo ser justamente o facto de ser brasileiro - símbolo do Rio de Janeiro e clube mais popular de um país com dimensões continentais - os últimos anos mostram que o clube passou, de facto, a ocupar um patamar acima dos demais na América do Sul.Para se ter uma ideia, em ranking anual divulgado pela consultoria britânica Deloitte em janeiro deste ano, o clube carioca apareceu na 29.ª posição, sendo o único fora da Europa a figurar entre os mais ricos do mundo. Entre os portugueses, apenas o Benfica - 19.º - aparece nesta faixa.A posição reflete-se também no mercado. Além de conseguir fisgar destaques de diferentes equipas brasileiras, o Flamengo passou a competir com a própria Europa por jogadores. Em 2025 foi buscar Samuel Lino ao Atlético de Madrid por valores na casa dos 22 milhões de euros e, este ano, foi ainda mais ousado ao tirar Lucas Paquetá do West Ham, em plena Premier League, por cerca de 45 milhões de euros.Mas o atrativo do Flamengo para profissionais estrangeiros não tem a ver apenas com dinheiro. Além de oferecer salários elevados, como fazem também outros clubes brasileiros financeiramente fortes, como o Palmeiras, o rubro-negro possui uma visibilidade rara. Pesquisa divulgada pela empresa de estudos de mercado Ipsos-Ipec em 2025 estimou que 21,2% dos brasileiros são adeptos do Flamengo - algo entre 42 e 45 milhões de pessoas, aproximadamente quatro vezes a população de Portugal.Parte importante dessa transformação passou também pelo aproveitamento do potencial popular. Durante o processo de reestruturação financeira - que virou até tema de estudos académicos, como a pesquisa de Pedro de Azevedo de Fonseca, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - o clube apostou fortemente em programas de sócio e na aproximação com os adeptos.A estratégia fez o Flamengo, no início do processo de recuperação financeira, quase quadruplicar a receita com associados em apenas um ano no início do processo de recuperação financeira. Desde então, o valor só cresceu, impulsionado também pelo sucesso desportivo recente, que colocou o clube não apenas entre os mais ricos do mundo, mas também entre os que possuem mais sócios.Naturalmente, essa dimensão tornou-se atrativa para treinadores como Jesus, Pereira, Sousa e, agora, Jardim. Aliás, em apenas uma semana no comando do clube carioca, o técnico português já começou a dar respostas positivas: conquistou o título carioca no último domingo e, na estreia no campeonato brasileiro, bateu o seu antigo clube Cruzeiro por 2 - 0."O maior das Américas", justificou Jardim, ao explicar sua escolha por treinar o clube durante a sua apresentação na última semana. Se mantiver a pedalada, a tendência é o Mengão galgar cada vez mais léguas não apenas a nível continental, mas também mundial.nuno.tibirica@dn.pt.Portugal deixa de ser escala obrigatória para promessas brasileiras.Leonardo Jardim honrado por treinar o Flamengo, o "maior das Américas"