Quando ainda nem sabia que viria a ser escritor, Rui Cardoso Martins ouviu António Lobo Antunes tratá-lo dessa forma pela primeira vez. A memória foi lembrada pelo autor ao DN após a morte do romancista português na manhã desta quinta-feira (5), a quem diz dever um dos incentivos mais marcantes do início da sua carreira.“Eu conheci-o nas circunstâncias mais felizes para alguém que nem sequer sabia que era escritor”, contou. “A primeira vez que falávamos, ainda sem nos termos sido apresentados, ele dirigiu-se a mim e disse: ‘olá, escritor’. Foi o primeiro a usar essa palavra e, portanto, deu-me essa responsabilidade", recordou. Para o escritor, Lobo Antunes transmitia também uma ideia muito clara sobre a relação com a tradição literária. “Ensinou-me uma coisa importante, que eu também tento passar aos meus estudantes: conhece os mestres, imita os mestres, combate os mestres”, recordou, acrescentando que sempre manteve “uma grande admiração” pelo autor, que revelou ter sido a segunda pessoa a ter lido seu primeiro livro, E se eu gostasse muito de morrer: "Devo-lhe, assim, muito diretamente, um grande incentivo". Na memória de Cardoso Martins fica também a complexidade da personalidade do escritor. “Era um homem extraordinário, com um projeto de contradições, muito afetuoso, às vezes muito distante”, disse, lembrando conversas e momentos de trabalho partilhados à mesma mesa enquanto Lobo Antunes escrevia. O autor sublinhou ainda a dimensão literária da obra do romancista, reconhecida internacionalmente. “Ele tinha uma qualidade literária superior, que se revelava em frases espantosamente simples". Entre as memórias que guarda, destacou uma história que o próprio Lobo Antunes contou sobre o momento em que decidiu dedicar-se à escrita, quando ainda era médico. Depois de assistir à morte de uma criança com cancro, o escritor terá visto “um pezinho a abanar fora do lençol” e decidiu que escreveria “para aquele pé”, um relato que, para Cardoso Martins, revela bem a dimensão humana e literária da obra do autor."Ele tinha estas qualidades que são muito sérias para a verdadeira literatura, que é capaz de facto de comover, de nos tirar de um ponto e colocar-nos no outro, e toda a sua obra é isto: é múltipla, tem muitas fases, tem tudo, o que é necessário a um, digamos assim, à portuguesa, um grande artista", concluiu..António Lobo Antunes (1942-2026): O escritor dos livros insones.Manuel S. Fonseca: “Imagino António Lobo Antunes ao lado de Marcel Proust, James Joyce ou Jorge Luis Borges”