Há 50 anos conquistou o seu primeiro grande título mundial. Quando olha para esse momento, sente que essa conquista acabou por ficar esquecida por causa do ouro olímpico em Los Angeles?Não. O meu primeiro grande título foi o meu aparecimento no atletismo. Quando ninguém esperava — nem eu próprio tinha certezas sobre aquilo que poderia vir a ser o meu futuro — começou ali uma caminhada que mudou tudo. Esse primeiro título foi importante, claro, mas houve algo ainda mais importante: aquilo que os meus pais me deram para a vida. Sem eles, eu não existia. Sem eles, também não existia o atleta. Mas aquele título mundial foi o princípio de uma nova esperança para o atletismo português. Foi um momento muito importante para o país e para o desporto.Teve consciência, nessa altura, de que alguma coisa podia mudar?Tinha essa noção, embora não falasse muito sobre isso. Nunca fui uma pessoa de grandes proclamações. Sempre fui reservado e muito concentrado no meu trabalho. Até chegar ali houve um percurso muito duro, muito exigente, mas também feito de respeito, de crença e de muito trabalho. Tive um grande treinador, boas condições dentro do possível e pessoas que acreditaram no atletismo. Acima de tudo, eu acreditava muito naquilo que queria para mim e para a modalidade.Esse percurso de mais de 50 anos fez de si uma pessoa diferente? O rapaz que saiu da sua terra, perto de Viseu, para o Sporting mudou muito?Não mudou nada de essencial. Fui sempre uma pessoa muito própria, com objetivos bem definidos, com regras e com sentido de responsabilidade. Naturalmente, as pessoas mudam com a vida, mas os meus princípios nunca mudaram. Sempre tive consciência de que tinha de trabalhar para sobreviver, de que queria construir família e de que tinha responsabilidades. Nunca quis ser dependente de ninguém. A minha filosofia de vida foi sempre muito clara: trabalhar, respeitar e acreditar.Recentemente, Carlos Lopes disse que, nessa prova de há 50 anos, ao fim da primeira volta já sabia que ia ganhar. Como é que alguém percebe tão cedo que vai vencer?Experiência. Observação. Concentração. Eu era muito observador. Enquanto corria, analisava tudo: a forma como os adversários subiam, desciam, respiravam, reagiam ao esforço. Dava-me uma perceção muito clara do que podia acontecer. Foram muitos anos de aprendizagem. Entre 1966 e 1976 passaram dez anos de trabalho muito duro. Competi em Espanha, em quase toda a Europa. Isso deu-me experiência. Ao fim da primeira volta percebi que tinha a corrida controlada. Via a forma como os outros estavam a correr e pensei: “Hoje isto vai correr bem.”Ainda hoje se lembra dessa corrida com detalhe?Lembro-me de tudo. Tinha uma memória extraordinária. Costumo dizer que tinha um “computadorzinho” aqui dentro. Criava imagens e guardava-as. Lembro-me da véspera, de analisar o percurso, de perceber onde podia fazer a diferença. E no próprio dia, depois da primeira volta, percebi que aquilo podia ser um passeio controlado. Quando acelerei e olhei para o lado, vi que eles começaram a ficar para trás. A partir daí pensei: “Agora já não me apanham.” E nunca mais apanharam..Em 1976 Portugal ainda estava a viver os primeiros tempos depois da Revolução. Acha que o país percebeu logo a importância desse título?Percebeu imediatamente. Nós, portugueses, temos muito disso: passamos do oito ao oitenta. Quando não há resultados, ninguém acredita. Quando aparecem, de repente há uma enorme expectativa. Mas o país não tinha cultura de alto rendimento. Não havia estrutura, não havia formação, não havia conhecimento do que significava competir ao mais alto nível. Quando chegaram os Jogos Olímpicos de Montreal, muita gente achava que eu tinha obrigação de ganhar. Mas as pessoas não percebiam a