O artista brasileiro Paulo Bruscky.
O artista brasileiro Paulo Bruscky. Foto: Reinaldo Rodrigues

Galeria Zé dos Bois retoma programação de exposições com obras de Paulo Bruscky e Alexandre Estrela

Três meses depois de incêndio, ZDB prepara outras duas inaugurações, do Musa paradisiaca e do artista plástico Francisco Corrêa no sábado (23). "Regresso à dinâmica normal”, diz o curador Natxo Checa.
Publicado a
Atualizado a

Pouco mais de três meses depois de um incêndio deflagar no edifício da Galeria Zé dos Bois, popularmente conhecida como ZDB, no Bairro Alto, o espaço retorna à sua "dinâmica normal" em relação a exposições neste sábado, 23 de maio, com quatro inaugurações. "Claro que foi duro, mas faz parte da vida e do trabalho. Como não houve nenhum problema estrutural, conseguimos reparar tudo razoavelmente de forma rápida", começa por dizer Natxo Checa, diretor de artes visuais da ZDB, em entrevista ao DN, na qual prefere concentrar-se no que surge no espaço a partir de agora.

"É como quando nasce uma criança: o que interessa não é se foi com fórceps ou cesariana, o que importa é que a criança nasceu", complementa.

A exposição central do programa, conta o catalão, é dedicada a Paulo Bruscky, um dos principais pioneiros da arte conceitual brasileira, natural do Recife, no estado de Pernambuco. Checa é um dos curadores da mostra e descreve o artista como alguém que, durante a ditadura brasileira nos anos 70, trabalhou a performance, a arte postal e a arte correio.

Segundo Checa, a arte postal desenvolvida por Bruscky permitia criar redes de comunicação entre diferentes regiões do Brasil durante a ditadura militar, mantendo uma dimensão crítica sem recorrer diretamente ao panfleto político. O artista fez também parte do movimento Poema Processo e a sua obra abrange poesia visual e sonora, livros e filmes de artista, xerox arte e fax arte.

A exposição antológica cobre trabalhos desde os anos 70 até quase à atualidade. O fio condutor é a relação entre o acaso e a lógica - encarnada de forma literal numa série de obras que Bruscky desenvolveu na cidade de Brusque, em Santa Catarina, motivado pela quase homoníma com o seu apelido.

"Isso serviu-nos de motivo para fazer toda a exposição nesta relação entre a homonímia, o acaso e o trabalho lógico", diz Checa. O artista chegou a Lisboa de propósito para a inauguração da mostra e fica em Portugal durante uma semana para poder falar com o público. Haverá também intervenções pela cidade e uma ação com classificados de jornal assinados por Bruscky, com os detalhes revelados apenas a quem aparecer na exposição.2

11 de setembro, abalos sísmicos e o "pior pesadelo" de Mike Tyson

A segunda mostra com curadoria de Checa é intitulada Empório, do coletivo Musa paradisiaca, formado por Eduardo Guerra e Miguel Ferrão, que apresentam um ensaio audiovisual de 90 minutos que parte de imagens do 11 de Setembro e dos dias que se seguiram. A perspectiva é a de uma neurocientista nova-iorquina que viveu o drama em primeira mão, captada através da textura de arquivo VHS. O título vem de um cartaz que aparece no vídeo e remete para uma marca comercial.

"Temos uma imagem exterior fixa, com o passar do tempo de onde estavam as Torres Gémeas, e é o interior e o retrato psicológico de uma pessoa e os seus amigos, dentro de casa em Nova Iorque, a viverem aquele momento, com as suas pausas, com as suas reflexões", descreve Checa. "É um trabalho de luto e da queda do capitalismo", resume o curador, que conta que a exposição estava prevista antes do incêndio e foi mantida.

Já a terceira exposição que entra em cartaz no sábado é uma réplica de RedSkyFalls, de Alexandre Estrela - o projeto que representa Portugal na Bienal de Veneza 2026, como o DN noticiou em março. A instalação em Veneza é, nas palavras de Checa, "alo grandioso" - com placas, uma projeção principal e um sistema complexo com inteligência artificial que reage em tempo real a abalos sísmicos a partir de determinada magnitude, como visto na apresentação para a imprensa dois meses atrás. "Cada vez que há um abalo sísmico no mundo, todo o sistema vai abaixo", explica.

Na ZDB, associação de parceria histórica com Estrela, a réplica é uma sala com três projeções de moscas-da-fruta encerradas em logótipos do poeta visual brasileiro Wlademir Dias-Pino. A rede de réplicas ativas inclui ainda instituições em São Francisco, Los Angeles, Lima e Cidade do México.

Por fim, a quarta exposição, na Livraria da ZDB, é de Francisco Corrêa, artista da nova geração que apresenta o que chama do pior pesadelo de um dos maiores pugilistas da história: a mostra Mike Tyson's Worst Nightmare faz parte de um ciclo trimestral de instalações na livraria da galeria, que ocupa uma parede e o chão do espaço, e tem curadoria de Sofia Medeiros e Tomás Longo. Corrêa, nascido em Lisboa em 1999 e licenciado em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes, é artista plástico e trabalha no diálogo entre pintura e escultura, a realidade e ficção e volta a promover seu trabalho na galeria, onde já apresentou outras performances.

O artista Francisco Corrêa apresenta a mostra 'Mike Tyson's Worst Nightmare' na ZDB.
O artista Francisco Corrêa apresenta a mostra 'Mike Tyson's Worst Nightmare' na ZDB.Foto: Reinaldo Rodrigues

A instalação que inaugura no sábado é o primeiro capítulo de um projeto mais amplo que terá a sua forma completa no Centro Cultural Raiano, em Idanha-a-Nova, através da mediação da Associação Lugar de Junho, co-fundada por Tomás Longo. Para Natxo Checa, a obra "remete, poeticamente, para questões de morte - ou para o contrário, fugir dela". "Também é algo para ser ver com atenção", finaliza.

As exposições de Bruscky, Musa paradisiaca e Francisco Corrêa ficam em cartaz na Galeria Zé dos Bois até o final de agosto, enquanto a de Alexandre Estrela vai até novembro, em paralelo com a Bienal de Veneza. A ZDB fica situada na Rua da Barroca, 59, no Bairro Alto, em Lisboa.

nuno.tibirica@dn.pt

O artista brasileiro Paulo Bruscky.
'RedSkyFalls': conheça o projeto que vai representar Portugal na Bienal de Veneza
O artista brasileiro Paulo Bruscky.
Anna Maria Maiolino no MAAT: Esculturas vivas feitas de pequenos gestos
Diário de Notícias
www.dn.pt