Foto: Elena Ternovaja
Festival de Berlim (2023): João Canijo com o seu Urso de Prata pelo filme 'Mal Viver'.

João Canijo: Um legado cinematográfico sempre seduzido pelo teatro

Autor de títulos emblemáticos como 'Sangue do Meu Sangue' ou o díptico 'Viver Mal/Mal Viver', João Canijo deixa uma obra plural que nunca foi estranha à sedução do teatro e também ao gosto documental.
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Falecido no dia 29 de janeiro, contava 68 anos, João Canijo deixa um legado de filmes que, de forma verdadeiramente original, pontuam as últimas quatro décadas do cinema português.

Mantendo uma relação constante com os valores da representação, bem expresso no cuidado investimento no trabalho dos seus intérpretes, Canijo foi também, por isso mesmo, um autor sensível às relações do cinema com elementos de natureza teatral. Tinha, aliás, concluído um filme intitulado Encenação, que se anuncia, precisamente, como o retrato de um encenador de teatro, interpretado por Miguel Guilherme — segundo uma nota de imprensa divulgada na altura da rodagem, em agosto de 2025, pela Midas Filmes, produtora do filme, a personagem central “prepara uma nova peça, confrontado com a idade e o relacionamento com as suas atrizes”.

Sangue do Meu Sangue (2011), um drama familiar dominado pelas personagens femininas — também um fresco social sobre os modos de vida numa zona suburbana da grande Lisboa —, poderá ser tomado como símbolo exemplar das lógicas criativas da obra de Canijo. Desde logo porque nele encontramos, nos papéis principais, algumas das atrizes que pontuam toda a sua filmografia: Rita Blanco, Anabela Moreira e Cleia Almeida; depois, porque se trata de um projeto que, em paralelo, gerou Trabalho de Atriz, Trabalho de Ator, uma “variação” documental focada na relação de trabalho entre os intérpretes de Sangue do Meu Sangue e o realizador.

Aliás, encontramos na trajetória de Canijo vários documentários que são também um reflexo do grau de realismo que sempre quis imprimir às suas ficções.

Lembremos os exemplos de Fantasia Lusitana (2010), elaborado a partir de materiais de arquivo sobre a sociedade portuguesa durante a Segunda Guerra Mundial, ou Raul Brandão Era um Grande Escritor (2012), integrado no plano de produção de Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura. Fátima (2017), sobre um grupo de mulheres protagonistas de uma peregrinação de Bragança até Fátima, talvez seja o exemplo mais emblemático do seu gosto de construir uma ficção com a respiração narrativa de um documentário — o filme foi também apresentado como minissérie, Fátima: Caminhos da Alma, na RTP.

Canijo entrou no mundo do cinema como assistente de realização, nomeadamente em dois filmes cuja produção passou por Portugal: O Estado das Coisas (Wim Wenders, 1982), e A Cidade Branca (Alain Tanner, 1983). Com idênticas funções participou em Ninguém Duas Vezes (Jorge Silva Melo, 1984) ou O Sapato de Cetim (Manoel de Oliveira, 1985). Estreou-se na longa-metragem com Três Menos Eu (1987), a que se seguiram a série televisiva Alentejo sem Lei (1990) e Filha da Mãe (1990).

O peso decisivo do universo feminino nas suas ficções teria uma expressão fundamental em Viver Mal e Mal Viver, duas longas-metragens de 2023 centradas no dia a dia de um hotel na costa norte de Portugal — no primeiro caso destacando as personagens dos hóspedes, no segundo observando as relações das mulheres de várias gerações que fazem parte da família proprietária do hotel. Foram dois títulos com especial ressonância internacional, com destaque para Mal Viver que arrebatou um Urso de Prata (Prémio do Júri) no Festival de Berlim.

Atualmente, Viver Mal e Mal Viver podem ser vistos na Filmin. Na mesma plataforma está também disponível É o Amor (2013), um melodrama vivido na comunidade piscatória de Caxinas, e ainda Sangue do Meu Sangue, Trabalho de Actor, Trabalho de Actriz e Raul Brandão Era um Grande Escritor.

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