Duarte Gomes, ex-diretor técnico de arbitragem, com Luciano Gonçalves, presidente do conselho de arbitragem
Duarte Gomes, ex-diretor técnico de arbitragem, com Luciano Gonçalves, presidente do conselho de arbitragemMIGUEL A. LOPES/LUSA

Guerra na arbitragem da FPF acaba no Ministério Público. Clubes pedem explicações e CJ abre inquérito

Em causa a demissão de Duarte Gomes que terá perdido a confiança em Luciano Gonçalves, presidente do Conselho de Arbitragem, por suspeitas de alegada ingerência nas nomeações, segundo o jornal Record.
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A Federação Portuguesa de Futebol (FPF) informou esta quarta-feira, 1 de julho, que remeteu para o Ministério Público (MP) os factos relacionados com os "motivos alegados" por Duarte Gomes, ex-diretor técnico de arbitragem, "para a demissão do cargo que desempenhava". O antigo árbitro internacional explicou, em comunicado, que, após receber informações, realizou diligências e concluiu "que não era possível restaurar o grau de confiança institucional que considerava essencial ao desempenho" das funções.

A saída de Duarte Gomes estará relacionada com o facto de ter perdido a confiança em Luciano Gonçalves, presidente do Conselho de Arbitragem, por suspeitas de alegada ingerência nas nomeações dos árbitros para o futebol profissional, segundo avança o Record.

De acordo com o jornal desportivo, Duarte Gomes alegou perda de confiança no presidente do Conselho de Arbitragem num email dirigido aos elementos do órgão e, como consequência, Luciano Gonçalves fez uma participação formal ao Conselho de Justiça e apresentou uma queixa-crime contra o ex-diretor técnico de arbitragem.  

"Tendo tomado conhecimento no dia 26 de junho de 2026, passada sexta-feira, da participação formal enviada pelo Presidente do Conselho de Arbitragem ao Conselho de Justiça, sobre os motivos alegados pelo ex-Diretor Técnico de Arbitragem para a demissão do cargo que desempenhava, os Presidentes dos Órgãos Sociais da Federação Portuguesa de Futebol (Direção, Mesa da Assembleia Geral, Conselho de Justiça e Conselho de Disciplina) remeteram de imediato os factos relatados para o Ministério Público", lê-se no comunicado da FPF.

O organismo adianta que o Conselho de Justiça vai reunir-se esta quarta-feira para "analisar a participação disciplinar remetida pelo presidente do Conselho de Arbitragem".

"Respeitando sempre o princípio estatutariamente previsto de autonomia e independência dos órgãos individualmente eleitos, os Presidentes da Direção, da Mesa da Assembleia Geral, do Conselho de Justiça, do Conselho de Disciplina e do Conselho Fiscal aguardam as conclusões das diligências a serem efetuadas pelas entidades competentes, com a celeridade que a matéria exige", refere a FPF.

Antigo árbitro internacional, Duarte Gomes apresentou a demissão na passada sexta-feira (26 de junho) de diretor técnico de arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol, cargo que desempenhava desde julho de 2025.

Benfica e FC Porto pedem explicações à FPF

Perante a polémica demissão na arbitragem nacional, Benfica e FC Porto já vieram pedir explicações à FPF.

O clube da Luz fez saber que solicitou, esta manhã, "uma reunião de emergência com a direção da Federação Portuguesa de Futebol para exigir esclarecimentos completos e garantias de que a arbitragem portuguesa não continuará sujeita a pressões, condicionamentos ou influências que colocam em causa a verdade desportiva".

"O Sport Lisboa e Benfica encara com extrema gravidade as informações tornadas públicas sobre a saída de Duarte Gomes da arbitragem, motivadas por interferências incompatíveis com a independência que deve reger um setor absolutamente essencial para a credibilidade das competições", lê-se no comunicado das águias.

O FC Porto admitiu acompanhar com "profunda preocupação e consternação os factos recentemente tornados públicos relativamente ao setor da arbitragem e à saída de Duarte Gomes do cargo de Diretor Técnico Nacional de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol, bem como a informação de que o processo terá sido remetido para o Ministério Público".

O clube dirigido por André Villas-Boas exige ao presidente da FPF, Pedro Proença, "uma ponderação profunda sobre o estado da arbitragem em Portugal, e aguarda que o presidente do Conselho de Arbitragem, Luciano Gonçalves, "preste, com a maior urgência, todos os esclarecimentos devidos sobre os factos agora conhecidos". "A credibilidade das competições exige respostas claras, instituições fortes e uma arbitragem acima de qualquer suspeita", defendem os dragões, em nota divulgada no site do clube.

