António Lobo Antunes
António Lobo Antunes Foto: Paulo Spranger

António Lobo Antunes (1942-2026): O escritor dos livros insones

Autor de 32 romances e vários livros de crónicas, António Lobo Antunes foi um dos autores portugueses mais traduzidos no mundo e um eterno candidato ao Nobel, que nunca ganhou. Morreu aos 83 anos.
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O último livro que completou, O Tamanho do Mundo, está cheio de móveis que estalam à noite. Não porque o escritor tivesse enveredado, ao trigésimo romance, pela novela gótica, mas porque, nos mundos íntimos que criava, ou convocava, nada conseguia ser mais assustador do que a vida de todos os dias, expressa nos gestos repetidos milhares de vez : “A solidão mede-se pelos estalos dos móveis à noite, quando a poltrona em que me sento de súbito desconfortável, enorme, e os objetos aumentam nos napperons, inclinados para mim, a escutarem (…)”

Lobo Antunes regressava, assim, a um tema que há muito o assombrava: A solidão, em particular a que acompanha a velhice, quando as perdas se avolumam num rol demasiado doloroso. “[...] A velhice não é roubarem-nos o futuro, é terem-nos roubado o passado, até a voz dos meus pais levaram, porém isto que diga continua a acontecer [...]”, escrevia já em Da Natureza dos Deuses, publicado em 2015.

Para ele, a escrita, ou o desejo dela, esteve sempre lá, desde menino, como confessou em entrevista a João Céu e Silva (DN, 2017): “O que me interessava desde que me conheço era escrever. Quando comecei com seis anos não tinha vivido nada e quando vi um cadáver pela primeira vez foi uma surpresa. “ Nascido em Lisboa (no bairro de Benfica, onde hoje está a biblioteca municipal que tem o seu nome), a 1 de Setembro de 1942, António era o filho mais velho de João Alfredo Lobo Antunes, neurologista e assistente do único Nobel da Medicina português, Egas Moniz, e de Margarida de Almeida Lima. 

Numa entrevista ao jornal espanhol El País, datada de 2019, o escritor contava: “Em casa dos meus pais havia muitos livros; com cinco ou seis anos, levantava-me de noite para fazer chichi, estava tudo escuro, mas via nas paredes que os livros maus dormiam e que os bons, como Os Irmãos Karamazov, de Dostoievski, tinham os olhos abertos: era a insónia dos bons livros; e eu disse a mim mesmo ‘vou fazer livros com insónia.” A par do fascínio pelos livros, surgia o gosto pelas histórias do seu bairro, na altura distante do centro de Lisboa. Como as que nasciam da observação das idas e vindas das operárias da vizinha Fábrica Simões ou do amor ao Sport Lisboa e Benfica, a ponto de ter declarado publicamente que o “seu sonho era ser o José Águas da Literatura.”

Foram nascendo os irmãos, todos eles rapazes: João, Manuel, Nuno, Miguel, Pedro e neste pequeno mundo, que o escritor haveria de evocar em tantos escritos, romances ou crónicas, brilhava como referência de afeto e colo a figura do avô paterno: “O dia de Santo António era o dos anos da pessoa mais importante da minha infância, por conseguinte da minha vida. Ainda hoje, quando estou aflito ou preocupado, é com ele que converso, ainda hoje não passo uma semana sem que o lembre, sem que nitidamente o vejo, as mãos, o sorriso, o olhar, a voz. Era monárquico, católico, conservador, salazarista, Achava o facto de eu escrever uma mariquice pegada.” (Em Segundo livro de Crónicas). Foi esse mesmo avô, que, em promessa, o devotou à proteção de Santo António, quando ainda bebé, o rapaz foi acometido de meningite. A sua infância seria, aliás, marcada pela doença, já que, aos três anos, teve uma infecção tuberculosa que o atiraria para a cama durante muitos meses.

Essa casa de rapazes não seria, aliás, a melhor escola de afetos, como o próprio António reconheceria várias vezes: “Nunca tivemos tempo, não é, uns para os outros, e agora é tarde, estupidamente tarde, ficamos assim a olhar-nos, ausentes, estrangeiros, cheios de mãos supérfluas sem bolsos para ancorar, à procura, na cabeça vazia das palavras de ternura que não soubemos aprender, dos gestos de amor de que nos envergonhamos, da intimidade que nos apavora.” (em Explicação dos Pássaros).

António Lobo Antunes
António Lobo AntunesFoto: Bruno Simões Castanheira

A entrada na vida adulta seria marcada pelos estudos de Psiquiatria (área da Medicina que lhe parecia mais próxima da Literatura com que sonhava) e pela experiência da Guerra Colonial, vivida em Angola, entre 1971 e 1973, como médico de uma companhia do exército português. Destes dois anos, vividos longe da família e de tudo o que conhecera até então, nasceriam algumas das suas principais obras literárias. Assim aconteceu com o primeiro, Memória de Elefante, publicado em 1979, graças às diligências do seu grande amigo, o psiquiatra Daniel Sampaio, que levou o manuscrito à Bertrand. Tendo esta recusado, o volume foi encaminhado para a Vega, que logo em seguida publicaria Os Cus de Judas. O sucesso foi imediato. Numa grande entrevista publicada em duas partes no vespertino Diário Popular, António apresentava-se como “um anarquista moderado. Uma espécie de Orson Welles suíço.”