realidade. Nós éramos amadores. Os outros eram profissionais.Está a falar, por exemplo, de Lasse Virén?Claro. Eu tinha estado nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, e percebi como ele treinava, como trabalhava. Era um profissional autêntico. Nós não éramos. Querer exigir o mesmo resultado a um atleta português, num país sem condições, era não perceber a realidade do desporto nacional naquela altura. Mas eu sabia aquilo que valia.E aí entra Moniz Pereira. Que importância teve?Fundamental. Era um homem extraordinário, com um enorme sentido de responsabilidade, muito sentido de humor e uma capacidade muito especial para motivar. Nunca colocava em causa o valor dos atletas nem do desporto português. Fazia-nos acreditar. Mas também era muito inteligente a gerir pessoas. Hoje fala-se muito de treino individualizado. O professor Moniz Pereira tinha dezenas de atletas e sabia exatamente como lidar com cada um. Quem precisava de mais apoio, quem precisava de mais exigência. Isso é inteligência.Lembra-se da primeira vez que falaram?Lembro. Foi num corta-mato de preparação de juniores para os Campeonatos do Mundo de Rabat. Ele era selecionador. Começou a dar-me algumas orientações, a dizer-me para ter paciência, porque nada era fácil. E foi tudo muito natural. Nunca houve grandes discursos nem promessas. As coisas foram acontecendo.Era muito exigente consigo?Eu era mais exigente comigo do que ele. Sempre fui muito autónomo. Muito consciente das minhas responsabilidades. Nunca precisei que me controlassem demasiado. Sabia aquilo que queria. E ele respeitava isso.Quando saiu da sua terra para Lisboa, ainda muito jovem, foi difícil?Foi. A primeira vez que chorei verdadeiramente foi quando percebi que estava a sair de debaixo da saia da minha mãe, no melhor sentido da expressão. Estava a sair do ambiente onde tinha sido feliz. Tive uma infância muito feliz. Sempre fui uma pessoa feliz porque fiz aquilo de que gostava. Mas, claro, sair de casa custa.Como reagiram os seus pais quando decidiu vir para o Sporting?O meu pai reagiu relativamente bem. A minha mãe custou mais. E isso também me custou a mim. Mas rapidamente percebi uma coisa: se tinha aceitado vir, era porque havia qualquer coisa dentro de mim que me dizia que tinha de dar esse passo. Disse a mim próprio: “Agora vais e não voltas como um falhado.”Sofreu com a solidão?Nos primeiros tempos, sim. Mas vou dizer-lhe uma coisa: o que mais me custou não foi Lisboa, não foi o atletismo, não foi a exigência do treino. Foi a comida da minha mãe. Isso é que me dava a volta à cabeça..Tem fama de ser um bom garfo. É verdade?Sempre fui [risos]. Sempre gostei de comer bem e continuo a gostar. As minhas origens são aquelas e os meus princípios nunca mudaram. Quando casei com a minha mulher, há mais de 50 anos, perguntei-lhe logo: “Sabes cozinhar?” Disse-me que não. E eu respondi: “Então aprende, senão não caso.” Aprendeu muito bem. A alimentação sempre foi importante para mim.Há histórias quase lendárias de que, antes de grandes provas, conseguia comer pratos pesados, como uma feijoada ou um cozido à portuguesa. É verdade?Não é totalmente verdade, mas também não é mentira. Nunca fui obcecado com restrições extremas. Comia aquilo de que gostava e aquilo a que estava habituado. Uma boa feijoada, um bom bife, um bom bacalhau dava-me prazer. E esse prazer também fazia parte da minha vida. Nunca senti que isso interferisse negativamente com aquilo que fazia. O desporto deu-me muitas alegrias, mas eu também nunca quis deixar de viver normalmente.Mas era um atleta obcecado? Os grandes campeões muitas vezes são vistos dessa forma.Obcecado não. Crente. Eu ganhava provas e continuava insatisfeito. Nunca estava totalmente satisfeito. Queria