Não é preciso viajar muito no tempo para lembrar de quando clubes portugueses eram sinónimo de craques brasileiros. Há cerca de 15 anos, David Luiz e Luisão comandavam a defesa benfiquista, com Ramires o motorzinho no meio de campo. No FC Porto, Danilo e Alex Sandro eram exemplos de regularidade numa equipa que tinha em Fernando um símbolo de dedicação e em Hulk, no ataque, a principal arma. Isso sem falar de Liedson, grande nome do Sporting em diversas temporadas - que o levaram inclusive à seleção portuguesa.No entanto, ao contrário do início dos anos 2010 – contrariando o histórico de décadas de um país que já teve craques como Carlos Mozer, Ricardo Gomes, Jardel, Branco, Aloísio, Deco ou Valdo – o futebol português já não importa tantas promessas do Brasil.Isso porque, hoje em dia, tornou-se cada vez mais comum jovens preferirem clubes médios ou pequenos da Premier League, por exemplo, em vez de fazer escala obrigatória em Portugal, que o digam alguns dos nomes mencionados no primeiro parágrafo.Além disso, o próprio futebol brasileiro mudou. Nos últimos anos, o Brasileirão passou por uma valorização significativa, impulsionada por novas fontes de investimento, pela transformação de clubes em Sociedades Anónimas de Futebol (SAF) e pela chegada de grupos económicos internacionais.Hoje, o campeonato reúne projetos ambiciosos como o Botafogo de John Textor, o Bahia do grupo City, além de Flamengo e Palmeiras, que se consolidaram como duas das equipas mais fortes do continente - capazes inclusive de bater de frente com clubes europeus, como foi visto no Mundial de Clubes no ano passado.Outros clubes tradicionais, como Cruzeiro e Vasco da Gama, também passaram por processos de reestruturação e investimento, resultando num campeonato cada vez mais competitivo - com elencos fortes e capacidade financeira para manter ou até repatriar grandes jogadores.Não por acaso, estrelas com passagem recente pela Europa começaram a olhar novamente para o Brasil. O caso mais simbólico talvez seja o de Memphis Depay, ainda titular da seleção dos Países Baixos, que trocou o futebol europeu pelo Corinthians. Mais recentemente, Lucas Paquetá regressou ao Flamengo vindo da Premier League por cerca de 45 milhões de euros, valor que ilustra a nova capacidade financeira de alguns clubes brasileiros, já superior à de clubes portugueses.A exposição constante a jogos de alto nível, aliada à proximidade com a seleção brasileira, faz com que atuar no Brasil deixe de ser visto como um passo atrás na carreira, algo que se traduz na diminuição da presença de brasileiros em Portugal.O Benfica, como já mostrou reportagem do DN no início da época, tem pela primeira vez em 41 anos um plantel sem brasileiros - embora tenha buscado Richard Ríos no Palmeiras por 27 milhões de euros, maior contratação de sua história. O valor pago pelo colombiano mostra como a fasquia está alta pelos lados do país tupiniquim.No Sporting, os dois principais atletas brasileiros do início da temporada já estavam em Portugal antes de chegarem a Alvalade - casos de Alisson e Matheus Reis - e já inclusive deixaram o clube. Para suprir a ausência do primeiro, os leões foram buscar Luís Guilherme, extremo que anos antes havia feito voo direto para Inglaterra, onde teve passagem frustrada pelo West Ham. Outro que preferiu um clube menos badalado na Terra do Rei Carlos III foi Kevin, hoje no Fulham, que negou proposta do Sporting no início da época para jogar na Premier League.No FC Porto está o único dos jogadores da liga portuguesa a já ter atuado pela seleção brasileira e que tenha imaginado Portugal como ponte para outros países: Pepê veio do Grêmio em 2021, aos 23 anos, mas acabou por ficar por cá até hoje. Os dragões ainda conseguiram, numa oportunidade de mercado rara, trazer William Gomes, um dos destaques da época.No entanto, esta negociação foi mais acaso do que regra, tendo em vista que o São Paulo, antigo clube de William, enfrenta uma grave crise financeira e promoveu um “saldão” nas categorias de base: cedeu os seus atletas a preço de banana, como se diz no Brasil. O episódio, entre outros fatores, acabou por culminar no impeachment do então presidente Júlio Casares no início deste ano.Exceções feitas ao extremo do FC Porto e outros casos, a recente dificuldade de trazer jovens promessas do Brasil para Portugal ficou evidente também no caso de Rayan, um dos nomes mais empolgantes a surgir no Vasco nos últimos anos. Sondado pelos dragões no início da época, o extremo viu o clube brasileiro recusar as investidas do clube do norte do país e acabou negociado com o Bournemouth, da Inglaterra, por 35 milhões de euros - valor impraticável em Portugal.Rayan seguiu o mesmo caminho que nomes promissores do futebol brasileiro têm tomado nos últimos anos. Se antes Benfica, Porto e Sporting - tirando propostas de gigantes da Europa - eram principais escolhas para desenvolver o futebol, a escolha hoje em dia, de clubes e jogadores brasileiros, são as cifras milionárias da Premier League, mesmo em equipas que lutam para não descer de divisão.Nos últimos anos foi assim com Alysson (Aston Villa), André, João Gomes e Pedro Lima (Wolverhampton), Jair, Murilo, John e Igor Jesus (Nottingham Forest), Gustavo Nunes (Brentford), João Pedro (Watford) e Gabriel Sara (Norwich). Isso sem contar os destinos habituais das maiores joias do país do futebol, como Real Madrid e Barcelona. Será este o começo do fim dos tempos em que os brasileiros brilham por aqui?nuno.tibirica@dn.pt.Brasileirão arrancou com novo calendário, investimento ao nível europeu e menos treinadores portugueses.Gabriel recorda "realização de um sonho" na Luz: "O tamanho do Benfica é uma coisa alucinante"