Autora da premiada biografia de Natália Correia, O Dever de Deslumbrar (Contraponto, 2023), Filipa Martins volta ao romance com No Meu Fim Está o Meu Começo, oito anos depois de ter lançado Na Memória dos Rouxinóis (Quetzal, 2018). A escritora publicou o seu primeiro romance em 2008, Elogio do Passeio Público, que ganhou o Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores. Também escreve argumentos para televisão e cinema e estreou-se recentemente na realização com a curta-metragem The Reminder.Neste romance, tal como no anterior, e também na curta metragem The Reminder, lidas com a memória e identidade. O que te levou a interessares-te por este tema?Eu não tenho uma resposta lapidar, foi-me acontecendo, para mim é um tema universal. Nós quando falamos de história de vida, intuímos que sem essa história de vida o ser humano era só biologia. Aquilo que nos faz seres humanos, que cria a nossa humanidade, é o facto de estarmos enquadrados narrativamente. E a história, a narrativa, a transformação de conceitos minimamente complexos em histórias foi aquilo que sempre me seduziu, foi aquilo que fez com que eu fosse para o jornalismo, por exemplo. E, depois, no jornalismo, percebi que havia ali determinados espartilhos que me limitavam, e muitas vezes era a ficção que chegava a verdades que para mim eram mais absolutas. Mas esta ideia de que nós somos o substrato daquilo que nos acontece, sendo que aquilo que nos acontece é o resultado sempre de uma negociação entre memória e esquecimento, porque as memórias não são isentas, e podemos falar de memória pessoal como também da memória de um país, o lado da história que resiste ao tempo e que fica é só o discurso vencedor.Em relação à memória pessoal, quando falta a capacidade de nos lembrarmos, como no caso da mãe da protagonista deste teu novo romance, há uma perda de identidade...Há uma despersonalização.A personagem vive uma situação de declínio cognitivo e há muitos detalhes sobre a doença, por exemplo, nas conversas com o médico. Viveste esta situação de perto?Sim, este livro é o que conversa mais com a minha biografia familiar. Eu cresci com uma série de histórias, principalmente contadas por mulheres, muitas que não conseguiam registar a sua própria história, porque tanto a minha avó materna como a minha avó paterna morreram analfabetas, estavam dependentes desta tradição oral. E acho que este livro esteve sempre em latência dentro de mim. Eu resgato muitas destas histórias, de mulheres comuns, porque eu tinha vindo da Natália [biografia Dever de Deslumbrar], que era uma mulher extremamente pública, e achei que agora queria debruçar-me sobre a intimidade anónima de algumas mulheres. E é através destes pequenos episódios que eu vou tecendo também um olhar sobre o Estado Novo. No caso específico desta questão do Alzheimer, a minha avó materna morreu com Alzheimer, eu tinha cerca de 18 anos quando foi diagnosticada, ela chegou a viver em minha casa, a minha mãe acompanhava-a nas diferentes consultas e muitas vezes eu também estive presente. Lembro-me que uma das coisas que me impressionou foi o jargão médico, que muitas vezes era tão esquemático que me parecia quase o jargão do legislador, esta conversa entre o poder médico e o poder institucional, político, porque há ali uma relação de poder. Apesar de uma pessoa estar num lado da secretária ao mesmo nível que o médico, sente-se inevitavelmente num lugar de desvantagem, porque está à frente de um especialista. O conceito de cuidar também atravessa este livro?Esta ideia de cuidar está associada a mulheres, a mulher que cuida do ser humano nas suas fases de maior fragilidade, e as estatísticas comprovam-no, que é a infância e a velhice. E achei profundamente comovente esta ideia de ver a minha mãe neste processo de cuidar da minha avó, numa altura em que ela estava obviamente a esquecer e com ela estava a esquecer todas as possibilidades de reconstituição da história pessoal da minha mãe. Sendo que esta personagem, a Isabel, é uma personagem muito diferente da minha mãe, porque a minha mãe é uma pessoa extremamente generosa e muito bem resolvida. Até estranhamente bem resolvida, tendo em conta o seu percurso de vida. E esta Isabel é alguém muito mais definido pelas suas amputações, por aquilo que não sabe, do que por aquilo que conhece e que vive.Sobre a biografia da Natália Correia, disseste numa entrevista que tinhas aprendido com ela a “conciliação de opostos”. As personagens deste livro não são simples. Descreves o Jorge, o marido da Isabel, como sendo de uma “generosidade egoísta”. As tuas personagens têm vindo a complexificar-se?