sempre mais. Mas isso não é obsessão. É querer melhorar. Também só fui muito bom porque tive adversários muito bons. Porque tive uma grande escola. Porque tive o melhor treinador. Nada aconteceu por acaso.Quem o via correr tinha a sensação de que tudo parecia fácil. Nunca havia nervosismo antes de uma prova?Claro que havia responsabilidade. Mas medo ou nervosismo excessivo, não. Porque eu trabalhava para aquilo acontecer. Sabia quem eram os meus adversários. Sabia como treinavam. Sabia como corriam. Eu estudava tudo. Tinha uma memória extraordinária e preparava-me para os cenários todos. Quando chegava ao momento da prova, estava preparado.Vamos então a Los Angeles, 1984. Quando entra no estádio olímpico, depois da maratona, já percebe a dimensão do que acabara de fazer?Homem feliz. Homem absolutamente convicto. Era o sonho realizado. Eu sabia exatamente aquilo que tinha acabado de fazer. Quando entrei no estádio, via tudo. O público, o ambiente, a emoção. As pessoas pensam que um atleta vai tão focado que já não vê nada à volta. Eu via tudo. Sempre fui muito observador e soube sempre gerir muito bem as emoções. Mas, acima de tudo, naquele momento pensei: “Este é o meu. Ninguém mo tira.”Foi aí que percebeu que tinha acabado de fazer história para Portugal?Tinha essa consciência. Era algo inédito para o país. Também senti muito que estava a concretizar um sonho do professor Moniz Pereira: Portugal ter um campeão olímpico. Foi um momento muito forte.Correr 42 quilómetros não é exatamente uma coisa simples. Há momentos de quebra numa maratona. Momentos em que a cabeça tem de puxar pelo corpo.Para mim, aquela maratona foi das provas mais simples da minha vida. Porque ela começou a ser preparada dois anos e meio antes. Nada aconteceu por acaso. Era a última oportunidade que tinha de ser campeão olímpico e eu preparei tudo ao milímetro. Cheguei a Los Angeles com o peso exato que queria ter. Ajustei tudo: alimentação, hidratação, temperatura, humidade, percurso. Tudo. Nesse ano fiz 12 mil quilómetros de treino.Doze mil quilómetros num ano?Sim. Tudo estava pensado. Até os abastecimentos durante a corrida. O líquido, os momentos certos para beber, a estratégia. A minha mulher ajudava-me muito. Era ela quem me apoiava em vários momentos da preparação. Eu sabia exatamente o que tinha de fazer.Ou seja, não foi inspiração. Foi método.Foi convicção. Eu preparei-me para correr a determinado ritmo. Sabia como queria gerir a corrida. Até aos 37 quilómetros fui inteligente. Corri atrás do meu principal adversário, sem gastar energia desnecessária. E sabia uma coisa: os últimos cinco quilómetros tinham de ser meus. Quem decidia era eu. Foi isso que aconteceu. O meu objetivo era terminar a carreira como campeão olímpico. Era isso que queria. E consegui..Depois de Los Angeles, tornou-se ainda mais conhecido. Já era uma figura pública, mas passou a ser o primeiro campeão olímpico português. Foi fácil lidar com a fama?Para mim foi sempre fácil. Nunca fugi da realidade e nunca fugi das pessoas. Sempre fui uma pessoa muito frontal e muito consciente daquilo que fazia. Sabia quem era, sabia aquilo que tinha conquistado, mas nunca me achei mais do que ninguém.Nem em termos familiares isso pesou?Não. Porque a minha vida continuou a ser muito simples. Nunca abdiquei dos meus princípios nem daquilo que eu era. Sempre fui uma pessoa de família. Não gosto de excessos. Nunca gostei de discotecas, dessas coisas. Se queria estar bem, estava em casa. Sempre fui muito estável e procurei estabilidade para a minha família.Mas para chegar a esse nível não teve de abdicar de muita coisa?Claro que sim. Há sempre coisas de que se abdica. Não sair, descansar quando os outros estão a divertir-se, ter disciplina. Mas eu