Comunicado de Duarte Gomes

Após a FPF anunciar que remeteu para o MP os factos relacionados com os "motivos alegados" pelo ex-diretor técnico de arbitragem para deixar o cargo, Duarte Gomes emitiu um comunicado a explicar os passos que o levaram a tomar a decisão.

"No final da época passada, um árbitro de futebol profissional partilhou comigo um conjunto de informações que, pelo seu teor e sensibilidade, suscitaram-me preocupações institucionais muito relevantes", revelou, na nota, indicando que, como consequência, decidiu levar a cabo "diligências" para "esclarecer internamente toda a situação".

"Após o decurso dessas diligências, concluí que não era possível restaurar o grau de confiança institucional que considerava essencial ao desempenho do meu cargo", explicou Duarte Gomes, para logo afirmar: "Por essa razão e entendendo que a minha continuidade em funções seria incompatível com os princípios e valores que sempre pautaram a minha vida, tomei a decisão de me demitir".

Veja aqui na íntegra o comunicado de Duarte Gomes:

"Na sequência de notícias hoje tornadas públicas a propósito da minha demissão das funções de Diretor Técnico Nacional de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol, entendo ser meu dever prestar os seguintes esclarecimentos:

1. No final da época passada, um árbitro de futebol profissional partilhou comigo um conjunto de informações que, pelo seu teor e sensibilidade, suscitaram-me preocupações institucionais muito relevantes.

2. Perante esse conhecimento, entendi ser meu dever institucional proceder às diligências que considerei adequadas e que foram conduzidas com reserva, neutralidade e transparência.

3. O objetivo dessa iniciativa foi esclarecer internamente toda a situação e aferir se se encontravam reunidas as condições de tranquilidade indispensáveis ao normal exercício das minhas funções.

4. Após o decurso dessas diligências, concluí que não era possível restaurar o grau de confiança institucional que considerava essencial ao desempenho do meu cargo.

5. Por essa razão e entendendo que a minha continuidade em funções seria incompatível com os princípios e valores que sempre pautaram a minha vida, tomei a decisão de me demitir.

6. A formalização dessa decisão e dos respetivos fundamentos, foi efetuada em circuito restrito e exclusivamente institucional, de forma reservada, através de correio eletrónico dirigido ao Sr. Presidente do Conselho de Arbitragem, com conhecimento aos restantes membros daquele órgão.

7. Em nenhum momento coloquei em causa a honra, o bom nome ou a reputação de qualquer pessoa, instituição ou membro dos órgãos sociais da Federação Portuguesa de Futebol ou do Conselho de Arbitragem.

8. Nunca tornei públicos nomes, factos concretos ou circunstâncias específicas relacionadas com esta matéria.

9 - Se for esse o caso, estarei totalmente disponível para prestar todos os esclarecimentos adicionais que me forem solicitados pelas entidades competentes, relativamente aos factos de que tomei conhecimento e aos motivos que determinaram a minha renúncia".

CJ instaura processo de inquérito para avaliar atuação de Luciano Gonçalves

O Conselho de Justiça (CJ) da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) instaurou um processo de inquérito para apurar "eventual prática de infração disciplinar por parte de Luciano Gonçalves", presidente do Conselho de Arbitragem (CA).

Em comunicado, o CJ esclarece que a deliberação surge na sequência do envio, por parte de Luciano Gonçalves, de "uma participação disciplinar sobre os motivos alegados pelo ex-Diretor Técnico de Arbitragem [Duarte Gomes] para a demissão do cargo que desempenhava".

O comunicado do Conselho de Justiça

"Foi enviada pelo Presidente do Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), Luciano Gonçalves, para o Presidente do Conselho de Justiça da FPF uma participação disciplinar sobre os motivos alegados pelo ex-Diretor Técnico de Arbitragem para a demissão do cargo que desempenhava.
Compete ao Conselho de Justiça da FPF o exercício do poder disciplinar sobre os titulares dos órgãos sociais da FPF, pelos atos praticados no exercício da sua função de dirigentes.
Atendendo ao teor da participação, em reunião realizada em 01/07/2026, o Conselho de Justiça da FPF deliberou instaurar um processo de inquérito, com correspondência material ao processo de averiguações, para apuramento de eventual prática de infração disciplinar por parte de Luciano Gonçalves.
1 de julho de 2026
Luís Verde Sousa
(Presidente do Conselho de Justiça)"

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