O Comboio Literário partiu de Santa Apolónia, em Lisboa, às 10h23. A bordo, 160 pessoas, entre escritores, jornalistas, pessoal da Leya (organizadora da iniciativa) e 118 passageiros que pagaram bilhete para fazerem esta viagem até Évora no fim de semana de 9 e 10 de maio. O comboio era composto por quatro carruagens, duas delas históricas (Schindler), uma azul e outra vermelha, de janelas panorâmicas, já com 70 anos. Na carruagem número quatro sentam-se Conceição e Beatriz, uma ao lado da outra e de frente para o escritor João de Melo e a poeta Ana Paula Tavares (vencedora do Prémio Camões 2025). . "Para mim foi uma sorte ficar ao pé destes dois escritores. São pessoas normais, não estão nos píncaros e que nos põem à vontade para conversar. Não sou uma pessoa de grande literatura, mas gosto de ler", diz Conceição, médica reformada de Lisboa, revelando que João de Melo era mesmo um dos autores que queria ler, nomeadamente a obra Autópsia de um Mar de Ruínas, livro que espera comprar na viagem. Beatriz Gonçalves, educadora de infância, também reformada, veio de Cascais. "Está a ser fantástico, já calculava que seria, parabéns a quem teve a ideia, adoro comboios e adoro ler". Beatriz viria a ganhar protagonismo no final desta viagem, mas, nesta altura, a caminho de Casa Branca, onde o comboio faria uma paragem antes de chegar a Évora, ainda não o sabíamos. . João de Melo, sentado de frente para Conceição, encara este comboio literário "com expectativa". "Porque aqui está a construir-se uma diferença no nosso quotidiano, com os livros e os leitores. Estamos em fase experimental e a caminho daquilo que ainda vai acontecer, ainda vamos estar mais juntos, mais em grupo do que aqui, vamos falar daquilo que nos incomoda, daquilo que nos alegra, que nos motiva e se isso acontece é muito bom, porque o escritor sai do cantinho e mergulha na realidade própria e alheia que é, no fundo, o jogo máximo da literatura".Ainda em início de viagem, o escritor acredita que "as pessoas vão ver uma coisa que é muito simples: afinal, não existe nos escritores o culto de atitude, eles são como nós, eles vivem com os pés no chão, têm a cauda comprida como nós temos, onde existe cauda; não existe cauda nenhuma quando não há que haver. Isto é uma metáfora, mas creio que as pessoas perceberão que tem a ver com a identidade profunda daquilo que nós fazemos, que é sempre na atenção a outro".Ana Paula Tavares, sentada a seu lado, embarca na ideia da cauda: "O escritor é uma pessoa normal, e o contacto com os leitores, pelo menos da minha parte, desencadeia um sentimento de gratidão pelo facto de sermos lidos. Podemos passar esta imagem que o escritor fala, conta, partilha, mas também recebemos imensa coisa: são histórias de pessoas que se calhar nunca seguirão o caminho dos livros, mas são histórias absolutas, bonitas e impressionantes que as pessoas têm para contar". . Comboios e literatura são para muitas pessoas uma combinação irresistível, até porque livros com histórias que se passam nos carris não faltam. Muitos conhecerão Um Crime no Expresso do Oriente, de Agatha Christie, ou Uma Aventura no Comboio, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Nesta viagem dispensa-se o crime, mas espera-se certamente aventura."Vim neste comboio, porque vi no Instagram, inscrevi-me logo, estão aqui alguns escritores de que gosto muito, e já tive a possibilidade de os ver, de falar com eles. Por exemplo, a Susana Amaro Velho, o Daniel Sampaio, o Rodrigo Guedes de Carvalho. Foi um olá e depois temos que conversar, vai haver tempo", diz Paula Hortinha, professora universitária na Católica, na área de marketing e gestão. Está sentada ao lado de Sónia Almeida, de Setúbal, que trabalha na indústria automóvel. "Eu, para começar, foi o comboio, sou fanática por comboios. E depois, como também gosto muito de ler, juntaram-se as duas paixões", diz a passageira que leu há pouco tempo um livro de Domingos Amaral sobre o terramoto de Lisboa e ficou contente de saber que o escritor estava a bordo. . Domingos Amaral é autor de As Filhas do Terramoto, lançado no mês passado pela Casa das Letras, e encontramo-lo numa das primeiras carruagens, uma das históricas. "Foi uma ideia nova e inesperada, mas que faz imenso sentido, é a primeira vez, esperemos que seja o princípio de uma tradição". O escritor está confortavelmente sentado ao lado de Pedro Chagas Freitas, que ele não conhecia. "Estamos