Nos tempos heroicos do cinema Quarteto, no bairro de Alvalade, em Lisboa, pegou a moda das “Sessões da Meia-Noite", com filmes de terror, lançada pelo programador Pedro Bandeira Freire. Já passou meio século e, como é óbvio, nada se repete. Seja como for, há ideias que merecem ser revisitadas e reconvertidas. Assim acontece agora através da aliança do festival MOTELX com o Cinema Nimas, envolvendo também a plataforma de streaming FilmTwist. As “Sessões Nimas Fora de Horas” recuperam, aliás, o “espírito” das sessões organizadas, em 2003, pelo CTLX – Cineclube de Terror de Lisboa, no desaparecido Cinema King Triplex (iniciativa que seria a “semente” do próprio festival). Para (re)começar, hoje, 26 de junho, será exibida a cópia restaurada de Terror na Autoestrada (1986), de Robert Harmon — à meia-noite, bem entendido.Paradoxalmente, a eficácia emocional de Terror na Autoestrada decorre da simplicidade da sua premissa. A saber: Jim Halsey é um jovem que conduz o seu carro, de noite, através de uma paisagem desértica, tentando vencer o sono; começa a chover intensamente, até que, na berma da estrada, vislumbra uma figura obscura a pedir boleia (o título original é The Hitcher, “aquele que pede boleia”); Jim recolhe esse estranho, de nome John Ryder, não sem proferir uma frase irónica, premonitória do calvário que vai viver: “A minha mãe disse-me para nunca fazer isto...”Digamos que as coisas correm mal, muito mal mesmo... Para os espetadores da época, foi imediata alguma associação com Duel/Um Assassino pelas Costas, o filme (aliás, telefilme) de 1971 que seria decisivo para a afirmação artística e industrial de um jovem realizador chamado Steven Spielberg. Em ambos os casos há uma figura em movimento, no seu carro, confrontada com uma violenta ameaça. Com uma diferença sugestiva: na visão de Spielberg, a ameaça era “apenas” um anónimo camião, em The Hitcher trata-se de um ser humano. O primeiro filme possui a inquietação de uma parábola sobre a omnipresença do Mal; o segundo vive de uma sofisticada exploração do espaço físico como teatro de uma humanidade ferida pela sua monstruosidade interior.Quarenta anos passados sobre a data de estreia, importa lembrar que o holandês Rutger Hauer, no papel de John Ryder, compunha um garboso “mau da fita” que, para todos os efeitos, não reforçou a popularidade que conquistara como o emblemático cyborg de Blade Runner (1982). Isto porque, com uma discreta carreira comercial na época, Terror na Autoestrada tornou-se um clássico de reconhecimento tardio — em qualquer caso, o lugar-comum tantas vezes aplicado a este tipo de situações, segundo o qual o filme foi “ignorado” pela crítica, é pura mentira (remeto os interessados para as páginas de cinema do semanário Expresso, no mês de julho de 1986). .Contracenando com Hauer, o jovem C. Thomas Howell (19 anos durante a rodagem) surgia como exemplo de uma geração emergente — era uma das crianças de E.T. (1982), de Steven Spielberg, e compunha a personagem do frágil Ponybony em Os Marginais (1983), de Francis Ford Coppola, contracenando, entre outros, com Matt Dillon, Diane Lane e Tom Cruise. Na filmografia do realizador, Terror na Autoestrada ficou como um momento fulcral, já que o óbvio talento de Harmon se foi dissolvendo nas rotinas de muitas produções televisivas. Para todos os efeitos, este é um filme com alguns contributos de excelência, nomeadamente a música de Mark Isham e a direção fotográfica de John Seale (Óscar de melhor fotografia, em 1997, com O Paciente Inglês).Agora, numa altura em que discutimos os “prós” e os “contras” das plataformas de streaming, este é também um filme que pode simbolizar a consolidação da marca HBO (então um canal televisivo com características inovadoras): Terror na Autoestrada foi, de facto, uma das primeiras produções da HBO Films, cuja atividade começara em 1982. Por curiosidade, lembremos que, no mesmo ano de 1986, o maior fenómeno nas salas de cinema chamava-se Top Gun..Steven Spielberg. O cinema ainda é uma arte religiosa.'Taxi Driver': 50 anos de um clássico