Mais tarde,  Maria José e Joana Lobo Antunes, filhas do primeiro casamento do escritor, com a mãe delas, Maria José Fonseca e Costa, reuniram a correspondência trocada entre ambos enquanto o pai esteve em Angola no volume D'este viver aqui neste papel descripto: Cartas da guerra. Em 2016, o realizador Ivo Ferreira adaptá-las-ia ao cinema.

Ao longo da década de 1980, o escritor consolidou-se como subversor das convenções narrativas, quer do ponto de vista temático quer formal, o que culminaria com o sucesso de Auto dos Danados, editado em 1985, obra distinguida com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Pelas suas páginas passava também o retrato cruel do país pré e pós-revolucionário. Para a densidade desta treva viva contribui ainda a consciência, presente em vários livros, da injustiça social. Na já referida entrevista ao El Pais, o escritor afirmava: “O povo português é muito pobre; só agora, com a democracia, vive um pouco melhor; as diferenças sociais eram muito marcantes e em pequeno não entendia: as famílias com muito dinheiro viviam juntas, sobretudo em Cascais, e assim se protegiam; só falavam entre si; eu pertencia mais ou menos a uma, mas os meus avós tinham uma mansão em Benfica, um bairro pobre de Lisboa, e era tudo estranho, vivia entre dois mundos: ia à igreja e o padre levantava-se para mim, quando eu não passava de uma criança.” Um tema que ressurge, embora de forma oblíqua, no seu derradeiro livro, O Tamanho do Mundo: “[...] A filha da madrinha tão diferente da minha família porque também são esquisitos os ricos, o senhor afinal tímido, quase sem falar comigo, quando muito suspendia o garfo ao jantar, a olhar-me […].”

Na edição dos prémios União Latina de 2003, o escritor foi distinguido com o prémio de Literatura pelo conjunto da sua obra, que foi definida pelo presidente do júri como "a voz mais expressiva" da realidade portuguesa. Em reconhecimento do seu valor, foi também galardoado com o Jerusalem Prize 2004.

Nesse mesmo ano, pelo seu livro Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo (2003), foi galardoado com o prémio Fernando Namora. Ainda no mesmo ano lançou um novo livro, intitulado Eu Hei de Amar uma Pedra, apresentado durante a comemoração dos seus 25 anos de carreira no Teatro São Luiz, em Lisboa.

Jorge Sampaio entrega premio literário Fernando Namora a António Lobo Antunes, em 2005.
Jorge Sampaio entrega premio literário Fernando Namora a António Lobo Antunes, em 2005.Foto: César Santos

No dia da cerimónia de entrega do prémio Fernando Namora (2004), a 25 de janeiro de 2005, Lobo Antunes foi condecorado pelo Presidente da República, Jorge Sampaio, com a Grã-Cruz da Ordem de Santiago, a mais importante condecoração portuguesa atribuída às áreas de letras, artes e ciências.

Ainda no mesmo ano, em fevereiro, foi homenageado com o Jerusalem Prize 2005, pelo conjunto da sua obra. Receberia ainda o Prémio Ibero-Americano de Letras José Donoso (Chile, 2006), o Prémio Camões, o mais importante em língua portuguesa (2007) e, em 2008, os prémios Terenci Moix (Espanha) e FIL de Literatura/Juan Rulfo, um dos mais importantes do panorama literário latino-americano.

Desde 2016, é sócio correspondente da Classe de Letras da Academia de Ciências de Lisboa e, em 2018, a Bibliothèque de la Pléiade anunciou a publicação da sua obra, sendo o segundo escritor português, depois de Fernando Pessoa, a integrar a coleção.

Faltou-lhe o Nobel? Em entrevista ao DN (7/10/1988), o próprio dizia que não:  “Estou farto de ouvir falar do Nobel, é apenas um prémio literário em que as últimas pessoas que o têm ganho não me agradam. Se formos ver, os vencedores dos últimos anos não interessam. Estou a ser totalmente sincero, pois acho que se dá excessiva importância a isto [...] O que posso pedir mais? Não consigo entender um prémio como a glorificação em relação a uma literatura de um determinado país – e eu já ganhei tantos! –, porque se eu contasse os bastidores de alguns nada tinham que ver com literatura. Estou tão ocupado a escrever... Não tem importância, sou melhor do que o Platão...”. No entanto, na mesma entrevista não deixava de admitir: “Houve uma altura em que estava bastante sedento disso, estava enraivecido, mas há uns tempos em que estou em paz...” 

Harold Bloom (o influente crítico e ensaísta norte-americano, autor de O Cânone Ocidental) considerava-o “um dos escritores vivos que mais importará no futuro”. Para este reconhecimento contribuiu também o conhecimento da literatura mundial que Lobo Antunes sempre demonstrou, com uma preferência assumida pelos clássicos russos, como Dostoievski ou Tolstoi (recomendava frequentemente uma obra breve deste último, A Morte de Ivan Ilitch), mas não só. No La Repubblica, o escritor e jornalista italiano Antonio Gnoli chegou a admitir que começara a ler o mexicano Juan Rulfo (autor de Pedro Paramo) justamente a conselho de Lobo Antunes. 