no começo, ainda estamos sentados, ainda não circulamos, mas a ideia é um bocadinho essa, circularmos entre autores e leitores e no limite percebermos que somos todos pessoas, uns escrevem e outros leem, estamos unidos nesta viagem. E este projeto traz essa vantagem muito grande que é diluir essas fronteiras que nós muitas vezes construímos. Este tipo de iniciativas acaba por trazer esse tipo de ligação que vemos nas redes sociais e que é quase uma mini rede social em movimento, estamos todos aqui numa pequena rede", diz Chagas Freitas, um dos escritores mais lidos em Portugal, autor de livros como Prometo Falhar (Marcador Editora, 2014), A Raridade das Coisas Banais (Oficina do Livro, 2022) ou O Hospital de Alfaces (Oficina do Livro, 2025). .Mas se uns ainda estão sentados, outros já circulam pelo comboio. Há quem pare na carruagem-bar, onde também se podem comprar livros. É aí que passamos por Rodrigo Guedes de Carvalho, que está com um copo de vinho branco na mão em conversa com Susana Amaro Velho. "Quando o David Lopes me telefonou a convidar, confesso que aceitei sem saber muito bem o que era o projeto. Só por ter autores, escritores, comboios, passeios, achei logo que era uma coisa inovadora e que tinha tudo para correr bem. Achei, acima de tudo, que era uma iniciativa diferente. E é de aplaudir as iniciativas diferentes, sobretudo as que envolvem livros, porque sabemos bem que a literatura é o parente pobre da literatura", diz a autora de livros como Descanso (Casa da Letras, 2024) ou A Últimas Linhas Destas Mãos (Casa da Letras, 2025).Perguntamos se já foram abordados por leitores: “De uma forma muito sumária, ainda estamos nos primeiros copos de vinho, a coisa vai animar, mas sim, já há alguns cumprimentos”, diz Rodrigo Guedes de Carvalho, o bem conhecido jornalista da SIC e romancista que acaba de lançar O Meu Primeiro Apocalipse (D. Quixote, 2026). “Uma das coisas boas desta viagem, pelo menos para já, foi dois escritores que se admiram conhecerem-se e falarem um com o outro. Só por isso, valeu a pena. Espero falar com mais autores e, de facto, só um comboio consegue proporcionar isso. Isto seria impossível num avião ou numa camioneta. Para além de que é mais romântico, e pode haver um crime...”, acrescenta. . Para David Lopes, diretor-geral da Leya, "a haver um transporte literário, é o comboio. Porque ele é suficientemente rápido para nos levar de A a B e suficientemente lento para permitir que nós estejamos a conversar uns com os outros". O responsável do grupo editorial que lançou esta iniciativa diz que, na Leya, é feita “permanentemente uma reflexão de como fazer chegar os livros mais longe e de uma forma diferente. E não é só os livros, é a leitura”. Além disso, considera que “há momentos de grande fruição quando autores e leitores se encontram”. E faz um paralelo com a música, domínio onde "os grandes momentos são ao vivo, onde se encontram músicos e ouvintes. Foi um bocadinho o mesmo exercício, o que é que nós podíamos criar de diferente para juntar autores e leitores". A nível pessoal, David Lopes assume um "grande amor pelos comboios", tendo, no final dos anos 1980, organizado o Comboio Luso, o Comboio Ibérico e o Comboio Europeu. .A iniciativa envolveu a CP e também os municípios de Évora e Vila Viçosa. “Quando batemos à porta das autarquias, à porta da região de turismo, percebemos que a questão do turismo literário, como qualificador do destino, é um objetivo”, diz David Lopes. O gestor sublinha que "há cada vez mais, e muito bem, por parte de autarquias e de comunidades locais, encontros, feiras literárias, festas do livro, porque é uma forma da leitura se aproximar das pessoas e as pessoas da leitura".A câmara de Évora, revelou, quando soube da ideia do Comboio Literário, mudou a data da feira do livro da cidade, que costuma ser em abril, para maio, para que a chegada do Comboio Literário coincidisse com o último dia do evento, que assim recebeu um conjunto de autores das várias chancelas do grupo Leya. Além dos escritores já mencionados, participaram nesta iniciativa os escritores Ângelo Delgado, Daniel Sampaio, Francisco Moita Flores, Patrícia Portela, Isabela Figueiredo, Luísa Sobral, Maria João Lopo de Carvalho, João Fernando Ramos, João Pinto Coelho e Hugo van der Ding.Quanto à escolha do Alentejo para esta primeira edição, o gestor diz que "todos os nossos territórios são literários, mas o Alentejo