Neemias Queta está a viver, na época 2025/2026, o período de maior consistência da sua carreira na NBA e a transformar essa regularidade num sinal claro de afirmação competitiva ao serviço dos Boston Celtics. O poste português, de 26 anos, já não surge apenas como uma curiosidade histórica por ter sido o primeiro jogador nascido em Portugal a chegar à principal liga de basquetebol do mundo. Nesta fase, o dado mais relevante é outro: Neemias tornou-se uma solução credível, útil e cada vez mais estável numa das equipas mais exigentes e fortes da Conferência Este, depois de um trajeto inicial feito de espera, adaptação e luta por espaço. Os números de Neemias nesta época confirmam isso: é o melhor ressaltador da equipa (583), o segundo que mais bloqueios faz ao adversário (88), o quarto melhor marcado (694 pontos) e o quinto com mais minutos jogados (1768), participando em 70 dos 75 jogos dos Celtics na fase regular (na maior parte das vezes integrado no 5 inicial), equipa que segue no segundo lugar da Conferência Este com 50 vitórias. Depois de primeiros anos marcados por contratos “two-way”, viagens constantes entre a NBA e a G League e uma utilização irregular, sobretudo na fase em que esteve ligado aos Sacramento Kings, Neemias encontrou finalmente uma plataforma de estabilidade competitiva nos Celtics. A assinatura de um contrato garantido com Boston em 2024 foi um passo essencial, porque lhe deu a base que até então lhe tinha faltado: continuidade, enquadramento técnico e uma oportunidade real para crescer dentro de um plantel de topo. A partir daí, passou a integrar de forma mais consistente a rotação interior da equipa orientada por Joe Mazzulla, afirmando-se pelo que melhor sabe fazer: presença física no garrafão, proteção do aro, capacidade de finalizar perto do cesto e leitura eficaz das missões que lhe são atribuídas. Carlos Barroca, que trabalhou na NBA durante os últimos 10 anos, resume esse crescimento com uma ideia central: o rendimento atual de Neemias não é fruto do acaso, mas sim da convergência entre talento, preparação e momento certo. “Deve-se às qualidades humanas, às qualidades atléticas, às qualidades basquetebolísticas e à oportunidade”, afirma. Barroca entende que essa combinação aconteceu da forma certa. Houve oportunidade, mas houve sobretudo capacidade para a agarrar. “Ele tem agarrado as oportunidades, com unhas e dentes”, diz ainda, descrevendo um jogador que não desperdiçou a abertura competitiva que lhe surgiu em Boston. Essa leitura é reforçada por Mário Gomes, selecionador nacional de basquetebol, que também separa pouco o jogador da pessoa. Para o selecionador nacional, falar de Neemias enquanto atleta implica necessariamente falar do seu caráter, da sua mentalidade e da maneira como enfrenta a carreira. “É indissociável falarmos de uma coisa e de outra”, afirma, antes de explicar que, para estar na NBA, o talento é obrigatório, mas não é suficiente. Segundo o treinador, o que distingue Queta é a forma como junta ao talento outras qualidades raras: “alia ao talento as questões da personalidade dele, da mentalidade”. E concretiza ainda mais essa ideia ao destacar duas características que considera decisivas: “ambição” e “humildade”. Na sua perspetiva, Neemias é ambicioso porque tem objetivos claros e não se afasta deles; e é humilde porque não esquece o caminho que fez e sabe que nada se conquista sem trabalho. Ao longo da temporada 2025/2026, Neemias somou alguns dos melhores jogos da sua carreira na NBA, incluindo exibições com duplos-duplos e partidas em que respondeu de forma segura quando foi chamado a ter maior relevância, nomeadamente em contextos de rotação mais aberta ou de ausência de outros jogadores interiores. O dado mais importante não é apenas estatístico. O mais importante é a confirmação de que já não aparece apenas como solução de emergência. Os desempenhos recentes ajudaram a consolidar a ideia de que passou a integrar com maior naturalidade a estrutura competitiva dos Celtics, oferecendo minutos de qualidade, energia e fiabilidade em ambos os lados do campo. No plano defensivo, a sua evolução é particularmente evidente. Neemias continua a tirar partido da envergadura, da capacidade de ocupar espaço e da leitura posicional, aspetos que já chamavam a atenção na universidade, em Utah State, antes da entrada na NBA. A proteção do aro, a contestação de lançamentos e o trabalho no ressalto defensivo continuam a ser dimensões centrais do seu impacto. Mas o crescimento não se resume àquilo que é mais óbvio num poste com a sua dimensão física. A melhor utilização dos tempos de ajuda, a maior disciplina tática e a forma como encaixa nas necessidades específicas da equipa permitiram-lhe tornar-se mais valioso dentro do modelo de Boston. Carlos Barroca chama a atenção para detalhes que nem sempre aparecem nas estatísticas, mas que ajudam a explicar a confiança crescente do jogador. “Ele corre pelo campo fora mais do que os bases, mais rápido do que os jogadores mais rápidos da outra equipa”, afirma, usando essa imagem para explicar o nível atlético e o estado de confiança em que Neemias se encontra. E acrescenta: “São as pequenas coisas que dizem que é: confidence builds confidence.” A ideia, no fundo, é simples: um jogador que começa a sentir-se seguro no que faz ganha ainda mais segurança para fazer bem outras coisas. “Ele neste