Em São PauloForam três épocas, 100 partidas e um título de campeão nacional que marcou a "reconquista". Gabriel Pires, o médio brasileiro que vestiu a camisola do Benfica entre 2018 e 2021, guarda a passagem pelo clube da Luz como a "realização de um sonho".Em entrevista ao DN no Brasil, onde defende agora as cores da Portuguesa, o jogador de 30 anos descreve o "mundo alucinante" do clube, elege um triunfo no Estádio do Dragão como o momento de virada da conquista sob Bruno Lage e aborda a saída, sem "mágoas". Faz ainda uma análise comparativa entre os campeonatos português e brasileiro e aponta Portugal como uma seleção "muito forte" para o próximo Mundial.De que forma recorda sua chegada ao Benfica em 2018? Foi a realização de um sonho. Depois de dois anos na primeira divisão espanhola, o Benfica apareceu e não teve mais para onde olhar. Cheguei no ano da reconquista, que era o objetivo. E também era a minha missão de jogar uma Champions... realizei esse sonho e conheci o mundo do Benfica, que é uma coisa alucinante, o tamanho do Benfica. Tudo que vivi ali foi uma proporção muito grande. Só olho para trás com muita alegria, muito orgulho. Ter conseguido marcar o meu nome na história com o título é muito gratificante.Algum jogo dessa primeira temporada, do campeonato ou da Champions, que guarda com carinho?Para mim, o que me marcou bastante foi no Estádio do Dragão [2-1 para o Benfica]. Os primeiros seis meses foram meio conturbados, ainda me adaptava. Rui Vitória saiu, veio o Bruno Lage do Benfica B com uma mentalidade absurda, que uniu o elenco. E jogo, para mim, foi emblemático com a nossa virada. Nesse jogo até fui eleito o melhor em campo, mesmo sendo expulso. É uma partida que os adeptos lembram bem, porque nessa expulsão houve um momento com o Otávio, com o Pepe... aquele calor do jogo. Graças a Deus, saímos com a vitória. Foi muito gratificante. E a festa, aquela onda vermelha do Benfica, linda.Naquele ano viu surgir João Félix. Como era e qual é o seu potencial?O Félix é incontestável. A qualidade dele sempre foi absurda. Nos treinos, via-se a facilidade de fazer uma coisa difícil parecer fácil. Lembro que quando cheguei a Lisboa, fui ver o Benfica B e eles estavam a pensar: "ele já está pronto ou não?". Ele fez um gol e decidiu a partida. Sempre demonstrou potencial muito acima da média. Acho que só depende dele, a carreira são escolhas. Ele tem um mercado muito aberto para o que quiser, porque é novo. Mas ali tínhamos peças muito boas: Seferović, Rafa Silva, um jogadoraço, Pizzi, Jonas... uma equipa muito boa.A sua saída foi conturbada? Ficou alguma mágoa?Não tenho mágoas. São coisas que acontecem no futebol. Claro que teve um desfecho que não me deixou claro o motivo para não ter minutos, ou pela própria saída, mas não guardo mágoa. Prefiro sempre ver as coisas positivas por onde passo. Fiz amigos ali que tenho contato até hoje. Quando volto lá, sempre fica aquela relação boa. O carinho com o clube eu sempre vou ter.Como compara o Brasileirão e a Liga Portuguesa? Qual é mais forte, em que aspetos?Aqui no Brasil eu acho o campeonato mais difícil. Partimos com muitos clubes candidatos ao título. Lá, mal ou bem, são sempre os três. A nível de parte tática, lá [Portugal] acho um pouco mais evoluído, mas aqui [Brasil], tecnicamente, para mim é bem melhor. Em relação aos campeonatos, em Portugal os clássicos são mais pesados. Quando vais jogar em casa ou fora contra o Porto ou o Sporting, sentes que é uma final. Lá vejo que o campeonato se decide mais nessas datas.Vê muita diferença entre treinadores portugueses e brasileiros? Quais foram os melhores que teve?Não gosto de rotular por nacionalidade. Tem pessoas boas em ambos os lados, acho que são características. Os treinadores bons que peguei, tanto brasileiros como portugueses, eram bons porque não focavam só na tática ou na técnica, pensavam de forma global. O Bruno Lage para mim foi muito especial. O Asier Garitano, na Espanha, também. E Jorge o Jesus, taticamente, para mim é o melhor, sem dúvida e, no Brasil, o Fernando Diniz. Acho que ele e o Jesus na tática são fora da curva. O que o levou à Portuguesa neste momento da carreira?Foi exatamente o projeto da 'Lusa' e o timing. Eu tinha acabado o contrato na Grécia e estava à espera de algo interessante. A Portuguesa apareceu com este projeto da SAF, de reformulação, com um início em novembro, que me permitia uma pré-temporada completa. Juntou-se o que eu queria com um projeto interessante. Foi isso que me fez vir.E os objetivos a curto e médio prazo?O projeto da SAF é uma reformulação do clube, muito parecido com o que vivi no Botafogo. A nível de estrutura, leva o seu tempo. Desportivamente, é pensar no dia a dia, no trabalho semanal, para construir uma ideia que perdure, um projeto. Para já, estamos focados no Paulistão, começamos muito bem e pensando sempre no próximo jogo.Sente-se realizado com a carreira que fez até agora?Muito. Tudo que pedi a Deus, ele me deu, e muito mais. Olho para trás e vejo uma trajetória muito boa, não só de futebol, mas também de cultura, de aprender muita coisa em cada lugar que passei. Isso agrega muito, faz a gente crescer internamente.Em ano de Mundial, vê alguma seleção mais bem preparada? Entre Brasil e Portugal?Vejo Portugal muito forte. Nos últimos anos víamos muito o Cristiano Ronaldo num nível absurdo e agora vemo-lo numa fase diferente, e com a base da seleção mais encorpada, mais coesa, ele é a cereja do bolo. Mas o Brasil, para mim, é sempre o favorito, independentemente do momento: temos um peso muito grande. E a minha torcida é que tudo corra bem, que possamos apresentar o nosso futebol alegre e ousado e dar essa alegria ao povo. Tem muito tempo que a gente não festeja todo mundo junto sem pensar em mais nada..Inspirada em clubes europeus, Portuguesa tenta ressurgir no Brasil .Portuguesa de Desportos lança equipamento inspirado na Batalha de Aljubarrota