Quando se desce a rampa do MAAT Gallery veem-se desenhos de Anna Maria Maiolino nas paredes, mais de 100, um conjunto intitulado Tempestade de Ideias, e neles se reconhecem algumas das formas que vamos encontrar nas esculturas expostas lá em baixo, na sala oval. Há peças em gesso e em cimento, mas as que se destacam são as esculturas feitas com argila crua. As oito toneladas de barro foram moldadas in situ durante três semanas pela artista e uma equipa e inserem-se na série Terra Modelada iniciada em 1993. . Estas esculturas estão destinadas a desaparecer e até lá vão mudar de aspeto, porque o barro vai secando, pode rachar e altera a cor com o passar dos dias. Algumas esculturas vão começar a “craquelar” e as indicações que a artista costuma dar, revela, é “deixa craquelar, só não deixa no chão. Porque aí a precariedade é muito grande. Caiu, pega e joga fora. Porque a terra desidrata, vira pedra e vai voltar a ser pó. Ela tem o seu próprio processo de vida e de tempo. É como o nosso corpo”, diz Anna Maria Maiolino na visita de imprensa a esta exposição, Terra Poética, que poderá ser visitada de 25 de março a 31 de agosto.“A terra é matéria e carrega em si a questão da precariedade”, sublinha a artista que no final verá as suas obras em argila crua de volta ao fornecedor da matéria-prima. . Nestas suas esculturas há repetição (e acumulação) e este conceito tem merecido a reflexão da artista. “São signos, não é uma obra que conta uma história, conta a ação da mão, do trabalho. Na verdade, é um honrar ao trabalho”, diz, apontando para o que escreveu Gilles Deleuze. O filósofo francês considera que a repetição não é cópia, cria sempre algo de novo, mesmo que pareça igual. Por exemplo, a repetição domina os gestos quotidianos, como cozinhar, mas há sempre variação nesse ato repetido.“O meu filho, que é um escolar, porque eu não tenho universidade, me disse: 'mãe, tem um cara que escreveu sobre a repetição muito melhor que você', Deleuze. Quando li, entendia tudo. Era tudo muito claro, muito compreensível, porque a mente de Deleuze se baseou sobre o quotidiano, observou como é que as coisas funcionam. Você não faz um feijão igual ao dia anterior.”O desafio que os curadores João Pinharanda e Sérgio Mah apresentaram à artista foi “fazer uma exposição que colocasse a tónica na materialidade”. Anna Maria Maiolino diz que "a repetição é um dos aspetos da materialidade. O nosso corpo não é igual nunca. Se repete, porque as células se vão repetindo. Acho que, de certa maneira, o meu trabalho se baseou sobre o quotidiano. E a repetição faz parte da vida quotidiana.” . Sérgio Mah sublinha que o trabalho da artista “é também o reflexo de uma história de vida, de uma história familiar”. Anna Maria Maiolino nasceu em Itália, em 1942, e emigrou com os pais e os nove irmãos mais velhos para a Venezuela, em 1954. Aos 18 anos a família mudaria para o Brasil.“Este trabalho permite-lhe pensar na sua própria história familiar”, diz o curador, com a avó e a mãe sempre a preparar pasta, em gestos repetitivos com as mãos - o amassar, o enrolar, o dividir, o acumular.Algumas das esculturas mostradas nesta exposição são maiores do que aquelas que a artista costuma apresentar, porque a sala oval do MAAT é grande em relação aos “espaços com dimensão doméstica” onde expõe habitualmente. Mas essas obras maiores criadas para Terra Poética também resultam da repetição, destaca Sérgio Mah. “São peças feitas de pequenos gestos. Só através disso se atinge uma escala maior.” . “As mãos e o trabalho feminino” são centrais na obra desta artista, uma das mais reconhecidas da América Latina que em 2024 foi distinguida com o Leão de Ouro de Carreira da Bienal de Veneza, aponta João Pinharanda.Também Sérgio Mah aborda o feminismo no seu percurso artístico. “Outro lado importante é ser uma artista mulher, e ela diz que é uma artista feminista”. Para o curador, a obra de Maiolino reflete as limitações decorrentes da sua condição de mulher a ter de tratar dos filhos e da casa. “A dimensão feminista começa com questões como o ser alguém que trabalha com as mãos, que trabalha no espaço que muitas vezes a mulher tem. Ela era mulher, mãe, esposa de um homem artista”.Na inauguração da exposição esta terça-feira, 24 de março, ao final da tarde, Anna Maria Maiolino mostra outra vertente do seu trabalho, com a apresentação de uma releitura da performance Entrevidas que concebeu em 1981como manifesto político em prol da abertura democrática do Brasil. Essa performance sofreu uma releitura em 2025 com a criação de KA, que incorpora “o gesto das mãos levantadas como um pedido poético-político por paz e desarmamento”, explica o museu. .Coleção EDP em exposição: há obras ousadas e "impossíveis" que já foram de Pedro Cabrita Reis .Bruno Zhu no CAM. Uma exposição cheia de "momentos insólitos" para acordar o visitante