É verdade. Tenho sido muito mais justa com as personagens, acho que as humanizei. No Elogio do Passeio Público todas as minhas personagens, à exceção de uma mulher, não tinham nome, porque eram arquétipos, eram personagens-tipo que representavam lugares, muitas vezes cobardes, de estar numa ditadura. E eu, do alto dos meus 22 anos, achava que as podia julgar. Com mais ou menos mestria do ponto de vista de escrita, mas parti para aquele livro com uma enorme arrogância. E é interessante que, não sei se é a idade, se é a prática - este já é o meu oitavo livro -, tornei-me muito mais próxima das minhas personagens, gosto muito mais delas nas suas múltiplas dimensões, e acho que temos de ser sempre absolutamente justos. E eu tentei fazer isso com a Natália, em cada página do livro nós podemos amá-la e odiá-la, ela é uma personalidade extremamente complexa, e é isso que a transforma em alguém tão fascinante. E isso foi transposto para este romance?Sim, sem dúvida. Também porque estas personagens são muito mais próximas de personagens que eu conheço, portanto, tinha de ser justa com elas, não porque sejam figuras reais, mas porque as quis imprimir de humanidade, e imprimi-las de humanidade é exatamente mostrar a sua complexidade. Oferecer ao leitor todas as informações para que, concordando, não concordando, aceitando, não aceitando, gostando delas ou não gostando delas, podendo gostar delas à página 20, gostando menos à página 30, voltando a gostar delas à página 50, acho que nesse aspeto este livro comunica muito mais com a vida. E tenho tido reações muito bonitas de pessoas que já leram e que me mandam mensagens a dizer que 'a minha mãe também era filha de pai incógnito, e foi algo que a marcou muito, obrigada por contares esta história'.Isabel, a protagonista, é filha de pai incógnito e foi raptada por um casal quando era criança. De onde é que veio esse episódio?A minha mãe foi raptada com seis anos. A minha família materna era da zona de São Pedro do Sul, a minha avó ficou viúva muito nova, já tinha cinco filhos, e depois do marido morrer, ela ficou numa situação financeira muito complicada, e teve de ir trabalhar para as minas de Volfrâmio de São Pedro do Sul, que à época era um grande centro de exportação. Aquela vida era extremamente dura, principalmente para as mulheres - eu a determinada altura digo no livro que ela nunca foi violada porque não conhecia a palavra violação. A violência sobre o corpo da mulher era algo quase institucionalizado, não era para ser questionado. E a consequência dessas violações estava sempre ligada à mulher. Daí a existência deste estigma do pai incógnito. Era algo que existia e estava escrito no Bilhete de Identidade. Hoje em dia, eu estive a investigar, ainda há mais de 100 mil pessoas filhas de pai incógnito. Naquela altura, seriam algumas centenas de milhares. Era um estigma que percorria a vida quer das mães, quer dos filhos, como se houvesse esse conceito de maternidade sem paternidade. A minha avó quis vir para Lisboa e foi viver para aqueles bairros de barracas. E havia uma senhora que tinha tido uma filha que morreu e que não podia ter mais filhos. E andava à procura de uma menina. E esta ideia de ela andar à procura de uma menina era algo que não chocava as pessoas na época. Porque a verdade é que também havia muita gente que deixava os filhos recém-nascidos nos prédios das Avenidas Novas. Era comum nesse tempo?Eu consultei a imprensa da época e era muito comum notícias sobre a criança deixada no vão de escada. Portanto, isto do ponto de vista de alguém que vivia num contexto de privilégio era quase considerado como caridade ou como serviço social. Ela estava a dar àquela criança um futuro melhor. A minha mãe conta isto. Eu transformei para a história, mas a minha avó estava doente, e essa mulher e a criada entraram em casa, olharam para a minha mãe e disseram: ‘Ai que menina tão linda, tem umas sardas tão bonitas’, e levaram-na.E acabaria por voltar para casa, como se conta no romance?Durante alguns meses a minha mãe viveu numa casa nas Avenidas Novas. E a minha avó, analfabeta, nem sequer concebia como é que poderia