Vicky Krieps, Cate Blanchett e Charlotte Rampling: as famílias já não são o que eram.
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'Pai Mãe Irmã Irmão'. Jim Jarmusch propõe uma nova psicologia

Americano Jim Jarmusch está de volta com um filme tão subtil quanto enigmático sobre relações familiares; chama-se 'Pai Mãe Irmã Irmão' (sem vírgulas) e valeu-lhe o Leão de Ouro do Festival de Veneza.
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Como definir Pai Mãe Irmã Irmão, o filme de Jim Jarmusch que, no passado mês de setembro, foi consagrado com o Leão de Ouro do Festival de Veneza? De tão óbvia, a pergunta parece difícil de satisfazer com uma resposta adequada. Começando pelo mais básico, diremos que se trata, não de uma história, mas de três histórias, cada uma delas no espaço privado de uma família - a primeira centrada no pai, a segunda na mãe, a última num par de irmãos.

Há alguma relação entre as três famílias? Não, mas há uma espécie de pontuação dramática, mais ou menos risonha, através de pormenores que se “repetem” de uma história para outra. Exemplo? Em todas elas alguém possui (ou possuiu) um relógio Rolex que, na primeira história, suscita aos filhos que visitam o pai, uma dúvida sobre a sua autenticidade: parece falso, mas será verdadeiro? E se é verdadeiro, porque é que o pai insiste em dizer que não passa de uma imitação barata? Seja como for, essa dúvida contamina as histórias seguintes, levando-nos a supor que os novos Rolex podem ser falsos...

Tanto basta para que acompanhemos as histórias que nos são contadas com uma pequena antologia de acontecimentos que ecoam uns nos outros, justificando alguma generalização temática. Todos os pormenores são significativos, a começar pelo facto de o título original, Father Mother Sister Brother, não colocar qualquer vírgula entre as personagens citadas (o que, felizmente, foi preservado no título português). Assim se sugere que, mesmo não pertencendo a uma única família, aquelas personagens e as suas ações existem ligadas por um labirinto secreto, porventura indecifrável, de factos objetivos e emoções subjetivas.

Evitemos, por isso, o cliché moral do “filme sobre a família”. Todas as telenovelas, com a sua avalanche de estereótipos psicológicos, são “sobre a família”, mas seria grosseiro e, mais do que isso, insultuoso considerar que a filigrana dramática de Jarmusch tem o que quer que seja de “novelesco”. O que ele filma é o sistema de ilusões inerente ao espaço social da família - enfim, das famílias que o seu filme retrata. Porquê ilusões? Porque, mesmo quando as personagens não mentem, dir-se-ia que a estrutura familiar se sustém, paradoxalmente, não através do conhecimento, mas do desconhecimento dos seus membros.

Na primeira história, as personagens de Adam Driver e Mayim Bialik visitam o pai, interpretado por Tom Waits (velho cúmplice de Jarmusch), algo receosos das consequências da sua vida quase monástica numa zona rural dos EUA - mas será que sabem realmente o que acontece nessa vida? No segundo, em Dublin, temos uma nova visita, agora de duas irmãs, Cate Blanchett e Vicky Krieps, a sua mãe, Charlotte Rampling, uma escritora de sucesso - com um misto de humor e amargura, tomam chá como marionetas tristes que, afinal, vivem na mesma cidade. No capítulo final, em Paris, Indya Moore e Luka Sabbat visitam o apartamento dos pais, recentemente falecidos na queda de um avião (nos Açores...), deparando com objetos tão inesperados como uma pequena coleção de bilhetes de identidade falsos.

Realismo e lirismo

Com um lote de atores excecionais, Jarmusch filma tudo isso com a paciência de quem está a fazer um estudo científico, a meio caminho entre realismo e lirismo, embora sem conclusões práticas nem relatório teórico. Com alguma ironia, talvez se possa dizer que ele persegue os ritmos e as melodias de uma música íntima composta a partir das formas de solidão de cada ser humano.

Assistimos, por isso, ao nascimento de uma nova psicologia familiar cujo fundamento é o desconhecimento com que os filhos acompanham (ou julgam acompanhar) a existência dos pais. Talvez faça sentido dizer que tudo isso está latente em momentos emblemáticos da filmografia de Jarmusch, de Para Além do Paraíso (1984) até Paterson (2016), passando por Broken Flowers - Flores Partidas (2005). O certo é que agora, com a sofisticação de um admirável contador de histórias, Jarmusch aproxima as gerações para expor a verdade dos pais como algo que os filhos nunca saberão - tem a tristeza de um drama redimida pela ternura de uma fábula.

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