Para a lenda que envolve o escritor contribuem também declarações frequentemente desconcertantes, como aquelas em que se mostrou pouco entusiasta de Fernando Pessoa: “O livro do não sei o quê (referindo-se a O Livro do Desassossego) aborrece-me até à morte. A poesia do heterónimo Álvaro de Campos é uma cópia de Walt Whitman; a de Ricardo Reis, de Virgílio. Eu pergunto- me se um homem que nunca f... pode ser um bom poeta.” Ou aquelas em que, numa entrevista ao El País, afirmou (coincidindo um pouco com a posição do seu arquirrival José Saramago): “Não consigo descobrir muitas diferenças entre a gente da península, somos a mesma coisa, temos a mesma maneira de reagir, embora se coma melhor na Catalunha do que em Portugal. É uma pena que não sejamos o mesmo país, todos os ibéricos. Filipe II de Espanha e I de Portugal tinha todo o direito de ser nosso rei, era neto do monarca legítimo.” E acrescentava que o “grande amor” da sua infância foi uma criada galega que trabalhara para os pais. 

Com uma obra invulgarmente extensa e um ritmo de publicação correspondente, Lobo Antunes nunca escondeu o esforço que põe em cada obra. Na já citada entrevista ao El País disse: “Terminar um livro é muito duro, é assinar os papéis para o divórcio, fica um vazio muito grande, deixas de ouvir as vozes que te acompanharam durante muito tempo. É a única maneira que um homem tem de se sentir grávido. Há que dedicar-lhe muito esforço e tens medo que nasça um monstro, gostarias sempre que o teu filho fosse o mais bonito e o mais inteligente. Procuro esquecer os livros já escritos. É como acontece com as mulheres que amamos: temos de esquecer as anteriores em favor da atual. “

Não era um homem de muitos amigos, como admitia. A grande excepção foi outro escritor, bastante mais velho, José Cardoso Pires, como a viúva deste contou a Tereza Coelho, autora da Fotobiografia de Lobo Antunes: “O António às vezes falava com o Zé como se estivesse a pensar em voz alta, como se estivesse a falar com ele próprio. Penso que se falavam todos os dias.” No Segundo Livro de Crónicas, contava: “A minha vida não foi certamente feliz, mas deu-me, sem que o merecessem, alguns encontros miraculosos: com José Cardoso Pires, com Daniel Sampaio, com Nelson de Matos, com Mariane Eyre e Ernesto Melo Antunes.”

No mais, não alimentava uma vida social, que abandonara por amor à Literatura: “Não vou a jantares. Estou sempre com os livros. Claro que posso viver com uma pessoa, mas não vou ao cinema e não estou com amigos. Tudo foi reduzido drasticamente: aceitação de convites, sessões de autógrafos cada vez menos, só vou dar mais uma entrevista à RTP por causa deste livro. E penso que é tudo. E não há lançamentos, não há nada. Vivo muito só, mas não me sinto sozinho, porque estou a fazer aquilo que quero e porque preciso de tempo” (DN, entrevista de 2.10.2011). Sobretudo não alimentava convívios de escritores e admitia que os seus autores portugueses favoritos eram Fernão Lopes, Matias Aires e alguns do século XVIII. 

Foto: Global Imagens

Nas últimas décadas, a sua obra literária tem vindo a ser abordada por estudiosos de todo o mundo, nas mais diversas línguas, dentro e fora das universidades. Em português, a sua bibliografia passiva inclui uma extensa lista de títulos, em que se destacam Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, (2002); Os Romances de António Lobo Antunes, de Maria Alzira Seixo, (2002) A Escrita e o Mundo em António Lobo Antunes - Actas do Colóquio Internacional da Universidade de Évora, (2003),  Fotobiografia, por Tereza Coelho, (2004) Dicionário da Obra de António Lobo Antunes, 2 volumes, por Maria Alzira Seixo, Graça Abreu, Eunice Cabral, Maria Fernanda Afonso, Sérgio Guimarães de Sousa e Agripina Carriço Vieira, (2008); Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes, por João Céu e Silva, (2009); A Crítica na Imprensa 1980-2010 - Cada Um Voa Como Quer, edição de Ana Paula Arnaut, (2011)  ou Representações da Guerra Colonial em António Lobo Antunes, por Norberto do V,ale Cardoso.

Aos livros, aos prémios, à consagração global haverá sempre quem acrescente, ou oponha, um episódio que lhe confirme a proverbial arrogância. Ou um certo desprezo pelos seus pares. Realidade? Ou apenas parte da construção de uma persona para consumo do público? Numa entrevista ao DN (2/10/2011), António Lobo Antunes chegou a revelar a humildade com que abordava a escrita: “Tenho sempre medo de desiludir as pessoas e, sobretudo, de me desiludir a mim mesmo.”

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