Figura central na história do cinema da Hungria e um dos símbolos maiores da produção europeia do último meio século, Béla Tarr morreu no dia 6 de janeiro — contava 70 anos. A notícia foi divulgada pela Academia de Cinema Europeu, de que era membro desde 1997. A sua derradeira realização, O Cavalo de Turim, surgiu em 2011, numa altura em que ele próprio anunciou que não voltaria a filmar.Nos últimos anos, Tarr dedicou-se a atividades pedagógicas, tendo fundado em 2012 uma escola de cinema (Film Factory) em Sarajevo. Em 2022, por ocasião de um prémio de carreira atribuído pelo Festival Internacional do Cairo, resumiu à revista Variety o seu estado de espírito, dizendo que “era tempo dos mais velhos partirem — retirem-se, gozem o sol.” Em qualquer caso, não se sentia como um professor tradicional: “Quando digo que estou a ensinar, não é educação, é libertação.” A escola de Sarajevo tornar-se-ia um polo emblemático de um cinema europeu (e não só) em permanente reinvenção temática e formal, contando com a participação de convidados como o filósofo francês Jacques Rancière, a atriz inglesa Tilda Swinton, e vários realizadores como o mexicano Carlos Reygadas, o norte-americano Gus van Sant ou o português Pedro Costa. .Curiosamente, Portugal foi um dos primeiros países a descobrir o trabalho de Tarr, já que a sua estreia na longa-metragem, O Ninho Familiar (1979), marcou de forma muito especial os tempos áureos do Festival da Figueira da Foz. Através do retrato de uma família “como as outras”, o cineasta expunha o vazio quotidiano do chamado “socialismo real”, aliás numa encenação metódica já significativa da contundência ideológica da sua visão (“anarquista” foi mesmo um adjetivo assumido por Tarr).Produzido com chancela dos Estúdios Béla Balázs (nome de um dos grandes pioneiros da teoria cinematográfica), O Ninho Familiar refletia os valores de raiz documental da chamada Escola de Budapeste; na altura, a novidade que era o trabalho de Tarr foi também aproximada da pulsão realista do cinema de John Cassavetes, figura nuclear da “nova vaga” nova-iorquina através de títulos como Shadows (1959) e Too Late Blues (1961). Em boa verdade, a questão documentário “ou” ficção não terá tido um papel central no seu desenvolvimento artístico, já que o importante seria a vontade de observar e tentar compreender o mundo à sua volta. Na citada entrevista à Variety, resumiu assim o assunto: “Há tanta gente sentada à secretária, escrevendo e continuando a escrever, para não aparecer mais do que um mero papel sem vida. A vida está à nossa frente. É preciso compreender a sua lógica, ver as pessoas.”Tarr & KrasznahorkaiCom os filmes seguintes, nomeadamente Almanaque de Outono (1984), retrato claustrofóbico de um grupo de personagens num mesmo apartamento, Tarr foi desenvolvendo um estilo realista muito próprio que, sem renegar os seus fundamentos, teria uma viragem importante a partir de Danação (1988). Foi aí que os argumentos dos seus filmes passaram a contar com a colaboração do escritor László Krasznahorkai (Prémio Nobel da Literatura de 2025), reforçando a atenção a um tempo interior que, apesar de inseparável do arranjo social e político das relações humanas, espelha a irredutibilidade, porventura os enigmas insolúveis, das experiências individuais.Sempre com o contributo de Krasznahorkai, seguiram-se Sátántangó (1994), As Harmonias de Werckmeister (2000) e O Homem de Londres (2007) — os dois primeiros a partir de romances do próprio escritor, o terceiro baseado em Georges Simenon. São títulos marcantes na história do cinema europeu das últimas décadas, numa depuração formal em que as austeras imagens a preto e branco vão sendo tratadas em planos de cada vez maior duração. Daí a designação de “slow cinema” (à letra: “cinema lento”), rótulo equívoco que, em qualquer caso, liga Tarr a uma genealogia em que podemos encontrar autores como o francês Robert Bresson ou o russo Andrei Tarkovsky (que Tarr admirava, embora não se reconhecesse na sua “metafísica”).Entre nós, o filme final, O Cavalo de Turim, foi também o primeiro a ter estreia comercial, distribuído pela Midas Filmes que, depois, editou uma caixa de DVD com vários títulos de Tarr, incluindo o telefilme Macbeth (1982). O Homem de Londres também chegou ao DVD, na altura com chancela da ZON Lusomundo..Morre aos 70 anos o realizador Béla Tarr, figura de culto do cinema da Hungria.Realizador Béla Tarr em Espinho