Os filmes de João César Monteiro (1939-2003) estão de regresso às salas de cinema. A partir desta quarta-feira, dia 7, a Medeia Filmes apresenta uma retrospetiva integral da sua obra, num programa a decorrer em Lisboa (Cinema Nimas) e Porto (Teatro Campo Alegre), com extensões em Setúbal (Auditório Charlot), Coimbra (TAGV), Figueira da Foz (CAE) e Braga (Theatro Circo) — a exibição dos filmes prolonga-se até finais de fevereiro.Tal como tem acontecido com obras de outros nomes marcantes da história do cinema português, também neste caso os filmes serão apresentados em cópias restauradas pela Cinemateca Portuguesa. A sua preservação é indissociável de um processo de relançamento, na certeza de que haverá, pelo menos, uma geração que a eles nunca terá podido aceder. Isso mesmo é lembrado numa recente nota de informação da Cinemateca, sublinhando os objetivos do Plano de Digitalização do Cinema Português: “Ao permitir a criação de novas cópias digitais, este trabalho não só garante a salvaguarda do património cinematográfico como promove a sua reativação no presente. Com o importante trabalho e dedicação dos distribuidores, estes filmes regressam assim ao circuito comercial e cultural, afirmando o cinema de património como um corpo vivo, continuamente redescoberto e reinscrito na experiência coletiva da sala de cinema.”Estamos perante um universo que não é estranho ao valor dessa “experiência coletiva da sala de cinema”, tal como poderá demonstrá-lo, nem que seja de forma sarcástica, o seu Branca de Neve (2000). Encenando a peça de Robert Wasler com vozes off e o ecrã negro durante a maior parte da projeção, o cineasta gerou e protagonizou há um quarto de século uma agitação polémica que, em qualquer caso, está longe de esgotar os contrastes da sua filmografia. . Vale a pena recordar o contraponto de duas médias-metragens de começo da carreira: Sophia de Mello Breyner Andresen (1969) e Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço (1971). São experiências unidas na mesma vontade de combinar o realismo fundador do cinema com os desejos da ficção. Ou seja: um documentário sobre a escritora que, de modo avesso ao espírito “artes & letras” televisivo, nasce da sua cumplicidade com o próprio realizador; e um ensaio (estreia em cinema de Luís Miguel Cintra) que reflete um tempo de muitos desencantos artísticos e políticos, sem renegar a alegria inerente ao próprio ato de criar cinema.Essa alegria exprime-se na trajetória do autor através de títulos tão diversos como Veredas (1978) ou Silvestre (1981). O primeiro, por vezes associado ao impacto de Trás-os-Montes (1976), de António Reis e Margarida Cordeiro, segue um caminho muito próprio de apropriação e recriação de lendas populares para criar um espaço encantatório em que a paisagem possui um fundamental valor lírico; o segundo aposta na reconversão de um certo imaginário medieval para relançar temas e interrogações da identidade lusitana.João & JoãoNo plano simbólico, perversamente autobiográfico, a imagem de João César Monteiro será para sempre associada à personagem, que a si próprio se atribuiu, de João de Deus. Combinando uma inocência rebelde com os arroubos de uma frieza cínica, João de Deus apareceu em Recordações da Casa Amarela, por certo o título que deu ao seu ator/realizador maior e mais significativa projeção internacional — valeu-lhe um Leão de Prata no Festival de Veneza de 1989. João de Deus regressaria a Veneza em 1995, com A Comédia de Deus, neste caso arrebatando um Grande Prémio Especial do Júri (ex-aequo com O Homem das Estrelas, de Giuseppe Tornatore).A odisseia trágico-cómica de João de Deus encontrou a sua derivação final através da personagem de João Vuvu (de novo uma composição do realizador), protagonista de Vai e Vem, além do mais um retrato agridoce da cidade de Lisboa. Revelado no Festival de Cannes de 2003, três meses depois do falecimento de João César Monteiro, poderá ser visto como o testamento de um cineasta avesso a rótulos definitivos.