agir face a esta situação, como é que poderia recuperar a filha. A única maneira que ela teve foi de, todos os dias depois do trabalho, agarrar nos irmãos da minha mãe, os meus tios, que ainda eram mais pequenos, e ia sentar-se no lancil do passeio a olhar para a janela do prédio. Até que a minha mãe a encontrou e a viu. E a partir daí, ela própria, criança, começou a boicotar a permanência naquela casa. Deixou de comer, deixou de dormir, passou a ser insubordinada. E depois a família quis adotá-la, oficialmente, a minha avó não permitiu, e ela foi devolvida com a roupa que trazia no mesmo dia em que a foram buscar. .A mãe da Isabel só ganha nome quase no fim da história, quando se relata a tortura que sofreu pela PIDE. Porquê? Porque há um reencontro. Quando o Gonçalo M. Tavares fez a apresentação do livro - é muito bonito quando um livro chega aos leitores e percebemos que é uma grande tapeçaria em que cada um puxa o fio que lhe comunica mais -, ele dizia que era um livro de alguém à procura de um pai. No sentido de alguém que nos defina, nos organize do ponto de vista identitário para que possamos ter um lugar no mundo. E ele fez vários paralelismos muito bonitos. E eu achei extremamente interessante a interpretação dele, porque, na verdade, este livro, partindo dessa busca identitária que inevitavelmente está relacionada com a busca de um pai, um pai ausente e desconhecido, é sobre o reencontro entre uma mãe e uma filha. E é nesse lugar de reencontro que esta mãe ganha nome. Daí esse processo e esta necessidade no final de eu dar nome e identidade. Sendo este livro um livro duro, acho que acaba com um movimento de esperança, de quebra de um ciclo geracional de perpetuação da violência.Daí o título No Meu Fim Está o Meu Começo? Exatamente. Depois, eu achei também que havia uma urgência cívica de falar sobre isto hoje em dia. Porque quando há pessoas que, sem terem vergonha, desejam três Salazares e isto é minimamente aceite, ou mesmo que não aceite é incluído no debate e no espaço público com uma certa naturalidade, há um dever da literatura de ser testemunha quando a memória falha.A literatura pode chegar mais facilmente ao coração das pessoas do que um livro de História?Com certeza. Nós somos contadores de histórias. É isso que nos define enquanto seres humanos. Como também somos os únicos animais que não sobrevivem sem o outro. Se não houvesse amor, se não houvesse o tal cuidado que está no centro desta obra, já estávamos extintos como os dinossauros. Por outro lado, também somos um conjunto de histórias sedimentadas umas sobre as outras. A História dos livros com H maiúsculo, à semelhança do jornalismo, calçam luvas de laboratório para não contaminar os dados. E há causas que merecem que esses dados e esses factos sejam contaminados do ponto de vista emocional, através de histórias reais, com nomes, com dados, com informação, com adjetivos. E hoje em dia há muitos sinais, basta abrir um jornal ou uma rede social e vermos que estamos a viver um retrocesso difícil e perigoso em determinadas áreas. Nomeadamente em relação às mulheres?Esta questão da violência estrutural em relação às mulheres. Quando vemos o surgimento de sites onde milhões partilham vídeos de violações e usam isso quase como um fator de entretenimento, percebemos que essa violência estrutural ainda existe nos dias de hoje. Com outras ferramentas, às vezes até mais insidiosas, mais perigosas. Por outro lado, quando reduzimos as pessoas ao coletivo, quando partimos do indivíduo para um conjunto de pessoas e lhes damos uma espécie de rótulo e elas parece que são desumanizadas, que é o que estamos a fazer no caso específico de algumas etnias, podemos cair no risco de achar que podemos entrar-lhes em casa e levar-lhes os filhos. Exatamente como no Estado Novo se considerava normal no caso das pessoas mais pobres. Quando começaste a escrever este livro, sabias que querias abordar estes temas e como a história iria terminar?Eu escrevo sem estrutura prévia e é na escrita que eu vou conhecendo em profundidade os meus personagens. Se partires com uma ideia muito fechada sobre o que é que queres, corres o risco de trair aquelas personagens. Eu sabia que ia haver um reencontro. Eu sabia que havia uma esperança e que essa esperança estava numa geração seguinte. Queria falar de três gerações de mulheres. Há um momento em que a filha da