Morreu Peter Medak, cineasta do terror e dos Pink Floyd
Nascido em Budapeste, o cineasta Peter Medak faleceu na quarta-feira, dia 27, em Los Angeles — contava 88 anos. As referências geográficas ajudam a situar o seu trajeto de vida, mas não a sua identidade cinematográfica. Isto porque, através de títulos como A Classe Dominante (1972) ou The Odd Jobb (1978), Medak distinguiu-se como singularíssima figura, à beira do inclassificável, da produção britânica.
Pertence a uma geração de autores nascidos nas décadas de 1920/30 em que encontramos, justamente, alguns nomes lendários do cinema da Hungria como Miklós Jancsó, Márta Mészáros e István Szábo. O certo é que Medak nunca pertenceu a esse grupo. Ainda criança, começou a sentir o fascínio do cinema, reforçado pelo facto de uma tia lhe ter oferecido máquinas de filmar e projectar de 35mm... até que, aos 13 anos, as autoridades comunistas acharam por bem expulsá-lo da escola: “O meu pai era um chamado capitalista. Esteve preso durante anos e eu passei imenso tempo por minha conta, no nosso apartamento, já que o meu pai estava na prisão, a minha mãe trabalhava numa fábrica de plásticos e eu tinha um irmão que morreu...” (citado no obituário publicado no site Deadline). Até que em 1956, o Exército Vermelho soviético invadiu Budapeste e depôs Imre Nagy (que seria executado em 1958) — Medak foi um dos cerca de 200 mil húngaros que conseguiram fugir do país.
Começou na indústria cinematográfica como estagiário da Associated British-Pathé, distinguindo-se pelas suas competências como assistente de realização, nomeadamente na versão de 1962 de O Fantasma da Ópera, assinada por Terence Fisher. Estreou-se na realização com Negatives (1968), com Peter McEnery e Glenda Jackson, objecto insólito capaz de ilustrar o conceito de “drama erótico” da época.
A Classe Dominante confirmou o seu talento como diretor de atores, neste caso Peter O’Toole a interpretar uma figura bizarra cuja paranoia o leva a imaginar-se Jesus Cristo — foi a quinta de oito nomeações de O’Toole para o Óscar de melhor ator (nunca ganhou, tendo recebido uma estatueta honorária em 2003). The Changelling/O Desvendar de um Mistério (1980), com George C. Scott, sofisticada variação sobre o tema das “casas assombradas”, valeu-lhe o epíteto de especialista do género de terror. Em boa verdade, face à variedade da sua carreira, o rótulo não faz muito sentido. O principal “culpado” de tal equívoco acabou por ser Martin Scorsese que considerou esse título como “um dos mais assustadores filmes de terror de todos os tempos” — Guillermo del Toro e Stephen King são também grandes fãs de The Changelling.
Mantendo uma relação constante com a produção televisiva, Medak dirigiu vários episódios de séries como The Twilight Zone (a versão de 1985), The Wire (2002) e Breaking Bad (2009). De qualquer modo, na sua filmografia encontramos também títulos tão originais como a paródia O Grande Zorro (1981), Os Irmãos Kray (1990), sobre dois gémeos gangsters (inspirado em personagens verídicas), e ainda esse thriller brilhante que é Romeo Is Bleeding/Submundo (1993), com um elenco invulgar que inclui Gary Oldman, Lena Olin e Juliette Lewis (dois anos depois da sua revelação em O Cabo do Medo, de Scorsese).
Dando mostras de uma invulgar versatilidade, Medak envolveu-se também com o universo musical. Colaborou, em particular, com os Pink Floyd, tendo realizado algumas curtas-metragens sobre canções do álbum The Dark Side of the Moon (1973), que serviram para o ecrã circular que a banda utilizou na sua digressão americana de 1975. Assim, meia dúzia de anos antes da MTV e a par dos americanos Richard Lester (com os Beatles) ou D. A. Pennebaker (com Bob Dylan), Medak foi também um pioneiro dos telediscos