fazia isso com prazer. Não sentia que estivesse a perder alguma coisa. Estava a investir em mim e naquilo em que acreditava.O atletismo português mudou muito. O fundo e o meio-fundo perderam protagonismo, mas surgiram atletas nas disciplinas técnicas e na velocidade. Como olha para essa evolução?Primeiro, há uma coisa que convém dizer: os meus tempos ainda hoje são atuais. Isso quer dizer que eu estava muito à frente do meu tempo. Depois, o atletismo mudou muito. Nas disciplinas técnicas houve investimento durante anos e agora começam a surgir resultados. Os treinadores são mais especializados, mais exigentes e estão mais próximos da realidade internacional. Mas no fundo e meio-fundo perderam-se coisas.O que se perdeu?Perdeu-se continuidade. Começaram a desaparecer determinadas provas e determinados contextos de competição, especialmente nos 5.000 e nos 10.000 metros. Ao mesmo tempo, apareceram as maratonas comerciais e muitos atletas começaram a dispersar-se. Os clubes deixaram de investir da mesma forma na formação. Quando isso acontece, perde-se quantidade e depois perde-se qualidade. É um processo natural. Mas talento continua a existir em Portugal. Sempre existiu.O profissionalismo alterou a relação entre atletas e treinadores?Muito. Hoje cada treinador quase tem um atleta. O professor Moniz Pereira tinha dezenas. Tinha de perceber quem precisava de mais exigência, quem precisava de mais apoio, quem precisava de mais confiança. Hoje há demasiado medo de perder atletas. Porque tudo vale dinheiro. E isso às vezes prejudica o treinador e prejudica o atleta.Não é contra o profissionalismo?Não. Sou a favor do profissionalismo. Mas com respeito mútuo. Hoje há demasiada informação e, às vezes, demasiada confusão. Os atletas passam a vida a olhar para o telefone, a ver treinos dos outros, métodos dos outros. Isso, para mim, não diz grande coisa. O importante é perceber o atleta que se tem à frente..Sente que já recebeu as homenagens que merece? Ou ainda falta reconhecer mais o que fez pelo país?Nunca vivi para ser herói nem para ser monumento. As homenagens são bem-vindas quando fizer sentido. Mas aquilo que eu gostava verdadeiramente é que o desporto fosse visto como algo essencial. Não apenas para a saúde física, mas para a saúde mental. O desporto abre horizontes. Dá-nos disciplina, convivência, respeito. Ajuda-nos a crescer enquanto pessoas. Se a minha história puder servir para isso, já valeu a pena.Tem saudades de correr?Não. Juro que não [risos]. Sou uma pessoa de convicções. Quando acabou, acabou. Há um princípio e há um fim. Nunca mais senti necessidade de voltar. Faço caminhadas, subo e desço escadas, mantenho-me ativo, mas correr competitivamente ficou para trás.E os netos? Incentiva-os ao desporto?Tal como fiz com os meus filhos, nunca impus nada. Posso aconselhar, ajudar, incentivar. Mas impor, nunca. As pessoas têm de escolher o seu caminho.Se fosse governante, o que faria primeiro para melhorar o desporto português?Infraestruturas. Sem dúvida. Depois, melhores condições para os técnicos e mais dignidade para quem trabalha no desporto. O desporto merece respeito. Às vezes ainda não é levado suficientemente a sério neste país. E isso incomoda-me. Porque o desporto é uma das melhores ferramentas de formação que existe.Uma última pergunta: quem é, para si, o melhor atleta de todos os tempos?É difícil responder. Aprendi com muitos atletas extraordinários. Gostei de muitos.Nunca lhe passou pela cabeça responder: Carlos Lopes?Não [sorri]. Fui apenas mais um entre muitos grandes atletas do mundo..Carlos Lopes homenageado em Lisboa recorda percurso marcado por sacrifício e determinação.Carlos Lopes homenageado 50 anos depois: “Ao fim da primeira volta já sabia que ia ganhar”