momento não tem medo de nada, não tem medo de ninguém.” No ataque, Neemias tem beneficiado claramente da dinâmica coletiva dos Celtics. Numa equipa que concentra muita atenção defensiva em jogadores como Jayson Tatum e Jaylen Brown, o poste português surge muitas vezes como finalizador ideal em situações de bloqueio direto, cortes para o cesto e aproveitamento de ressaltos ofensivos. A sua percentagem de lançamento de campo mantém-se elevada precisamente porque seleciona bem os lançamentos e joga muito em função do que a equipa pede. Barroca desenvolve precisamente esse ponto e considera que Neemias encaixa de forma muito interessante na mecânica ofensiva dos Celtics. O treinador explica que, numa equipa que lê bem os bloqueios e que tem vários atiradores de elite, o trabalho do poste é decisivo. “Como ele é o jogador que faz mais bloqueios aos excelentes atiradores que eles têm, e depois os adversários têm que ajustar sobre os atiradores, ele, inteligentemente, abre para o cesto da maneira perfeita”, afirma. A continuação da jogada, segundo a mesma análise, torna-se então particularmente difícil de travar: “Perto do cesto, está imparável.” Mário Gomes introduz aqui uma perspetiva complementar e muito relevante: a experiência na seleção portuguesa ajudou o jogador a perceber que podia fazer mais coisas dentro do jogo. O selecionador lembra que, enquanto na NBA Neemias era sobretudo um “role player”, na equipa nacional teve outrompapel. “Na seleção era um protagonista”, diz, acrescentando que esse papel foi desempenhado “de uma forma excecional”. Para o treinador, esse contexto teve efeitos concretos: Boston percebeu que o jogador podia oferecer mais. “Uma coisa é saber que pode fazer, outra coisa é ter a prática”, resume Mário Gomes.O impacto dessa maturidade não se mede apenas nos lances mais visíveis. Mede-se também na forma como o jogador lida com a pressão, com a gestão do estatuto e com o lugar que ocupa no grupo. Mário Gomes é muito claro nesse ponto. Para ele, apesar do mediatismo crescente, Neemias continua a ser “muito treinável” e “fácil de trabalhar”. O selecionador usa até uma imagem forte para explicar essa continuidade de caráter: “É exatamente o mesmo Neemias da seleção de sub-18.” Segundo o treinador, Queta não se coloca acima de ninguém, nem no treino, nem fora dele, nem no ambiente de balneário.Carlos Barroca vai no mesmo sentido quando fala da personalidade do jogador fora do lado estritamente competitivo. “Ele sabe que isto está a mudar a vida dele. Já mudou a vida dele”, afirma. Ao mesmo tempo, Barroca destaca a humanidade do poste português e o modo como é visto pelos que o rodeiam. Diz que é “um querido para toda a gente” nos Celtics e na comunidade portuguesa da região de Boston, e considera mesmo que a alcunha de “bom gigante” lhe assenta “como uma luva”. A razão, explica, está na forma afetuosa como trata os outros, incluindo crianças e adversários, e na ideia de que a dimensão física nunca se traduz numa postura agressiva gratuita ou descontrolada. Esse lado humano ajuda também a compreender o simbolismo que Neemias Queta ganhou no desporto português. Nascido em Lisboa, em 1999, filho de pais oriundos da Guiné-Bissau, começou a jogar basquetebol relativamente tarde quando comparado com muitos atletas da NBA. Ainda assim, destacou-se rapidamente pela dimensão física, pela margem de progressão e pela capacidade de aprender. A ida para os Estados Unidos e a passagem por Utah State University foram etapas decisivas num percurso que culminou com a escolha no draft de 2021, marco histórico que o transformou no primeiro jogador nascido em Portugal a entrar na NBA. Mário Gomes sublinha precisamente que o trajeto do jogador ajuda a explicar porque é que a sua afirmação atual não deve ser vista como surpresa. “Quando chegasse o dia da oportunidade, ele ia estar preparado para agarrar”, afirma. Na visão do selecionador, a diferença esteve sempre aí: na resistência mental e na capacidade de manter o foco mesmo durante os anos em que as oportunidades eram escassas e o espaço parecia incerto. É isso que, para Gomes, o torna especial. Também Carlos Barroca insiste na ideia de que o valor de Neemias não se mede apenas pelo número de pontos marcados. “Às vezes nem é preciso marcar muitos pontos para ser influente”, diz, numa observação especialmente relevante para ler o papel do poste português nos Celtics. Numa equipa com várias referências ofensivas, há jogadores chamados a resolver e há jogadores chamados a criar as condições para que a equipa funcione melhor. Barroca lembra que Neemias “joga os minutos que o treinador acha que deve jogar” e que, dentro desses minutos, “é absolutamente eficiente”. Há ainda outro ponto importante na análise de Mário Gomes: a noção de que o futuro de Neemias depende de fatores coletivos, mas de que, do lado individual, a preparação está feita. “No que depender dele, está preparado para dar passos em frente. No caso concreto de Boston, essa possibilidade torna-se ainda mais interessante porque Neemias parece ter encontrado um contexto em que as suas qualidades fazem sentido. Barroca diz mesmo que ele é “a peça perfeita para a forma como a equipa está a jogar”. .Neemias Queta volta a brilhar e ajuda Boston Celtics a garantir apuramento para o play-off da NBA.Neemias Queta brilha pelos Celtics com duas jogadas fantásticas (veja os vídeos)