Apesar da distorção industrial que o cinema dos EUA tem vivido nas últimas duas décadas — primeiro, com a invasão dos blockbusters da Marvel & afins, depois com a brutal concorrência das plataformas de streaming —, Hollywood vai gerando filmes que, melhor ou pior, sabem reencontrar e revalorizar os seus valores tradicionais. Assim acontece com Song Sung Blue, uma realização de Craig Brewer, que consegue a proeza de renovar, com discreta elegância e equilíbrio formal, a tradição da “biografia de um cantor”.Não se trata de um exemplo linear dessa tradição que, em anos recentes, deu origem a títulos como Rocketman (Dexter Fletcher, 2019), sobre Elton John, ou Elvis (Baz Luhrmann, 2022). Em Song Sung Blue, Mike Sardina, a personagem central, é um “cantor-imitador”. Entenda-se: alguém cuja vida profissional, frágil e errática, é feita de breves performances em bares ou feiras a imitar Don Ho, um cantor pop nascido no Hawai muito popular ao longo da década de 1960.Não estamos, por isso, em sentido estrito, perante um “musical”. Claro que o filme está recheado de canções, mas a matriz narrativa de Song Sung Blue pertence a um território mitológico visceralmente made in USA, centrando-se numa personagem que se transcende porque nunca desiste do seu sonho (americano, como é óbvio). Na companhia de Claire, uma imitadora de Patsy Cline com quem virá a casar-se, Mike muda o seu “paradigma”, fundando a banda Lightning and Thunder e triunfando numa nova especialização. Ou seja: celebrando o cancioneiro de Neil Diamond — será preciso recordar que Song Sung Blue, do álbum Moods (1972), é um tema lendário de Neil Diamond?Convém não esquecer que Mike e Claire são personagens verídicas (ele falecido em 2006, contava 55 anos; ela atualmente com 64 anos), sendo o filme de Craig Brewer inspirado num documentário de Greg Kohs sobre o casal, também intitulado Song Sung Blue (2008). O certo é que o novo Song Sung Blue evita jogar a cartada da mera duplicação das figuras retratadas, evitando também, o que seria francamente pior, reduzir-se a uma espécie de “filme-concerto” pontuado pela dramatização de algumas situações.Para que tudo isso resulte, a composição de Mike e Claire por Hugh Jackman e Kate Hudson é absolutamente decisiva. É com eles, e por eles, que perpassam as emoções da saga dos Lightning and Thunder, numa lógica narrativa cuidadosamente controlada. Dito de outro modo: esta não é uma colagem de canções que evocam determinadas personagens, mas sim uma história de gente viva para quem as canções são matéria nuclear dos valores da sua própria existência..'Kontinental ‘25'. Desencanto e tristeza em tom romeno.'Pai Mãe Irmã Irmão'. Jim Jarmusch propõe uma nova psicologia