protagonista, da Isabel, sente necessidade de se afastar dela, percebe que o sentimento de orfandade da protagonista é superior ao amor de uma mãe. O amor que ela supostamente deveria sentir pela sua filha. E que ela não tinha lugar nessa ferida interior. Mas eu sabia que queria terminar com esse gesto de esperança. Porque eu tendo a ser uma otimista.Este romance demorou quanto tempo a escrever?Eu preciso de me isolar na medida do possível para escrever. Também é algo que eu não consigo abandonar, preciso de um ritmo de escrita diário, por necessidade. Este romance foi escrito das cinco às oito da manhã, todos os dias, antes de levar a Francisca à escola, quando a casa está em silêncio. Porque eu não conseguia abandonar esta história. Eu não conseguia deixar estas personagens num limbo. Também nunca tive dúvidas, apesar de não ter uma estrutura interna, do que ia acontecer a seguir. Não só no sentido da ação, mas no sentido do crescimento interior das personagens. Portanto, tive muito esta necessidade de nunca abandonar a escrita. Não tive um dia sem escrever durante estes cerca de seis meses. Em que é que estás a trabalhar agora? Em setembro vou rodar a minha segunda curta metragem, agora com uma produtora em Portugal. Porque adaptei para argumento uma história específica deste romance.É possível saber qual?É a história do rapto. É uma história que tem um valor próprio e pode ser circunscrita numa curta-metragem. E é uma história extremamente visual, porque aquela criança vai habitar dois universos que existiam, paredes meias. Porque muitos destes bairros existiam nas colinas à volta do que eram as Avenidas Novas. Tinhas a pobreza e a riqueza lado a lado, literalmente, como vemos agora em países como o Brasil, em que as favelas vão até aos bairros mais ricos. Aqui era exatamente a mesma coisa. E esta criança habita estes dois mundos, ela é a mensageira do contraste. E no caso específico do contexto mais rico, ela funciona como uma espécie de vírus que contamina, mas que também denuncia. Ela é a lupa que mostra todas as deformidades de uma vida aparentemente perfeita de uma classe social abastada. A linguagem do cinema entusiasma-te neste momento?Entusiasma-me muito. Entusiasmo-me principalmente com aquilo que eu ainda não sei. E esta ideia de haver uma série de ferramentas que estão à minha disposição e que podem servir esta história. Aqui é contar por imagens. E o narrador neste caso é sempre a câmara. Ainda está tudo muito no começo. Mas eu imagino que esta história vai ser muito contada da perspetiva da criança. O mundo vai ser visto a partir dos olhos dela. Logo, a câmara tem de baixar. Portanto, aquilo que a assusta terá de assustar o espetador. Aquilo que lhe surge deformado terá de surgir ao espetador também deformado. Eu quero muito olhar o mundo pelos olhos desta criança. És escritora, argumentista e também diretora de comunicação de uma empresa. Nunca pensaste em dedicar-te exclusivamente à escrita?Primeiro achei que era difícil viver da escrita, por razões mais ou menos óbvias. Cardoso Pires, Saramago, quando começaram a publicar, tinham edições de 70 mil exemplares... Depois esta ideia foi-se transformando e eu fui percebendo que, por um lado, eu não queria viver da escrita, porque ao viveres da escrita literária tens, inevitavelmente, de fazer compromissos. Eu escrevo romance, mas também escrevo argumento para cinema e para televisão e a grande alegria que eu tenho é de ser livre no meu lugar de identificação e identidade, que é a palavra escrita. E ser livre também representa não dependeres da escrita para pagar as contas. Eu já recusei, por exemplo, escrever novelas, porque não vejo novelas, portanto, seria uma péssima executante, e a verdade é que - e não desprestigio nem o meio, nem os autores que a escrevem -, as novelas representam uma enorme prisão para o autor, porque estamos a falar de muitos episódios, de um ritmo de escrita voraz e a minha escrita precisa de respiração. Eu preciso de tempo para me dedicar aos projetos, preciso que eles de alguma maneira dialoguem comigo, com os meus valores, acho que não consigo fazer uma separação entre aquilo que sou e no que acredito, daquilo que escrevo e sobre o qual penso. .Patrícia Reis: “Todos têm razão e não há espaço para a dúvida. É como se a incerteza fosse uma fragilidade”.João Tordo: “Sou dez vezes o escritor que era quando comecei”