Fim das 'bets' leva clubes brasileiros a discutir até paralisação do campeonato
Uma semana depois de o Governo brasileiro anunciar o fim das casas de apostas online no país, a revolta dos clubes chegou ao ponto de colocar em discussão uma medida extrema: a paralisação do Campeonato Brasileiro. A hipótese foi debatida por alguns dos principais clubes da Série A em resposta à proibição anunciada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que ameaça retirar milhões de euros dos cofres das equipas.
A escalada acontece depois de a reunião entre representantes dos clubes e do Governo, prevista para terça-feira (29) e antecipada pelo DN no início da semana, ter acabado por não acontecer em meio ao risco de boicote das próprias equipas. Agora, os clubes pressionam por uma mudança de rumo e pedem, pelo menos, um período de transição antes do fim definitivo das apostas online.
O argumento é que, durante os últimos anos, contratos, salários e investimentos foram assumidos com receitas das bets já incluídas nos orçamentos, e o desaparecimento praticamente imediato deste dinheiro comprometeria não apenas a época atual, mas também compromissos assumidos para 2027.
Segundo levantamento da consultoria Convocados citado pela Folha de S. Paulo, as casas de apostas investiram cerca de R$ 1,03 mil milhões (€176 milhões) em patrocínios aos clubes da Série A em 2025. No Flamengo, atualmente o clube de maior faturação e sucesso desportivo no país, o presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, calcula que o impacto da proibição possa chegar aos R$ 400 milhões (€68 milhões) por ano.
Ao falar sobre as consequências para o planeamento do rubro-negro, o dirigente recorreu à contratação mais cara da história do futebol brasileiro. "Como vou pagar o [Lucas] Paquetá em janeiro?", questionou.
A escolha do médio adiciona uma camada quase irónica à discussão, afinal, Paquetá passou dois anos no centro de uma investigação sobre apostas no futebol inglês, acusado de receber cartões deliberadamente para beneficiar apostadores - foi ilibado das acusações de manipulação, mas considerado culpado por não colaborar com a investigação.
Bap também argumentou que o fim das bets pode provocar um enfraquecimento do futebol brasileiro justamente num momento em que os clubes do país voltaram a competir financeiramente com mercados do exterior. No caso do Flamengo, a preocupação é especialmente compreensível: o clube gastou pesado nas últimas janelas e transformou-se numa das equipas mais poderosas fora do futebol europeu.
Há, no entanto, o outro lado desta queda de braço que, evidentemente, não cabe apenas nas contas dos clubes. Segundo dados divulgados pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda e citados pela Agência Brasil, as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 mil milhões (€10,7 mil milhões) para as bets em 2025, considerando a diferença entre o dinheiro apostado e o devolvido em prémios.
Especialistas ouvidos pela agência alertam ainda para os efeitos do vício em jogos na saúde mental, com relatos de pacientes que perderam património, acumularam dívidas e chegaram aos serviços de saúde com quadros graves de ansiedade e depressão. Em alguns dos casos mais extremos, profissionais relatam pensamentos de morte e ideação suicida associados aos prejuízos financeiros provocados pelo jogo.
Foi com este argumento que o Governo justificou uma decisão que atingiu em cheio uma das maiores fontes de dinheiro do futebol brasileiro. A medida provisória assinada por Lula impede novos depósitos nas plataformas e determina a retirada dos sites do ar, além de ser acompanhada por um programa de renegociação de dívidas para famílias endividadas com apostas.
Lula também respondeu diretamente à revolta dos clubes. "Os melhores momentos da história do futebol brasileiro, não existia a bets", afirmou o presidente, ao defender que a medida não significará o fim do futebol no país. Dias antes, durante a campanha, já havia respondido às pressões de Flamengo e Corinthians lembrando os títulos mundiais conquistados pelos clubes antes da chegada das casas de apostas.
A discussão pode chegar também do outro lado do Atlântico. Em Portugal, 15 dos 18 clubes da I Liga entraram em campo nesta temporada com marcas de apostas nas camisolas, segundo levantamento publicado pelo Expresso. Sporting e FC Porto levam a Betano no espaço principal do equipamento, enquanto a mesma marca aparece na manga do Benfica. E não fica por aí: assim como no Brasil, as apostas estão até no nome das competições - Liga Portugal Betclic, Liga 3 Placard e Supertaça Cândido de Oliveira Placard.
Da mesma forma, o crescimento do dinheiro das apostas caminha ao lado do aumento dos problemas provocados pelo jogo. Em Portugal, a procura por tratamento para a dependência cresceu cerca de 118% em apenas dois anos, sobretudo entre pessoas dos 15 aos 35 anos, e levou à abertura, em junho, da primeira estrutura pública dedicada ao tratamento de adultos viciados em jogos a dinheiro.
Se a decisão brasileira vai ou não enfraquecer um futebol que voltou a competir financeiramente com mercados europeus, o tempo dirá. Por enquanto, a revolta dos clubes serve pelo menos para mostrar o tamanho do espaço que as casas de apostas conquistaram no futebol, seja por cá, seja por lá.