tem, ultimamente, evidenciado muito essa vocação, inclusive com trilhos literários, como a rota Levantados do Chão".O programa incluiu uma componente turística, com almoço de boas-vindas e um concerto de órgão na Sé Catedral, organizados pelo município de Évora, e um almoço e visita ao Paço Ducal de Vila Viçosa a convite da câmara municipal. . Quando esta iniciativa da Leya foi anunciada, os bilhetes esgotaram em 24 horas, com 1500 pessoas a ficar em lista de espera, revela David Lopes. Mas houve ainda outro efeito: "Logo no dia de lançamento, e no dia seguinte, recebemos vários desafios de autarquias, que nos contactaram a dizer 'e nós'?".Os viajantes pagaram entre 200 e 230 euros por todo o programa, incluindo estada em hotel em Évora, refeições e eventos culturais. David Lopes diz que foi um "comboio sem fins lucrativos". A CP também fez a sua parte. “Não estamos a ganhar dinheiro com este produto. Faturamos o custo da operação, o nosso objetivo não é perder dinheiro, mas não quisemos, e foi essa a indicação que demos às nossas equipas, tirar qualquer rentabilidade dela, até porque a rentabilidade que tiramos daqui é aquela que resulta de criarmos um produto que vai enriquecer as regiões, é um contributo para a Cultura", diz Pedro Moreira, o presidente da CP, que também viajou no comboio.. O gestor explica que as carruagens Schindler começaram a ser restauradas em 2020, e desde então já foram restauradas 13. "Algumas delas estavam assinaladas para restauro apenas para colocação em museu, conseguimos protocolar a sua utilização com o Museu Nacional Ferroviário e estamos a utilizá-las em alguns serviços, como no conhecido Mira Douro".Pedro Moreira diz que o turismo é uma aposta para a CP, que só não faz mais percursos turísticos porque as carruagens históricas também fazem serviços regulares por falta de material circulante. Às 12h30 o comboio faz a paragem prevista em Casa Branca, recebido pela música do grupo Coral e Instrumental de Flores do Monfurado. David Lopes entrega num ato simbólico um "cheque" de 1050 livros às câmaras municipais de Montemor o Novo e Vendas Novas, e às juntas de freguesia de Escoural e União de freguesias de Almada, Cova da Piedade, Pragal e Cacilhas. Nesta paragem, o comboio ganha mais uma passageira, a escritora Isabela Figueiredo, que assim se junta aos viajantes.Às 13h01 o Comboio Literário chega a Évora ao som da música da Banda Filarmónica Liberalitas Julia. Após o concerto na Sé Catedral, autores e leitores rumaram à Feira do Livro com o Templo Romano como cenário. Perante a ameaça de chuva, os autores assinaram livros e participaram em debates na Biblioteca Pública de Évora, fundada em 1805 pelo arcebispo Frei Manuel do Cenáculo. Luísa Sobral, música e autora do romance Nem Todas as Árvores Morrem de Pé (D. Quixote, 2025), cantou depois da sessão de autógrafos. .O momento alto para leitores, entre eles muitas professoras - a maioria dos participantes no Comboio Literário foram mulheres, que são quem mais lê em Portugal - foi o jantar. Um escritor em cada mesa e sem lugares marcados. Após a refeição houve ainda um momento de leitura de poesia por João de Melo e Ana Paula Tavares.No regresso a Lisboa, e após dois dias de convívio, o ambiente no comboio estava mais descontraído do que na ida. Patrícia Portela, que lançou agora o livro Hoje, 3 de Maio (Caminho), também destaca o jantar. “Só a meio é que percebi que as pessoas escolhiam com quem queriam jantar. Foi bonito falar com as pessoas sobre as razões porque vieram neste fim de semana, quais são os seus interesses. Pessoas que são muito mais leitoras do que eu, pessoas conhecedoras de muitas coisas, mas que depois têm profissões tão diversas, como bibliotecária ou advogada. Pessoas com imensas histórias para contar, tínhamos todos nos livros algo em comum. Se as pessoas se conhecessem todas de uma forma mais próxima o mundo seria interessante".Ao lado dela está Maria João Lopo de Carvalho (que lançou recentemente O Estoril Não Caiu do Céu), que concorda. “Encontrei aqui muitas professoras, pessoas com uma cultura vastíssima, que leem dez vezes mais do que eu leio”. Além disso, sublinha, a viagem foi uma oportunidade para conhecer colegas escritores. Por exemplo, diz que não conhecia os livros da Patrícia Portela, de quem ficou “fã”. . Rodrigo Guedes de Carvalho está sentado no seu lugar depois de ter comprado um livro. Agora no regresso, faz o balanço: "Foi tudo o que eu pensava que ia ser, ou seja, uma experiência nova e muito positiva. Salvo um outro pormenor, mas que é normal numa organização que está a dar os primeiros passos, o essencial, que é um convívio próximo entre autores e leitores foi plenamente conseguido, acho que é de continuar. Na feira do livro é muito ingrato, porque temos pessoas em fila, estamos numa posição sentada, sacramental, de quem está à espera de que venham ter conosco. Aqui tivemos um convívio de um dia a dia, andarmos juntos na rua, tudo dentro de uma cumplicidade maior, e acho que para os leitores é muito prazeroso esta dessacralização dos autores". Mais do que isso, sublinha o escritor, "este convívio tão próximo permite que não falemos só de livros, falámos das nossas vidas, das nossas crenças, contámos anedotas, histórias uns aos outros. O livro aproximou-nos, mas não monopolizou as conversas".Pedro Chagas Freitas, que foi o escritor mais procurado na sessão de autógrafos, sublinha que a iniciativa "permitiu juntar o lado pessoal, que é interessante, de conhecer pessoas e de estar com elas, com o lado profissional, que é importante também que corra bem. Nada terá corrido menos bem para mim, 100%". Domingos Amaral partilha que gostou do jantar, "foi uma ideia gira ficarmos cada um na sua mesa com os respetivos leitores e conversarmos mais com eles, porque acho que é também por isso que as pessoas vêm, é para falarem conosco, para ultrapassarem aquela barreira que às vezes existe. Isso ao jantar foi conseguido, e ao almoço também, baralhar e dar de novo nas mesas". E conta que foi abordado por uma leitora em Vila Viçosa, após a sessão sobre o romance histórico, que tinha sido copy desk no jornal Independente e que se lembrava dele como jornalista nos anos 1990. "Lembrava-se de mim como jornalista, eu só estive lá dois meses, não me lembrava dela, confesso. Tornou-se leitora dos meus livros e disse: 'já na altura escrevias tinhas muito jeito para escrever'". . Ana Paula Tavares e João de Melo encontram-se nos seus lugares, na carruagem quatro. "As pessoas partilharam conosco histórias, e não só histórias, também ideias. Discutimos muito ontem se a poesia se lê de atacado, ou se a poesia se lê aos poucos, se é para ler em voz alta, e chegámos a conclusão que é para ler em voz alta", diz a poeta angolana. João de Melo também avalia estes dois dias: "Disse que ia ser algo muito diferente. E foi. A diferença em relação a uma feira do livro consiste em puxar para geografias outras, pessoas que habitualmente se sentam em casa com um livro que já está feito, escrito por um senhor ou uma senhora que o escreveu sentado. Aqui tudo se move. Uma coisa é nós escrevermos para uma multidão incógnita e outra coisa é ver rostos por detrás daquilo que escrevemos, a escrita parece que ganha uma certa densidade, mais humanidade do que a nossa solidão caseira".A Leya vai fazer um inquérito de satisfação, mas a iniciativa será para repetir noutras regiões do país, adianta David Lopes, pelo menos uma vez por ano, mas até pode ser mais. "Agora queremos fazer a avaliação deste, e replicar". E podem vir a ser organizados comboios para idades específicas. Para o público infantil ou o que chamou "o comboio do meio", para jovens dos 12 aos 16 anos, idades em que é habitual deixarem de ler. . E qual a medida do sucesso, questionamos? "Vou ser um bocadinho mais poético do que assertivo. É como no poema do Fernando Pessoa, no comboio descendente vinha tudo à gargalhada. É um bocadinho isso".No fecho do programa em Vila Viçosa, antes do regresso a Évora, David Lopes chamou ao “palco” duas das participantes nesta iniciativa. Inês foi uma delas, porque fazia anos no dia seguinte e o bilhete para o Comboio Literário foi o presente dos pais (toda a família, pais e também dois irmãos, participaram na viagem). A outra passageira chamada foi Beatriz Gonçalves, a educadora de infância reformada de Cascais, porque criou um autocolante com a imagem da carruagem histórica a dizer Comboio Literário - EU FUI - 9 a 10 de maio 2026. Ela trouxe um autocolante para cada passageiro. David Lopes esteve a distribui-los na viagem de regresso até Lisboa.A jornalista viajou a convite da Leya .Miguel Pauseiro: “Perante a evolução da adesão ao cheque-livro, era muito importante estendermos o prazo” .Filipa Martins: "Há causas que merecem que os factos sejam contaminados pelas emoções, através de histórias reais"